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    Tragédia Anunciada


    Briga por campo de futebol em área verde vira caso de polícia no AM

    Os moradores do conjunto Ribeiro Júnior, no bairro Cidade Nova, em Manaus, contam que desde 2003 receberam da Suhab a concessão do espaço para a instalação de um campo de futebol. Porém, há quatro anos, um estrangeiro se apresenta como dono da propriedade e um conflito com a comunidade vem se estendendo até hoje

    Campo no conjunto Ribeiro Júnior vem sendo utilizado pela comunidade desde 2003 | Foto: Arquivo Pessoal

    Manaus - Um suposto empresário, que pediu anonimato, procurou o Portal Em Tempo, na última segunda-feira (27), para denunciar ameaças proferidas por um policial militar, ocorridas no domingo (26), durante uma ação de depredação envolvendo possíveis "vândalos" em uma propriedade situada na avenida das Flores, bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus. O homem conta que o policial usou da função e da farda, como agente de segurança, para intimidá-lo e o ameaçar de morte. No entanto, comunitários saíram em defesa do agente público e fizeram revelações contra a conduta do empresário, que seria um tipo "laranja". Por traz dele, está um estrangeiro, que vem loteando as terras em uma área verde - fruto de concessão do Governo ao conjunto Ribeiro Júnior.

    O homem, que se apresentou como empresário, conta que um de seus funcionários também foi vítima das ameaças. O fato, segundo os denunciantes, ocorreu por volta das 9h30 da manhã e virou caso de polícia. Um Boletim de Ocorrência (B.O) foi registrado no 6º Distrito Integrado de Polícia (DIP) como dano e ameaça. Além deles, os comunitários também formalizaram seis denúncias (B.Os) ao longo de quatro anos contra o empresário e o "laranja". Todas as ocorrências foram registradas na mesma delegacia citada acima. 

    Denúncia do "laranja" levanta contradições 

    Segundo o empresário "laranja", o policial, identificado como Charles C., é um dos moradores do conjunto Ribeiro Júnior e é considerado um dos líderes. Os membros costumavam jogar futebol em um terreno, que agora é de propriedade do empresário.

    Na ocorrência, o empresário conta que o policial estava fardado, sacou a arma e apontou em sua direção e também na do funcionário para, em seguida, proferir ameaças de morte enquanto outros membros da comunidade quebravam o muro da propriedade. Ao tentar sair do local, coagido pelo policial, o empresário conta que a lateral de seu veículo foi amassada com chutes.

    No entanto, os comunitários rebatem as afirmações e as taxam como caluniosas. "Ninguém tocou no carro dele. Inclusive temos vídeos do momento que mostram, inclusive, ele desacatando o policial militar", informou um dos líderes da comunidade Ribeiro Júnior. A reportagem teve acesso ao vídeo e realmente nele o "laranja" aparece xingando os comunitários e o próprio PM, configurando, assim, desacato à autoridade. 

    Conforme o empresário, esse não foi o primeiro episódio. Semanas antes, os moradores do conjunto tentaram derrubar o muro da propriedade. '’Ao ajudar os membros de sua comunidade a depredar meu patrimônio, ele fez uso do poder do Estado para fins particulares’’, declarou.

    Além do B.O, o "laranja" procurou a Corregedoria Geral da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM), para denunciar a atitude do policial. No local, o homem foi informado de que será aberto um procedimento administrativo para investigar a conduta do servidor durante a ocorrência. Por meio de nota, a SSP-AM ressaltou que a situação já é de conhecimento do órgão e que a Corregedoria instaurou uma sindicância investigativa para apurar os fatos.

    Em nota, a Polícia Militar do Amazonas destacou que não teve conhecimento sobre a denúncia e que na 6ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), responsável pelo patrulhamento ostensivo na região, não há nenhum PM com essa identificação. 

    Comunidade desmente acusações

    Na última quinta-feira (30), moradores do conjunto Ribeiro Júnior, incluindo o presidente comunitário, estiveram na sede do Jornal Amazonas Em Tempo, no bairro São Jorge, Zona Oeste de Manaus, para denunciar o empresário e rebater as "calúnias" contra o PM.

    Em algumas das confusões, a PM foi acionada para apaziguar os ânimos dos envolvidos
    Em algumas das confusões, a PM foi acionada para apaziguar os ânimos dos envolvidos | Foto: Divulgação

    O líder da comunidade, Antônio Newton Alves da Silva, de 58 anos, diz que o terreno, onde foi instalado o campo de futebol, foi doado para a comunidade por meio de uma concessão da antiga Chan, hoje Superintendência de Habitação (Suhab).

    "Em 2003, o terreno foi loteado pelo Governo e foi concedido para à comunidade 100 x 200 metros, que foi onde instalamos o campo de futebol da nossa comunidade", explica.

    Ainda de acordo com Silva, o empresário que procurou o Portal Em Tempo para fazer as denúncias contra o PM é na verdade um "laranja". Por traz dele está um chinês, dono de uma grande empresa em Manaus, que encontrou brecha para se apropriar o terreno.

