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    Narcotráfico


    Traficantes comandam 'boca de fumo de luxo' em Manaus

    'Barões do tráfico' se escondem em condomínios localizados em áreas nobres de Manaus, de onde comandam a venda de drogas e ordenam execuções na cidade

    Dessas “bocas de fumo de luxo”, os barões do narcotráfico comandam o crime em Manaus | Foto: Reprodução/Internet

    Manaus -  O narcotráfico no Amazonas tem assumido um caráter ainda mais violento nos últimos anos. Com um elevado número de homicídios relacionados à guerra entre facções que disputam o controle da comercialização de drogas em Manaus, a sensação de insegurança entre a população tem aumentado. Enquanto o povo treme de medo nas ruas, os traficantes se instalam em imóveis caros situados em bairros nobres da capital. Dessas “bocas de fumo de luxo”, os barões do narcotráfico comandam o crime em Manaus. 

    Nos dois primeiros meses de 2020, três líderes criminosos foram presos em condomínios de luxo de Manaus. A primeira prisão foi no dia 15 de janeiro durante a operação “Domínio da Lei”, deflagrada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM). Francisco Gleison Jucá da Rocha, o “Plenitude”, braço direito do narcotraficante João Pinto Carioca, o "João Branco", foi preso acusado de homicídio qualificado e tráfico de drogas. Ele é apontado como o responsável pela logística da facção Família do Norte (FDN). 

    ‘Plenitude’ estava em um condomínio de luxo no bairro Ponta Negra, Zona Oeste de Manaus. Com ele, a polícia apreendeu dois veículos, R$ 2,3 mil e uma pistola. Essa não foi a primeira vez que ‘Plenitude’ é preso em um imóvel caro: no dia 25 de abril de 2019, o suspeito foi preso em flagrante com armas e munições no condomínio de luxo River Park, situado na avenida Torquato Tapajós, no bairro Colônia Terra Nova, Zona Norte. 

    A segunda prisão, também de supostos líderes da FDN, ocorreu em 5 de fevereiro deste ano. João Paulo de Souza Fernandes e Kalil Costa Almeida foram detidos em um condomínio de luxo na Ponta Negra. A prisão ocorreu no momento em que iriam realizar a entrega de drogas, de acordo com a polícia, que chegou até a dupla por meio de denúncia anônima. Dois carros foram avistados, mas um conseguiu escapar. Para a polícia, o carregamento de drogas estava no veículo que fugiu. Com João Paulo e Kali, foram apreendidas pistola e munições. 

    No entanto, os dois suspeitos foram postos em liberdade mediante pagamento de fiança.

     Segurança e ostentação 

    Plenitude (à esquerda), João Paulo e Kali Costa (à direita) são apontados como líderes da FDN
    Plenitude (à esquerda), João Paulo e Kali Costa (à direita) são apontados como líderes da FDN | Foto: Divulgação/Suyanne Lima

    Para o especialista em segurança pública, Raimundo Pontes Filho, essas prisões mostram que a cadeia do narcotráfico continua a se diversificar, alcançando segmentos sociais diferentes. Entre os motivos para a mudança dos traficantes para as áreas nobres, estão a necessidade de “variar o mercado” do tráfico de drogas e recrutar membros em todas as camadas sociais. 

    “Os condomínios fechados oferecem certa segurança, comodidade e privacidade para os criminosos”, diz Pontes Filho. Apesar disso, o especialista acredita que se esconder por trás de portões caros não é mais garantia de proteção para os traficantes. 

    “A investigação técnica e de qualidade faz a diferença e torna possível suplantar certos artifícios e camuflagens sociais”, argumenta.

    Além disso, a escolha por se instalar em residências caras serve para mostrar ‘status’ entre os criminosos e aliciar novos integrantes para as facções. 

     Carro que estava com Jõao e Kalil durante a abordagem da Polícia
    Carro que estava com Jõao e Kalil durante a abordagem da Polícia | Foto: Reprodução

    “Residências chiques e carros luxuosos servem como vitrines para dar publicidade à ilusão de que a atividade do narcotráfico, embora ilícita, compensa”, afirma Ponte Filho. “São ilusões de status e de poder para justificar o delito, recrutar desavisados, ambiciosos sem discernimento e indivíduos ou grupos sem escrúpulos nem maturidade”, completa.

    Sobre o fato de líderes de facções já estarem soltos sob fiança, Ponte Filho acredita que isso demonstra a necessidade de aprimorar o combate a esse tipo de crime. Segundo o especialista, o combate mais efetivo necessário para “evitar que a sensação de impunidade e descaso se difunda na população, por conta do empoderamento econômico de elementos oriundos da economia do crime”.

    O EM TEMPO entrou em contato com a Polícia Civil e a SSP-AM para falar sobre líderes de facção escondendo-se em condomínios de luxo, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

    Guerra declarada

    Em declarações à imprensa, o titular da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Louismar Bonates, declarou “guerra” aos chefões do narcotráfico que se escondem em imóveis de luxo. Ele afirmou que a instituição vai intensificar as investigações contra esses criminosos, a fim de prender os “barões” que comandam o crime em Manaus. Somente em 2019, foram apreendidas 1,2 mil armas de fogo e aproximadamente 2,4 mil toneladas de entorpecentes no Amazonas. 

    “É preciso de macropolíticas”

     De acordo com o sociólogo Luiz Fernando Souza Santos, para enfrentar de modo eficiente a cadeia do narcotráfico, é preciso pensar em soluções que vão além de aumentar o efetivo da força policial.  “É a saída mais simples, que faz parte do problema, mas sozinha não resolve”, opina. “É preciso de macropolíticas que resolvam problemas estruturais da sociedade, como o próprio sistema socioeducacional e as políticas sociais de modo geral”, diz.

    O sociólogo reconhece que o trabalho da polícia é a linha de frente no combate a esse tipo de crime, mas argumenta que é apenas uma parte da busca pela solução da onda de violência que assola Manaus. Questões como educação, saúde e trabalho também devem ser consideradas na hora de criar políticas de enfrentamento ao crime. 

    “Se não, só veremos aumentar a escalada da violência, chacinas que já são constantes e viram rotina na nossa existência, o que demonstram uma sociedade adoecida”, afirma Luiz Fernando. “O combate ao narcotráfico deve atravessar toda a estrutura, sejam pobres, ricos, áreas nobres. Sem isso, os fogos de artifício à noite comemorando a tomada de territórios por facções, que ainda nos assustam, vão se tornar rotineiros, o que significa que estaremos na barbárie e não haverá saída”, alerta.