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    Feminicídio


    Caso Miss é mais um feminicídio com assassinos à solta em Manaus

    Nos últimos 6 meses, seis mulheres foram mortas vítimas de feminicídio em Manaus. Famílias seguem pedindo respostas e querem ver os principais suspeitos atrás das grades

    O assassinos das vítimas continuam soltos
    O assassinos das vítimas continuam soltos | Foto: Divulgação

    Manaus - A população manauara parou, na manhã desta terça-feira (12), para acompanhar as manchetes que anunciavam a morte da Miss Manicoré, Kimberly Karen Mota de Oliveira, de 22 anos. Ela foi encontrada morta no apartamento do namorado no Centro, Zona Sul de Manaus. O principal suspeito do crime é Rafael Fernandez Rodrigues que, até o momento, permanece desaparecido. Kimberly pode ter sido mais uma vítima de feminicídio, só que ela não é a única nessa estatística.

    Nos últimos seis meses, outras cinco mulheres foram mortas brutalmente por companheiros em Manaus. A cidade tem sido palco de mortes brutais, e as famílias permanecem na busca por respostas e na esperança de ver os assassinos atrás das grades. 

    Enterrada no quintal

    O corpo da vítima foi enterrado no quintal da casa onde ela morava
    O corpo da vítima foi enterrado no quintal da casa onde ela morava | Foto: Divulgação

    Dos seis casos, apenas um teve solução. A vendedora de churrasco Maria Yolanda Avelino de Souza, 43, foi morta pelo companheiro e depois enterrada no quintal da casa onde morava com o assassino e o filho, situada na rua Yarapé, no bairro Monte das Oliveiras, Zona Norte de Manaus.

    Anderson Guimarães de Souza, de 33 anos, chegou a registrar um Boletim de Ocorrência (BO), noticiando o suposto desaparecimento da mulher. O objetivo era despistar a polícia. Enquanto não foi descoberto, ele permaneceu na casa com o corpo enterrado, gastando o dinheiro da vítima.

    21 dias depois do crime, Anderson se entregou à polícia e confessou ter matado Maria Yolanda, no momento em que ela estava lavando louças, com um golpe conhecido como ‘mata-leão’. Ele continuou segurando o pescoço da vítima até que ela morresse e permaneceu com o corpo dentro do imóvel por 24h, antes de enterrá-la.

    Torturada até a morte

    Heloísa tinha apenas 17 anos
    Heloísa tinha apenas 17 anos | Foto: Arquivo Pessoal

    Naquele mesmo mês, outra mulher foi morta com requintes de crueldade. A estudante Heloísa Medeiros da Silva, que tinha 17 anos, foi encontrada morta no dia 15 de dezembro de 2019, em um casarão no bairro Centro. Estrangulada, seminua e com sinais de tortura, Heloísa foi humilhada de todas as formas antes de morrer. O assassino, que teria uma relação amorosa com ela, ainda arrancou as   unhas e cortou os cabelos da jovem. A morte da adolescente e a impunidade causam dor à família dela todos os dias. 

    O caso continua sem solução e o principal suspeito do crime: Michael Saboia de Souza, de 19 anos, permanece foragido. O rapaz, era alguém da confiança da vítima - que desapareceu após sair com ele de uma festa. A família não conhecia o rapaz, mas desconfia de um relacionamento entre eles. Michael é considerado foragido da Justiça e possui mandado de prisão em aberto.

    A dor de duas mães

    "Eu só vou tirar o luto da minha filha quando esse homem pagar por tudo que ele fez com ela. Amanhã faz cinco meses que perdi a Heloísa e já teve tempo suficiente para que esse caso fosse solucionado. Sempre estou atrás de respostas e sei que têm pessoas escondendo esse rapaz, mas ninguém se coloca no meu lugar de mãe. A avó dele sabe onde ele está, mas ela não pensa no que eu estou passando.  Eu acredito que Deus está do nosso lado e vamos conseguir prender esse rapaz, para que ele esclareça porque fez isso com a minha filha. Aqui as lembranças dela estão muito vivas e isso me faz seguir em frente", declarou Vanusa Medeiros, mãe de Heloísa, em meio às lágrimas. 

    A jovem estava grávida de três meses
    A jovem estava grávida de três meses | Foto: Arquivo Pessoal

    Outra mãe que convive com a dor da perda é Francimara Moraes, mãe da garçonete Miriam Moraes da Cruz, que tinha  21 anos e foi encontrada morta com nove facadas, no bairro Tancredo Neves, Zona Leste de Manaus. A jovem estava grávida de três meses e o namorado Roberto Brito Marinho, de 26 anos, é o principal suspeito de cometer o crime. A motivação seria o fato dele não aceitar a gestação de Miriam e querer obrigá-la a abortar o próprio filho. O homem continua foragido. 

    "Como mãe, me encontro em desconforto e em desespero por ver que até hoje não houve Justiça pela morte da minha filha e do bebê que ela carregava. Não tenho resposta de nada, a polícia não tem me informado sobre o andamento do caso. O assassino continua solto e ninguém faz nada. Falaram que ele foi visto na casa da mãe dele há alguns dias. Eu só peço Justiça e a prisão desse homem", apelou Francimara. 

