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    Guerra entre Facções


    FDN 'respira por aparelhos' na Compensa e CV leva mais cinco à morte

    Palco de cinco execuções na última semana, o bairro Compensa está sendo marcado por sangue decorrente da disputa entre o CV e a FDN

    Todos os mortos são removidos por equipes do Instituto Médico Legal (IML)
    Todos os mortos são removidos por equipes do Instituto Médico Legal (IML) | Foto: Suyanne Lima

    Manaus - Não é de agora que o bairro Compensa, na Zona Oeste de Manaus, tem sido palco de confrontos frequentes entre criminosos das facções Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN). Desde o início do ano, a guerra foi declarada e muito sangue derramado, mas, durante a pandemia do novo coronavírus, todos (moradores e traficantes) esperavam viver "momentos de paz": uma espécie de trégua dos arqui-inimigos. Já respirando por aparelhos há meses, a FDN foi surpreendida e perdeu esta semana mais cinco supostos recrutas do tráfico. Sobreviventes que semantiveram fiéis ao "comandante Zé".

    O plano do Comando Vermelho para o domínio total das bocas de fumo em Manaus inclui a matança de rivais que não aceitam se converter ao CV e se opõem a tomada de territórios da organização rival. Todas as mortes da semana passada possuem características de acerto de contas e, segundo a polícia, há indícios da participação das vítimas, seja direta ou indiretamente, com o tráfico. A Compensa é um dos últimos locais a resistir a entrada do CV.

    Execuções: uma a uma

    O primeiro ataque do CV da semana foi na segunda-feira (4), quando seis homens entraram em uma pizzaria, localizada na rua 28 de agosto, por volta das 3h, e executaram o entregador Samuel Nogueira Filho, de 22 anos, e o pizzaiolo Júlio Rodrigues da Silva, também de 22 anos. Samuel foi atingido por 17 tiros, já  Júlio por 11.

    Na ação, outras cinco pessoas foram baleadas, dentre elas, o filho da proprietária do lugar e também alguns amigos dele. Testemunhas informaram à Polícia Militar que os dois teriam recusado o convite para migrar para o CV, por isso teriam pagado a fidelidade ao narcotraficante Zé Roberto com as próprias vidas. 

    Com as mesmas características de execução, na noite daquele mesmo dia (6), por volta das 22h, o autônomo Deyvison Gonçalves da Silva Sá, que tinha 27 anos, foi executado com mais de 10 tiros. Esse crime ocorreu na rua Areal, conjunto Pantanal, na Compensa.

    Alguns dos jovens baleados foram levados ao SPA Joventina Dias, mas não resistiram
    Alguns dos jovens baleados foram levados ao SPA Joventina Dias, mas não resistiram | Foto: Divulgação

    O rapaz estava caminhando em via pública quando pistoleiros em um veículo, modelo Prisma, o abordaram e efetuaram os tiros. O jovem ainda chegou a ser socorrido e levado ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Joventina Dias, naquele bairro, mas não resistiu ao ferimento. Pela dinâmica do crime, segundo a polícia que foi até o local do crime, tudo indica que seja mais um acerto de contas pelo tráfico de drogas. 

    Sexta-feira sangrenta

    A última sexta-feira (8) foi marcada por novas execuções. Desta vez, a primeira vítima foi Carlos Thiago Brito dos Santos, de 32 anos, conhecido como "Loló". Ele foi surpreendido por rivais e não teve tempo de conversar com eles. Mesmo após ter tentado correr da avenida Brasil para a rua Senador José Estevão, os assassinos o perseguiram até matá-lo.

    Um rastro de sangue foi deixado pelas ruas do bairro após os criminosos atingirem "Loló" com, pelo menos, 10 tiros. Vizinhos da vítima confirmaram que o homem tinha envolvimento com o tráfico de drogas.

    Segunda execução da sexta

    A segunda execução daquele dia, foi por volta das 19h30, quando o autônomo Islan Oliveira Dias, que tinha 28 anos, foi executado a tiros na rua Santos Dumont. Desta vez, dois homens chegaram a pé, conversaram com a vítima que estava sentada na frente da casa onde morava e, em seguida, sacaram a arma de fogo e efetuaram vários tiros.

    Testemunhas informaram que os rivais do rapaz morto comentaram que ele mereceu a morte por ter supostamente 'apagado' um rival na área. Expressão utilizada por quem matou ou mandou matar um rival.

    Mesmo com a movimentação no lugar, os suspeitos fugiram a pé e a vítima agonizou até receber atendimento médico. Islan foi levado ao SPA Joventina Dias, onde já chegou sem vida.

    Violência que tinge de sangue as ruas da Compensa

    A onda de violência no bairro tem assustado moradores do lugar. Para o especialista em Segurança Pública, Raimundo Pontes Filho, essas execuções se dão pelo controle de áreas que interessa a economia do tráfico de drogas. 

    "Essa onda de criminalidade decorre da disputa acirrada entre essas facções. São de difícil prevenção e não há uma data certa para acabar, nem se pode prever um fim por diversos fatores. É necessário continuar tentando evitar que essas matanças aconteçam, não só responsabilizando os autores desses graves crimes, como também investindo na ocupação integral lícita e formativa de adolescentes e jovens. Ao invés de permitir que a economia do tráfico ilícito os recrute, o Estado deve chegar antes com a devida atenção e assistências, a fim de evitar que eles ingressem na atividade criminosa", avaliou Pontes Filho.

    Antes "protegidos" pelos traficantes que dominaram o bairro por décadas, hoje os moradores relatam que o clima por conta da atual onda de mortes é tenso.

    "O clima está tenso, sombrio e sinistro. Toda noite é um tiroteio. Por aqui falam que a FDN vai voltar a comandar. Sabemos que o alvo do CV é a Compensa. Aqui tem pessoas infiltradas em grupos criminosos. Tem vezes que antes de um morrer, já postam em redes sociais, como no caso do Carlos Thiago. Antes de ele morrer, já tinham avisado que iriam deitar um por rajada. Ninguém sai à noite porque está muito perigoso", contou uma moradora da Compensa - que não teve o nome divulgado para preservá-la. 

    Investigações

    O EM TEMPO tentou entrevistar o delegado Paulo Martins, titular da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), para entender a dinâmica das execuções e a relação delas com a disputa entre o CV e a FDN, mas o delegado não pode atender a equipe de reportagem.

    Em nota repassada pela assessoria de imprensa da Polícia Civil do Amazonas, a autoridade se limitou a dizer que os cinco casos citados na matéria estão em investigação e que as equipes da especializada encontram-se em diligências para identificar e, posteriormente, prender os envolvidos nos homicídios. 

    Já a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP-AM) informou, por meio de nota, que determinou reforço no trabalho de patrulhamento da Polícia Militar no bairro da Compensa para aumentar a segurança e inibir as ocorrências na região. As mortes registradas no bairro estão sendo investigadas pela DEHS, com apoio da unidade da Polícia Civil responsável pelo bairro. Mais detalhes não podem ser fornecidos para não atrapalhar as investigações.