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    Estelionato


    Homem desviava alimentos destinados às crianças de escola indígena

    Alimentos seriam entregues às famílias de crianças indígenas que estão sem poder fazer as refeições na escola devido a suspensão das aulas

    Alimentos são destinados às crianças de escola indígena no Rio Marauiá | Foto: Reprodução

    Manaus - Um homem, de 33 anos, foi indiciado por estelionato após desviar uma carga de alimentos que seria destinada às crianças indígenas do município de Santa Isabel do Rio Negro (distante 631 km de Manaus). Os alunos da escola estão com as aulas suspensas há semanas e os gêneros alimentícios foram enviados pelo governo do Estado para evitar que crianças carentes passem fome durante a quarentena. 

    A denúncia foi apresentada à 76º Delegacia Interativa de Polícia (DIP) pelo padre J.S. que administra a Escola Estadual Indígena da Sagrada Família, no Rio Marauiá, em Santa Isabel. O sacerdote estava com uma carga de alimentos fornecida pela Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc) e que deveria ser enviada a escola indígena que ele coordena.

    Escolas indígenas do AM também estão com as aulas suspensas
    Escolas indígenas do AM também estão com as aulas suspensas | Foto: Reprodução

    O município de Santa Isabel do Rio Negro está com as aulas suspensas desde a segunda semana de março, devido a pandemia do novo coronavírus. Até esta segunda-feira (4), o município tinha cinco casos de Covid-19, sem morte registrada, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). 

    Como o golpe aconteceu

    No dia 20 de abril, o padre recebeu a visita de um homem identificado como Egmar Palheta Cruz, 33, que dizia ser terceirizado da Seduc e que seria o responsável por levar os gêneros alimentícios até a escola indígena.

    "Eu  perguntei se já havia conversado com o professor Bosco, que é o coordenador da Seduc no município. Então ele [o suspeito] disse que já era do conhecimento do professor e que havia dito que a [liberação da] merenda da escola indígena dependia diretamente de mim [o padre]. Então, eu disse que o povo Yanomami do rio Marauiá está de quarentena e estão distantes de seus xaponos [malocas indígenas]", diz o padre J.S, em denúncia enviada à polícia.

    As comunidades que compõem a escola indígena são a 
 Serrinha,
Piranha, Tabuleiro, Komixiwë (Missão), Balaio e Pohoroá
    As comunidades que compõem a escola indígena são a Serrinha, Piranha, Tabuleiro, Komixiwë (Missão), Balaio e Pohoroá | Foto: Reprodução

    Mesmo com a restrição para ir até à comunidade, o suspeito de estelionato convenceu o sacerdote de que já havia falado com o titular da Seduc no município e também com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do governo federal. Egmar disse ainda que comunicaria representantes indígenas para receberem o alimento no dia 21 de abril, na cachoeira Piraíba, um ponto de encontro em Santa Isabel.

    "Diante dessa posição [do suspeito de estelionato] eu concordei que poderia levar a merenda, uma vez que os Yanomami poderiam estar precisando de mantimentos e o governador havia autorizado a  distribuição da merenda escolar aos alunos", conta o padre J.S.

    E assim, no dia 20 de abril, Egmar Palheta conseguiu levar a carga em um caminhão frete alugado de um homem que mora no município de Santa Isabel. Ele levou os gêneros alimentícios descritos a seguir, pelo padre: dez caixas de arroz; 12 caixas de salsicha; sete caixas de conserva; três caixas de sardinha; uma caixa de óleo; quatro caixas de charque; cinco caixas de açúcar; e uma de feijão.

    Caminhão onde foram devolvidas as mercadorias aos padres
    Caminhão onde foram devolvidas as mercadorias aos padres | Foto: Reprodução

    "Depois [o suspeito] voltou a pé para avisar que não iriam continuar mais o carregamento, pois o pneu do caminhão tinha furado. Ele combinou que viria no dia seguinte, dia 21, por volta das 8h, dizendo que viria com o caminhão, pois estaria disponível", comenta o padre.

    No dia seguinte, o Egmar não retornou até a comunidade salesiana, o que levantou suspeitas nos padres. Um integrante da comunidade procurou Egmar na cidade e o encontrou. Ele disse que estava esperando cair um dinheiro para pagar os transportadores e aluguel de botes e motores para levar os alimentos até a comunidade, que só pode ser acessada pelo Rio Marauiá. 

    Alimentos são destinados às crianças de escola indígena no Rio Marauiá
    Alimentos são destinados às crianças de escola indígena no Rio Marauiá | Foto: Reprodução

    Essa foi a última vez que os salesianos viram o homem. Logo depois, conseguiram falar com a pessoa que alugou o caminhão frete para ele e o dono do transporte comentou que os alimentos haviam sido deixados no depósito de um comerciante do município de Santa Isabel. Dessa forma foi como os padres descobriram que Egmar havia vendido os alimentos para outra pessoa. 

    Homem foi detido

    No dia 27 de abril, o delegado do 76º DIP, Aldiney Brito, foi alertado do acontecido por meio dos próprios padres e iniciou o trabalho de investigação.

    "O suspeito foi encontrado em Barcelos e indiciado por estelionato. No entanto, como ele não havia sido detido em flagrante, a delegacia daquele município decidiu por libera-lo, mas nós já estamos em contato com o poder judiciário para que sigam com os procedimentos em desfavor do acusado", comenta o titular da delegacia. 

    76º DIP em Santa Isabel do Rio Negro
    76º DIP em Santa Isabel do Rio Negro | Foto: Divulgação

    A carga foi recuperada no estabelecimento do comerciante que havia comprado os alimentos por cerca de R$ 2,3 mil, quando valia R$ 5 mil, segundo o delegado. Por esse motivo, o comerciante foi indiciado pelo crime de receptação, que é quando se adquire algo sabendo que é roubado.  

    Ainda em interrogatório, o comerciante disse que o suspeito de estelionato havia dito que os padres tinham autorizado a venda de uma parte da carga para pagar a gasolina que seria utilizada nos botes para levar os alimentos até os indígenas. 

    Aldiney Brito, delegado titular do 76º DIP
    Aldiney Brito, delegado titular do 76º DIP | Foto: Divulgação

    "Durante a investigação, descobrimos que o suspeito de estelionato ainda havia aplicado outro golpe. Ele foi encontrado em Barcelos e teria ido até lá com um barco alugado que alugou e não pagou. Egmar disse ao proprietário do transporte que realizaria o pagamento em dois dias, mas depois de uma semana ainda não tinha retornado", comenta o delegado Aldiney Brito.

    No dia 29 de abril, os padres da comunidade receberam de volta toda a carga de alimentos que havia sido desviada, para que agora possa ser encaminhada aos indígenas que vivem em comunidades no Rio Marauiá, em Santa Isabel do Rio Negro.