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    Vacinação


    Políticos do AM criticam Queiroga por vacinação lenta e sem cronograma

    Sem detalhes oficiais, o ministro da Saúde chegou a afirmar que, até o final de 2021, todos os brasileiros com idade acima dos 18 anos já estariam vacinados contra a Covid-19

     

    Com uma vacinação considerada lenta por muitos parlamentares da oposição, o Ministério da Saúde vem sofrendo duras críticas pelo atraso na compra de imunizantes contra a doença.
    Com uma vacinação considerada lenta por muitos parlamentares da oposição, o Ministério da Saúde vem sofrendo duras críticas pelo atraso na compra de imunizantes contra a doença. | Foto: Agência Brasil

    Brasília -  513 mil. Até domingo (27), este foi o número de mortos no Brasil em decorrência da Covid-19 desde o início da pandemia no país, em março de 2020. Com uma vacinação considerada lenta por muitos parlamentares da oposição, o Ministério da Saúde vem sofrendo duras críticas pelo atraso na compra de imunizantes contra a doença. 

    Ainda assim, na última semana, o responsável pela pasta, Marcelo Queiroga, chegou a afirmar que, até o final de 2021, todos os brasileiros com idade acima dos 18 anos já estariam vacinados contra a Covid-19. Sem apresentar cronogramas e detalhes oficiais, o ministro recebe pressão por parte do Congresso, como é o caso do senador Omar Aziz (PSD).

      "Escolheram acreditar em tratamento precoce. O que imuniza é a vacina, e acredito que essa é a principal arma na luta contra a Covid-19. Se tivéssemos começado a vacinar a população antes, hoje poderíamos ter um número menor de mortes. Os trabalhos da bancada do Amazonas, bem como da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (CPI da Pandemia), têm buscado garantir a vacinação de todos os brasileiros. Ou seja, que cada um consiga tomar as duas doses do imunizante no tempo mais breve possível", declarou o senador, presidente da CPI em questão, que investiga possíveis irregularidades do governo federal no combate à crise sanitária do coronavírus.  

    Pressão por respostas

    Ouvido duas vezes como testemunha na CPI da Pandemia, o atual ministro da saúde também está na lista de investigados do inquérito, que compõe um total de 14 testemunhas já ouvidas. E além do Senado, a cobrança por respostas também se lança aos deputados federais. Na bancada do Amazonas, a preocupação pelo assunto não foi deixada de lado. 

    Em janeiro, o estado viveu um dos piores momentos da crise sanitária do país. Lotadas e sem oxigênio, as UTIs de Manaus e do interior do Amazonas entraram em colapso, enquanto centenas de pacientes sofriam com falta de ar, dentro e fora dos hospitais. À época, cerca de 3.556 pessoas morreram pela doença, conforme dados divulgados pela Fundação de Vigilância Sanitária (FVS-AM).

     
    Com cemitérios lotados durante o colapso de saúde em janeiro, valas comuns precisaram ser improvisadas em Manaus para atender à grande quantidade de sepultamentos. À época, cerca de 3.556 pessoas morreram pela doença.
    Com cemitérios lotados durante o colapso de saúde em janeiro, valas comuns precisaram ser improvisadas em Manaus para atender à grande quantidade de sepultamentos. À época, cerca de 3.556 pessoas morreram pela doença. | Foto: Brayan Riker

    De acordo com o deputado federal José Ricardo (PT), milhares de vidas poderiam ter sido salvas caso não houvesse atraso na vacinação.

    "Apenas depois de um ano - e, à época, cerca de 300 mil mortos pela doença -, o governo federal criou um comitê nacional para fazer acompanhamentos, articulando ações nos estados. Ainda assim, vemos que o ministro não informa datas, afinal são meros chutes. Não há planejamento. Dizer que toda a população acima de 18 anos será vacinada até o final do ano, sem dados efetivos quanto ao fornecimento de vacina, mostra que não existe um cronograma", afirmou o deputado federal.

    Ainda de acordo com o petista, apesar da vacinação estar ocorrendo em todos os estados do país, as ações estão ocorrendo de maneira lenta.

      "Como tem sido apresentado ao longo da CPI da Covid, a vacina poderia ter sido comprada ano passado. Isso demonstra a irresponsabilidade do presidente e do Ministério da Saúde. A vacinação está lenta em todo o Brasil, e isso também afeta o estado do Amazonas. Embora o governo e a prefeitura façam mutirões, isso não resolve. Precisamos de muito mais vacinas", finalizou.  

    Já o colega de bancada, deputado federal Marcelo Ramos (PL), considera que gestões anteriores à de Queiroga contribuíram com a falta de organização do Ministério da Saúde.

    "Não há como negar que, com a chegada do novo ministro, houve grande avanço na distribuição de vacinas. O atraso é grande demais e o prejuízo é enorme para o povo brasileiro. Além disso, a postura de atrasar a compra de vacinas e, ao mesmo tempo, negar a gravidade da doença, agravou os efeitos da pandemia", analisou o parlamentar.