    "Há quatro anos esse 'laranja' vem nos acoitando, intimidando e ameaçando. Esse comportamento dele fica mais intenso em início de ano, porque algumas autoridades - que acompanham o caso - entram de férias, ou recesso de alguns órgãos, e ele passa a ameaçar a todos", revela.

    No caso do PM, os moradores dizem que não o conhecem, mas agradecem o apoio que tiveram na ocasião. "Ele estava retornando de uma ocorrência na BR-174, quando avistou uma confusão (bate-boca) no campo. Ele parou e veio saber o que estava acontecendo, foi quando o 'laranja' começou a insultá-lo com palavras de baixão calão e o desacatando. Temos a denúncia em vídeo, que mostra tudo. Em nenhum momento o PM ameaçou o capanga do empresário. É tudo mentira dele. Essa denúncia na Corregedoria não tem fundamento nenhum", reclama Antônio. 

    "Esse PM, que acabou sendo denunciado, na verdade nos deu o livramento. Ele chegou bem na hora que um dos capangas do empresário, que também é policial e estava disfarçado, havia sacado a arma e estava apontando para a gente [comunitários]. O policial capanga estava à paisana, mas usou o armamento policial para nos intimidar e proferir ameaças. Isso é tão injusto. Sabermos que uma pessoa faz uso da estrutura do Governo para fins particulares", destaca o líder comunitário. 

    Furtos 

    Antônio conta que na última semana as traves, usadas para os treinos de futebol no local, foram furtadas. "Procurei a delegacia para formalizar a denúncia e lá foi feito um Boletim de Ocorrência, porém o investigador disse que só registraria o fato, sem suspeitos. Porque para apontarmos um suspeito teríamos que ter provas, e infelizmente a nossa palavra não vale de nada lá. Teríamos que ter fotos ou vídeos dele furtando. Então, o furto foi registrado, porém duvidamos que seja investigado". 

    O prejuízo dos furtos das traves é de aproximadamente R$ 1,2 mil. Os comunitários denunciam, ainda, que os capangas do empresário furtaram a fiação elétrica do campo de futebol, que foi instalada pela Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel).

    Além disso, a comunidade acusa o "laranja" de mandar retirar os postes com refletores do campo de futebol. "Chegamos no local e funcionários de uma empresa de energia elétrica já haviam retirado dois postes. Questionamos de quem havia partido a ordem e eles relevaram que era do funcionário do empresário, o tal "laranja". Pedimos então que apresentassem a solicitação e o proibimos de continuar a retirada até que o documento aparecesse, o que não aconteceu. Então, eles recolocaram os postes novamente", conta Antônio. 

    O material já foi furtado outras duas vezes e, segundo os comunitários, o principal suspeito é o 'laranja' a mando do empresário. Somando todas os três furtos, o prejuízo totaliza R$ 1,5 mil. "Estamos levantando esse dinheiro com a própria comunidade para repor a energia elétrica e as traves, toda vez que são furtadas ou danificadas pelos capangas do empresário". 

    Aproximadamente 12 moradores da comunidade estiveram presentes na sede do Em Tempo e, durante conversa com a reportagem, acusaram o funcionário "laranja" de fazer acusados levianas contra a honra e a dignidade do policial militar e também da própria comunidade. 

    Área Verde

    Os moradores denunciam que a área verde, de quase um quilômetro de extensão, corre o risco de ser totalmente devastada, pois o empresário passou a demarcar a terra e fazer loteamentos. "Ele está vendendo a terra. Um dos lotes, medindo 50 x 100 metros foi vendido por R$ 600 mil para um outro empresário. O chinês, que se apresenta dono das terras, tem só 145 processos nas costas. Agora você investigue a vida pregressa de todos os moradores que estão na sua frente agora, fazendo essas revelações. Não há um fichado, sabe por quê? Porque somos pessoas dignas e que só queremos o que é nosso, por direito. Não invadimos a terra, o local foi concedido pela Suhab. Estamos com o campo nesse local há mais de 15 anos. Aí recentemente aparece um cara que se diz 'dono' da terra e quer retirar o único espaço de lazer que temos na comunidade? Isto não está certo!", rebate Jander Lima, de 44 anos, morador da comunidade há 31 anos. 

    A artesã Maria de Jesus, de 65 anos, também moradora do conjunto há 31 anos, conta que a área verde poderia ser revitalizada pelo poder público e o local poderia dar espaço a um clube de mães, por exemplo.

    "Nossa comunidade é carente de espaços para o lazer e também para o social. Um clube de mães seria de suma importância em nossa comunidade. Nele, cursos poderiam ser ofertados tanto para a nossa comunidade quanto para as comunidades próximas. Eu, por exemplo, sou artesã e poderia ofertar técnicas de produção de artesanato para outras pessoas. Usar o espaço em prol da comunidade, e não em benefício próprio", lamenta a idosa.