Fonte: OpenWeather

    Insegurança


    Profissão do perigo: motoristas de app sofrem com violência em Manaus

    Visados por criminosos, motoristas de app contam com táticas especiais contra casos de violência. Rastreamento de veículos cresceu na pandemia

    Casos expõem o medo que estão submetidos os motoristas que trabalham conduzindo passageiros por meio de aplicativos | Foto: Reprodução

    Manaus - A sensação de insegurança em Manaus faz motoristas de aplicativos circularem sempre com ‘uma pulga atrás da orelha’. A profissão na capital amazonense tornou-se sinônimo de perigo. Isto porque, segundo lideranças da categoria, cinco profissionais que atuavam nas plataformas foram mortos, entre 2017 e início de 2020, no exercício da função. A média é de um assalto por dia, sem contar com os furtos, que são atos recorrentes.

    Em março deste ano, um motorista de aplicativo de 26 anos foi assassinado a tiros, no bairro Lírio do Vale, Zona Oeste de Manaus. De acordo com a Polícia Militar, a suspeita é de que a vítima tenha sido atraída para uma emboscada em uma rua sem saída. Os suspeitos do crime fugiram.

    Em outubro do ano passado, um motorista por aplicativo identificado com Jairo Rodrigues Lavaredo Coser, de 46 anos, foi assassinado na Rua Ibicoara (antiga rua 12) no bairro do Novo Aleixo, Zona Norte de Manaus. Segundo policiais da 27ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), Jairo foi acionado por um aplicativo para fazer uma corrida naquela rua, mas quando chegou ao local, dois homens ocupando uma moto o abordaram com uma faca e tentaram roubá-lo. A vítima reagiu e foi atingida com 14 facadas.

    Esses e outros casos são relatados diariamente no EM TEMPO. E os casos expõem o medo que estão submetidos os motoristas que trabalham conduzindo passageiros por meio de aplicativos.

    “Já passei por várias situações de tentativas de assalto, em um dos casos ‘meliantes’ levaram meu celular e minha renda, mas quando foram acionados os outros motoristas e o Ciops conseguimos localizar o celular. Tem muitos motoristas utilizando o sistema de rastreamento dos carros, mas os grupos de motoristas que funcionam mesmo para fazer esse monitoramento, em casos de tiroteio ou evento irregular os grupos já avisam e previnem ocorrências”, revela Alexandre Matias, representante da Associação de Motoristas por Aplicativo em Manaus.

    Insegurança

    O motorista Railson Gomes, que trabalha na profissão há dois anos e meio, diz que já sofreu dois assaltos. Em um deles, a ação foi feita por um casal. A moça solicitou a corrida e, ao entrar no veículo avisou que iria acrescentar uma parada. Quando Railson viu que o destino era uma rua perigosa, já conhecida pelos motoristas, avisou aos parceiros pelo grupo, mas mesmo assim seguiu com a viagem.

    "Chegando na rua da parada, já fui fazendo a manobra para ficar de frente para rua, mas nessa hora o rapaz entra no carro. Eu havia esquecido de travar as portas e quando ele entrou já fiquei assustado. Perguntei da moça se era o mesmo e ela disse que sim, então eu comecei a sair da rua em direção ao lugar onde tinha buscado a moça. Saindo de lá, o cara começou a puxar assunto, perguntou como estava o movimento, se já tinha feito uma grana boa, eu estou a quase três anos nisso e eu respondi ‘mano estou começando agora, vocês estão sendo minha segunda corrida da noite’ e então ele ficou calado. Eu comecei a pensar ‘esse cara vai me assaltar’", fala o motorista.

    O assaltante apontou um revólver na cara do motorista e tentou atirar, mas a arma falhou
    O assaltante apontou um revólver na cara do motorista e tentou atirar, mas a arma falhou | Foto: Reprodução

    Railson conta que tinha uma quantia de R$ 700  no carro, que era para pagar o veículo. Guardava um valor menor em uma bolsinha, cerca de R$ 50 em cédulas de valor menor. Chegando no destino final, uma área escura da rua, o passageiro anunciou o assalto. “Eu me lembro muito bem que ele disse ‘É meu irmão, você perdeu. Era para você estar em casa’. Ele colocou a arma na minha cabeça e pediu o dinheiro. Eu repeti que havia começado a trabalhar não fazia muito tempo e ele insistiu, eu ofereci a bolsinha com o dinheiro e ele disse que não acreditava que eu só tinha aquilo. Ele me deu uma coronhada na cabeça, engatilhou a arma e puxou o gatilho, mas graças a Deus a arma falhou duas vezes. Então, desesperados, saíram do carro e correram”.