    Última ida ao hotel

    A vítima foi vista ao lado do namorado antes de ser encontrada morta
    A vítima foi vista ao lado do namorado antes de ser encontrada morta | Foto: Divulgação

    Eline Monique de Melo Oliveira, que tinha 18 anos, foi encontrada morta no dia 16 de fevereiro deste ano, em um quarto de hotel, no bairro Centro, com um golpe de arma branca na região da cabeça. 

    No dia do crime, o foragido da Justiça Nazareno da Silva Braz, conhecido como “Sapinho”,  que era namorado da vítima, foi visto, por meio de imagens da câmera de segurança do estabelecimento comercial, entrando com ela no lugar. Posteriormente, ele também foi visto saindo, mas desta vez sozinho. O corpo dela foi encontrado em um dos quartos minutos depois.

    "Sapinho" namorava Eline desde os 15 anos e é o principal suspeito do crime. O suspeito permanece foragido. 

    Não aceitou o fim

    A Polícia Civil voltou a divulgar nesta terça-feira (12), a imagem de Wendel de Oliveira, vulgo “Olhão”. O rapaz efetuou um disparo com arma de fogo na cabeça da ex-namorada dele, Wanessa Gonçalves da Silva, de 18 anos. O crime ocorreu no dia 21 de março deste ano, na avenida Brigadeiro Hilário Gurjão, no bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste de Manaus. A jovem foi mais uma vítima de feminicídio.

    Conforme o delegado Charles Araújo, adjunto da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), o crime ocorreu pelo fato do suspeito não aceitar o fim do relacionamento. 

    Especialista

    Para o sociólogo Luiz Antônio Nascimento, o feminicídio é um crime que precisa ser enfrentado e julgado pela sociedade e pela Justiça como inadmissível. O especialista também definiu o perfil de quem comete tal ato. 

    "Uma coisa é um crime de rua, aquele crime em que o bandido atua por crueldade em troca de furto, roubo e etc. O feminicídio é praticado por alguém da confiança da vítima, um cidadão de 'bem', que tem pai, mãe, irmãos e que foi criado ao longo da vida em um ambiente machista, violento, onde ele se sente dono de tudo. O machismo violento, não é um atributo biológico, ele é aprendido ao longo do tempo. Um assassino, apreendeu isso, no ambiente social onde vive e ele precisa ser duramente punido. Não é possível que um homem que comete tal ato não pegue 10, 12, 15 anos de cadeia. Esse crime deve ser punido com rigor", declarou. 

    De 2018 a 2019, o crime de feminicídio aumentou em 300% na capital, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM). O número de mortes saltou de três em 2018 para 13 no ano passado. 

    Investigações

    Michel Saboia está sendo procurado pela polícia
    Michel Saboia está sendo procurado pela polícia | Foto: Divulgação

    O EM TEMPO questionou a Polícia Civil do Amazonas sobre os crimes mencionados na reportagem. Em nota, o órgão respondeu que o autor do homicídio de Heloísa Medeiros continua foragido. O mandado de prisão em nome de Michael Saboia foi expedido e as equipes estão em busca de cumprir o mandado.

    Roberto não teria aceitado a gravidez da garçonete e por isso matou a vítima com nove facadas
    Roberto não teria aceitado a gravidez da garçonete e por isso matou a vítima com nove facadas | Foto: Divulgação

    Já no caso de Miriam Moraes, o carro utilizado por Roberto foi apreendido. “Os mandados ainda estão válidos e os investigadores ainda estão à procura do foragido. O carro que foi utilizado pelo Roberto já foi periciado. As investigações apontam que Roberto foi a última pessoa com quem Miriam falou e a suspeita é que o crime foi motivado por ele não aceitar a gravidez”, explicou a delegada adjunta da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), Zandra Ribeiro. 

    "Sapinho" ainda tentou alegar que a vítima teria se suicidado
    "Sapinho" ainda tentou alegar que a vítima teria se suicidado | Foto: Divulgação

    No caso, de Eline Monique, a assessoria informou que as investigações em torno do caso seguem em andamento e mais informações não poderão ser repassadas no momento.

    Wendel não teria aceitado o fim do relacionamento
    Wendel não teria aceitado o fim do relacionamento | Foto: Divulgação

    O suspeito Wendel de Oliveira, que é apontado como assassinado da jovem Wanessa Gonçalves, continua sendo procurado pela polícia e denúncias sobre o paradeiro dele podem ser feitas à DEHS pelo número: (92) 3636-2874, ou pelo 181.

    Caso Miss

    Sobre o caso de Kimberly, a polícia informou que a amiga de Kimberly falou em depoimento que a motivação do crime pode ter sido o término do relacionamento. Conforme a delegada Zandra Ribeiro, Rafael é servidor funcionário de um órgão público e ainda não foi possível traçar um perfil da personalidade dele. Dentro do apartamento foram encontrados os documentos funcionais do suspeito, que tem 31 anos e é natural de São Bernardo do Campo (SP). 

    "O suspeito não tinha passagem aqui em Manaus pela polícia, entretanto, investigações estão sendo feitas para apurar se em São Paulo (SP), ele possuía passagem. Assim podemos traçar o perfil do homem e entender a dinâmica e a motivação do crime. A autoridade policial informa ainda que Rafael não embarcou para São Paulo segundo levantamento junto à Delegacia do Turista", concluiu a PC-AM em nota.