Com a palavra


'É importante que o eleitor seja criterioso', diz Helso Ribeiro

O especialista afirmou que, em um eventual cenário de segundo turno, os índices de rejeição podem influenciar no resultado destas eleições

O especialista afirmou ainda que não houve nada nessa campanha que envolvesse os eleitores
O especialista afirmou ainda que não houve nada nessa campanha que envolvesse os eleitores | Foto: Leonardo Mota

Manaus - Helso Ribeiro é advogado, professor e cientista político em Manaus. Participou de grêmios estudantis e reinvindicações escolares e, posteriormente, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esteve à frente de diversas mobilizações políticas, inclusive pelo término da ditadura militar. E desenvolveu o interesse pela política durante a adolescência, no entanto o tema já era presente em sua vida desde a infância.

Ao analisar o cenário das eleições deste ano, há sete dias da votação, o especialista afirmou que é possível uma reviravolta entre os quatro principais candidatos que encabeçam as pesquisas e que, pelo menos na atual conjuntura, é difícil um candidato inexperiente ter algum tipo de ascensão. Além disso, Helso também explicou que em um possível segundo turno é necessário que os candidatos se articulem, desde cedo, para conseguir alianças e conquistar o eleitorado, especialmente com um período mais curto disponível.

EM TEMPO: Iniciamos a campanha com um eleitorado apático. Esse cenário mudou até o momento?

Helso Ribeiro: Ainda que as eleições locais acabem envolvendo um número maior de pessoas, porque são muitos candidatos que estão próximos do eleitor, a democracia representativa vem sofrendo um desgaste não só em Manaus, como no mundo inteiro, nos últimos anos. Isso gera a apatia de boa parte do eleitorado. Esse cenário só muda quando há algo muito impactante, como não houve, acrescido à questão da pandemia que impôs o isolamento, as eleições deste ano não tiveram nada gritante que envolvesse ou empolgasse boa parte do eleitorado.

EM TEMPO: Durante esse período muitos candidatos apresentaram novas propostas parecidas, à sequência um do outro. Isso pode ter despertado o desgosto do eleitor?

Helso Ribeiro: O descrédito é grande, se pegarmos as plataformas de governo veremos que são parecidas. O eleitor vê, na melhor das boas vontades, uma utopia de um determinado partido ou candidato às vezes está muito distante de uma realidade. Isso gera um desgosto no eleitor e ele vê que ás vezes são promessas meramente eleitoreiras, o que, conforme dito anteriormente, gera o desgaste da democracia.

EM TEMPO: Em um eventual cenário de segundo turno entre Amazonino Mendes e David Almeida, é possível afirmar quem irá ganhar? 

Helso Ribeiro: Em um possível cenário entre Amazonino e David Almeida entendo que será uma nova eleição. Caberá aos dois, de forma muito rápida, no dia da eleição e até antes, sei que já estão fazendo isso, que é procurar alianças. A diferença, nesse ano, entre o primeiro e segundo turno será menor. É uma nova eleição, tudo pode acontecer, teremos que analisar o cenário do dia 15 a noite e como serão as articulações que eles irão fazer. É importante nós pegarmos as pesquisas e verificarmos a rejeição de candidatos, isso tem direcionamento importante para o segundo turno. Tem candidatos que tem forte rejeição, como o ex-prefeito Amazonino Mendes, e para diminuir isso em um curto espaço de tempo não será impossível, mas trabalhoso. Já David Almeida, a rejeição é bem menor, isso direciona em uma possibilidade de adesões.

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Nenhum dos 11 candidatos pode ser considerado imbatível "

Helso Ribeiro,, advogado e cientista político

EM TEMPO: Ainda nesse momento, há uma semana do dia da votação, há alguma possibilidade de reviravolta?

Helso Ribeiro: Acredito que é possível. Há uma certa dúvida em relação ao crescimento do Ricardo Nicolau e do José Ricardo. Tudo é possível nesse meio. Mas vamos colocar o pé no chão, candidatos que estão lá na "rabeta" das pesquisas, tirando os quatro primeiros, é muito difícil conseguir mudar os resultados atuais, eu diria quase impossível. Ainda assim, acredito que o eleitor que se identifica com todos que não estão pontuando, eu diria que vote nesses candidatos. O primeiro turno é feito para isso, para se identificar ideologicamente com alguém e dar o seu voto, mas em termos de possibilidade de mudança acredito que para esses sete é muito difícil.

EM TEMPO: Veteranos e novatos discutem a questão da experiência durante essa campanha. Essa pode ser caracterizada como uma eleição de “gigantes” ou novatos ainda podem ter destaque?

