Estratégia Política


Segurança pública é principal pauta de candidatos com carreira militar

Os postulantes propõem ações integradas entre governos municipais e estaduais para melhorias na segurança da capital

Apesar das limitações, os candidatos acreditam que podem melhorar a segurança municipal
Apesar das limitações, os candidatos acreditam que podem melhorar a segurança municipal | Foto: Divulgação

Manaus - Mesmo não sendo competência do poder Executivo, uma das principais propostas apresentadas nas eleições municipais deste ano está relacionadas a segurança pública. As iniciativas estão ligadas ao aumento na quantidade de candidatos com histórico militar, ao todo 73 postulantes disputam as vagas na Prefeitura de Manaus e na Câmara Municipal e mesmo que possuam experiência os candidatos devem encontrar barreiras para mudar o cenário em Manaus nos próximos quatro anos, caso sejam eleitos. 

O aumento de policiais que disputam o poder ganhou força nas eleições gerais de 2018, quando o capitão reformado e presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), foi eleito e junto a ele, mais 72 militares em cargos no Senado, no Congresso e nas casas legislativas estaduais. O resultado deu força e visibilidade aos agentes de segurança pública que já pensavam em seguir carreira política.

Em Manaus, com propostas voltadas para a segurança pública, estão concorrendo a cargos de vereador 71 candidatos com carreira militar, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre eles, são 16 coronéis, 15 sargentos, quatro tenentes, um subtenente e cinco cabos, e um dos nomes mais cotados é do Capitão Carpê Andrade (Republicanos). 

Concorrendo à Prefeitura, Coronel Menezes e Alberto Neto são alguns dos candidatos que recebem o apoio de Bolsonaro
Concorrendo à Prefeitura, Coronel Menezes e Alberto Neto são alguns dos candidatos que recebem o apoio de Bolsonaro | Foto: Divulgação

Para o cientista político Helso Ribeiro, a influência de Bolsonaro ainda é forte em diversas cidades brasileiras, principalmente na capital amazonense, onde o presidente teve uma quantidade significativa de votos, e isso pode ser observado pela disputa do apoio dele entre, pelo menos, dois candidatos ao cargo de prefeito. Além disso, o cientista explica que a competência legislativa de um vereador é residual, quase mínima. Em relação a candidaturas a prefeito, estes também podem contribuir para a segurança pública, mas ficam limitados a um orçamento curto e guardas municipais despreparados.

"A onda de 2018, que trouxe vários deputados e senadores na cola do presidente Bolsonaro, era uma onda muito voltada para a segurança pública. Esse discurso continua e eu diria que vai continuar por muito tempo. O Brasil é um dos países que mais tem homicídios dolosos no mundo, além disso nós temos um número de desaparecimentos sem igual e um alto número de roubos e furtos, ou seja, é um assunto que toca muito a nossa vida. Os candidatos à CMM trazem esse discurso, todos muito individualistas, e a população quer ouvir esse discurso pelo fato dela padecer com uma insegurança imensa", destaca.

Visibilidade à categoria

Dos 11 candidatos a prefeito, três possuem histórico policial: Capitão Alberto Neto (Republicanos), o candidato a vice-prefeito Coronel Augusto Cezar (DC) e Coronel Menezes (Patriota), ex-membro das Forças Armadas. Entre eles, as propostas mais fortes são voltadas à segurança pública, como o armamento e treinamento da guarda municipal, e a atuação integrada entre estado e município.

Manaus é uma das capitais brasileiras marcadas pela violência e combate entre facções. Ao entrar neste contexto, de acordo com a Constituição Brasileira, o poder municipal possui uma atuação limitada, cabendo apenas ações públicas para a diminuição da criminalidade, como a manutenção da iluminação pública, além da atuação da guarda municipal para a proteção de bens e patrimônios públicos.

Bombeiros e policiais militares são algumas das categorias responsáveis por garantir a segurança pública do estado
Bombeiros e policiais militares são algumas das categorias responsáveis por garantir a segurança pública do estado | Foto: Divulgação

Para o policial militar e presidente em exercício da Associação das Praças da Polícia e Bombeiro Militar do Amazonas (APPBMAM), Guthemberg Oliveira, apesar de a atuação da polícia não ser de competência municipal, muitos candidatos tentam garantir a presença da categoria para atender as demandas da população.

"A nossa categoria é vinculada ao estado, mas todos os nossos policiais têm as suas respectivas famílias, e entendem que através dessa inserção na política, com o amadurecimento político, os policiais poderão ser olhados de uma outra forma, criando uma base política muito grande. Nós temos a perspectiva de conseguir a eleição de quatro praças e dois oficiais da Polícia Militar e a nossa intenção, com a eleição desses policiais, é demonstrar uma forma diferente de trabalhar e de representar os policiais e bombeiros militares", afirma.

Policial militar há 16 anos, o sargento Valdenor Lima também avalia as candidaturas de forma positiva, principalmente porque os profissionais estão em contato direto com as mais diferentes realidades sociais, e espera que isso gere boas perspectivas a eles e à população. 

"Acho louvável alguns colegas se proporem a ocupar um cargo político. O policial militar conhece muito das mazelas da nossa sociedade, principalmente naqueles lugares que o poder público não conhece ou não tem acesso, onde as pessoas vivem em condições desumanas. Muitos jovens deixam de ir à escola, deixam de ter o acesso à educação, nós vemos isso todos os dias. O crime recruta esses adolescentes, as crianças. Acredito que pela vivência, os policiais podem agir não só na segurança, mas em questões sociais, que também são importantes", destaca o policial.

Apoio da população carente

Segundo o cientista político, o uso do título da profissão na nomenclatura para a campanha é um ato antigo, que pode ganhar a crença dos eleitores, mas que pode ocasionar um discurso falacioso, onde muitos candidatos acabam não cumprindo suas respectivas propostas. "Isso acaba gerando, em parte da população que é carente de segurança, uma espécie de luz no fim do túnel", afirma.

Um dos candidatos à Prefeitura, Coronel Menezes (Patriota), aposta no reconhecimento de seu trabalho para a sua eleição.  "Uso coronel porque trabalhei 30 anos no Exército e abri mão de concorrer ao 'generalato' para trabalhar na iniciativa privada, além de me orgulhar muito de ter servido ao meu país em varias missões internacionais. Nós, militares, somos estadistas, temos amor ao nosso país e não temos preconceito. Contribuímos nas Forças Armadas e queremos contribuir com a política local que vive uma oligarquia comandada por cinco caciques políticos há 40 anos que trouxeram apenas o atraso para a cidade e o descaso com as pessoas", explicou. 

O candidato interviu na realização de um assalto, mas não obteve boa reação pública
O candidato interviu na realização de um assalto, mas não obteve boa reação pública | Foto: Divulgação

A linha entre agir em benefício da sociedade e agir para se autopromover é tênue, especialmente no meio político. Exemplo disso foi o que aconteceu na manhã desta terça-feira (07), quando o candidato Alberto Neto atuou para combater um assalto a transporte coletivo, ocorrência  que já estava sendo atendida por policiais militares da 11ª Companhia Interativa de Polícia (Cicom), durante a realização de um ato de campanha. Após divulgar fotos do ocorrido, onde ele aparece com adesivos divulgando sua campanha, o candidato passou a ser alvo de críticas e até memes, nas redes sociais.

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