    Depois do choque o motorista ainda tentou reaver o dinheiro, mas aconselhado pelos amigos desistiu da busca e foi até o posto de gasolina mais próximo. “Cheguei lá e fui amparado pelos meus amigos e aliviado que estava vivo”, finaliza.

    Darlan Melo, 22, foi motorista por aproximadamente um ano e meio, parou desde o começo da pandemia, e disse que nesse intervalo em que esteve ativo praticamente nunca foi assaltado ou nada do tipo. “Posso dizer que já passei por uma situação de risco onde consegui sair. Eu aceitei uma corrida a noite pelos arredores da Compensa, de uma mulher, e ao chegar no local não tive sequer sinal da mesma e vi pelo retrovisor dois homens aproximarem-se rapidamente do veículo, um pela frente e outro por trás, o que me fez dar a volta imediatamente e ir embora”.

    Ele explica ainda que além do sistema de segurança do próprio aplicativo, a maioria dos condutores desenvolvem outros métodos de prevenção. “Temos métodos preventivos desenvolvidos pelos próprios motoristas, como rastreadores veiculares e rede comunicativa entre um grupo de motoristas parceiros onde possuem até mesmo uma linguagem codificada para que somente eles próprios entendam (similar ao rádio de taxistas), por exemplo”.

    Tentativa de melhora

    Em janeiro deste ano a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) tentou implantar, como método de segurança, a utilização de um selo nos carros dos motoristas. A ideia era fazer um cadastro e identificação dos veículos, e quando passassem em uma blitz fossem parados para verificar se estava tudo em ordem. De acordo com Alexandre, os motoristas não aderiram ao sistema por não acreditarem na eficácia dele e pelo medo de serem identificados por criminosos.

    “Muitos motoristas ficaram com medo desse selo ser um identificador e dos meliantes marcarem o motorista, porque muitos moram em periferias e iriam ficar com o carro guardado ou exposto na rua sinalizando que aquele motorista é ganso da polícia ou pertence a SSP” conta o condutor.

    Grandes empresas como Uber e 99POP aperfeiçoam constantemente seus sistemas de segurança tanto aos motoristas, quanto aos passageiros. Aos motoristas os métodos vão desde a verificação de CPF dos passageiros, até possibilidade de acionar a polícia por meio do próprio aplicativo, além do bloqueio de viagens consideradas potencialmente mais arriscadas e a checagem da rota, caso seja feita uma parada fora do percurso ou muito demorada. A empresa também conta com um Código de Conduta a ser seguido pelos usuários.

    Além destes, as empresas também oferecem treinamentos, cursos especializados e dicas práticas de proteção e orientações sobre combate ao assédio, desrespeito e discriminação, e no caso da 99 uma área de Safety (segurança) da empresa, formada por uma equipe multidisciplinar com ex-militares, engenheiros de dados e psicólogos, prontos para analisar todo o sistema de corridas a fim de evitar os casos de violência.

    O Portal EM TEMPO entrou em contato com Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP), solicitando dados de casos de violência a motoristas, mas até o momento não obteve resposta.

    Oportunidade

    Um dos únicos setores que não foram tão afetados pela pandemia foi o da segurança. De acordo com Thiago Ximenes, gerente geral da Raio Rastreadores, durante a crise da pandemia da Covid-19 a demanda foi crescente. "A gente conseguiu manter os preços e atrair mais clientes, principalmente motoristas de aplicativos e os que trabalham com entrega de comidas, que são mais propícios a sofrerem com os assaltos".

    Os rastreadores podem ser eficientes nos casos de roubo de veículos
    Os rastreadores podem ser eficientes nos casos de roubo de veículos | Foto: Divulgação

    Thiago ainda falou que o rastreamento é mais eficiente que seguros, em relação a roubos de veículos, já que a empresa oferece atendimento efetivo com suporte 24 horas.

    O rastreamento funciona por meio de um aplicativo que possui diversas funções e é cadastrado com o veículo que o motorista indicou no contrato de serviço.

    Leia mais

    Economia: tecnologia nos negócios no pós-pandemia

    Aplicativo de transporte cobra apenas taxa mensal aos motoristas

    Número de entregadores de aplicativos cresce quatro vezes em Manaus