Helso Ribeiro: Esse desgaste da política junto à população faz com que gere descrenças, então houve esse discurso do 'novo', que não é só brasileiro não. Mundo afora novatos foram guindados a postos-chave, aqui em Manaus tivemos o governador Wilson Lima. Acredito que muito rapidamente a população consegue ver que a política não é algo imediatista, então é necessário sim alguma experiência. Isso não significa que a pessoa tenha que ser um político carreirista, mas é necessário que tenha conhecimento técnico para administrar uma cidade como Manaus, por exemplo. Eu não vejo nessa eleição, nesse atual quadro em Manaus, a possibilidade de um novato ascender à Prefeitura. Quando eu falo novato digo alguém que não tenha participado anteriormente de alguma experiência parlamentar ou no Executivo. 

Para Helso, apesar do discurso pelo novo ser cada vez mais comum, não parece ganhar força nestas eleições
Para Helso, apesar do discurso pelo novo ser cada vez mais comum, não parece ganhar força nestas eleições | Foto: Leonardo Mota

EM TEMPO: Que fator deve-se levar em consideração para escolher um candidato, tanto no primeiro quanto no segundo turno, quando as propostas são tão parecidas?

Helso Ribeiro: Vou citar Thomas Jefferson, um pensador, intelectual, ainda do século 18, que dizia que a democracia tem seus erros, mas quando ela errar a solução seria dar mais educação à população, que melhorariam as escolhas. Isso é que deve pautar a escolha do eleitor, na minha opinião. Quanto mais ele estudar, se intrometer na política, mais ele vai conseguir separar figuras e partidos. Cabe ao eleitor, e aí é um trabalho de cidadania, investigar qual o partido, ás vezes essas pessoas têm discursos que contrapõem a ideologia partidária, qual o histórico daquele candidato, e eu entendo que no sistema brasileiro majoritário é fundamental a ideia de ideologizar a escolha do primeiro turno. Se o sujeito é ambientalista, vote em um candidato que defenda isso, se é capitalista, vote em um candidato que defenda isso. Sou meio refratário à tentativa de voto útil, mas acho que nesse primeiro momento é importante o eleitor ser criterioso, tem que pesquisar o histórico, se tiver afinidade ideológica já facilita.

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As eleições deste ano não tiveram nada gritante que envolvesse ou empolgasse boa parte do eleitorado "

Helso Ribeiro,, advogado e cientista político

EM TEMPO: Amazonino está em primeiro lugar nas pesquisas, ele pode ser visto como imbatível ou ainda pode perder força como em eleições anteriores?

Helso Ribeiro: Diria que não se pode negar a força que ele tem, foi governador, três vezes prefeito, senador, mas imbatível acho que está distante de ser. Ele que tem a maior rejeição, junto com Alfredo Nascimento, e em um primeiro momento está fugindo de debates, acho que isso sofrerá uma cobrança no segundo turno também. Salientando o que já foi respondido anteriormente o segundo turno é uma nova eleição, claro que tem um lastro do primeiro turno, isso é evidente, mas acho que não tem nenhum dos 11 candidatos que se possa dizer que seja imbatível.

EM TEMPO: A preferência do eleitorado mais velho tende a ser diferente dos mais jovens?

Helso Ribeiro: Se nós quisermos dividir apenas entre velhos e jovens fica algo muito generalista. O eleitorado, tanto o de mais idade quanto o mais novo, é heterogêneo, tem gosto para todos os lados. Tem pessoas de bastante idade que tem ideias novas e tem pessoas muito novas que tem ideias velhas. As pesquisas que são desenvolvidas de forma séria marcam a preferência do eleitorado por faixa de idade e corroboram essa minha afirmação, que há essa heterogeneidade. Vamos ver como esse eleitorado vai se comportar. A pessoa mais nova ás vezes quer, talvez, mudanças mais radicais. Isso de forma genérica, claro que há algumas particularidades que fogem a essa regra.

EM TEMPO: Qual perfil de prefeito poderia conquistar o eleitorado diante do atual cenário político?

Helso Ribeiro: O eleitorado tem um perfil múltiplo, são pessoas de vários perfis, então é difícil etiquetar apenas um perfil para prefeito. Acredito que boa parte da população, portanto dos eleitores, até mesmo quem não é eleitor, gostaria de um governante sério, que conseguisse minimizar as agruras da cidade, que são muitas. Manaus é uma cidade-estado, a única capital grande do país que tem mais da metade da população do estado, e nós sabemos que não existe milagre na política. O prefeito que for eleito terá um trabalho árduo. Penso que parte da população gostaria de ver obras que foram iniciadas, sendo tocadas, porque é um desgaste muito grande do dinheiro público. O que chega [prefeito] ás vezes quer encobrir o que os anteriores fizeram e acabam deixando para trás obras inacabadas.

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