    Posicionamentos divergentes

    Apesar das amplas críticas à gestão do governo federal frente à vacinação do país, a bancada do Amazonas no Congresso ainda conta com parlamentares simpáticos ao discurso de Jair Bolsonaro (sem partido). Vice-líder do governo na Câmara, o deputado federal Capitão Alberto Neto (Republicanos) tem declarado apoio e agradecido o Executivo pelos últimos meses de vacinação.

    Na última quarta-feira (23), o deputado publicou em suas redes sociais o momento de sua imunização contra o coronavírus. Na ocasião, o político vestia uma blusa  estampada com os dizeres "Bolsonaro 2022", acompanhados do rosto do presidente.

     
    Vice-líder do governo federal na Câmara, o deputado Capitão Alberto Neto (Republicanos) atribui a Bolsonaro a vacinação no Amazonas.
    Vice-líder do governo federal na Câmara, o deputado Capitão Alberto Neto (Republicanos) atribui a Bolsonaro a vacinação no Amazonas. | Foto: Reprodução

    "Não deixem de se vacinar! A história prova que só a vacina vence a epidemia. Vamos vencer juntos, e quero parabenizar todos os profissionais de saúde que trabalham incansavelmente nessa guerra. Estes são os nossos soldados. Parabéns à União, ao governo do Estado e à Prefeitura de Manaus pelo trabalho maravilhoso na distribuição de vacinas", afirmou o parlamentar no vídeo publicado em suas redes sociais.

    Na legenda, ele acrescentou: "Graças aos esforços do governo Bolsonaro, a vacinação em Manaus já chegou em minha faixa etária e pude ser vacinado com a primeira dose".

    Curiosamente, desde o início da pandemia Bolsonaro vem adotando discursos contrários à vacinação, criticando o isolamento social e dando ênfase à preferência pelo "tratamento precoce", por meio de medicamentos, até o momento, sem comprovação científica de eficácia.

    Conforme a análise do sociólogo e cientista político Carlos Santiago, deputados alinhados à política do Planalto pouco cobraram respostas pelo colapso de saúde no estado do Amazonas, ainda no início deste ano.

      "O Amazonas foi muito castigado pela pandemia da Covid com milhares de mortos e de sequelados com crise de falta de leitos e de oxigênio, e apoiadores não estão fazendo as devidas cobranças. O atual ministro da saúde não mostrou, até o momento, eficiência. Nem o Plano Nacional de Imunização – que é coordenado pelo governo federal e estabelece metas de vacinação, grupos prioritários e responsabilidades da União, dos estados e dos municípios – foi cumprido pelo Executivo. Isso porque, depois de cinco meses de vacinação, apenas 11,64% da população foi vacinada com a segunda dose. Ademais, a União não providenciou vacinas, e assim os estados e os municípios estabeleceram outras prioridades de vacinação fora do PNI", destacou o especialista.  

    Atraso na compra de vacinas

    Com início em 04 de maio, os trabalhos da CPI trouxeram como testemunhas  – além de figuras ligadas a funções do Executivo  –  especialistas e representantes de empresas farmacológicas, como foi o caso de Carlos Murillo, presidente regional da Pfizer no Brasil interrogado no dia 13 de março pela comissão. Responsável pela produção de vacinas para a Covid-19, a empresa apresentou 95% de eficácia em seus imunizantes, e chegou a contatar o Planalto para negociações ainda no início da pandemia.

      Segundo o representante, o primeiro contato chegou a acontecer em março de 2020, quando a Pfizer apresentou possibilidades de compra de 30 ou 70 milhões de doses. Em ambos os casos, haveria entrega de 500 mil doses ainda em 2020. Em seu testemunho, Murillo declarou que a carta foi enviada a seis autoridades brasileiras, e enfatizava a urgência e alta procura pelo imunizante por governantes ao redor do mundo.  

    Após o depoimento de Murillo, a CPI constatou que, entre 17 de março e 31 de dezembro, 34 tentativas de contato foram realizadas pela farmacêutica. O governo federal, no entanto, fechou negócio com a empresa apenas em março de 2021.

     
    Carlos Murillo durante o testemunho para a CPI da Pandemia. Na ocasião, ele afirmou que a farmacêutica chegou a contatar o Planalto ainda em março de 2020.
    Carlos Murillo durante o testemunho para a CPI da Pandemia. Na ocasião, ele afirmou que a farmacêutica chegou a contatar o Planalto ainda em março de 2020. | Foto: Agência Brasil

    E além das vidas perdidas, restam também as sequelas àqueles que conseguiram sobreviver à doença. Dores no peito, olfato e paladar comprometidos e até problemas neurológicos têm sido reportados por pacientes e especialistas ao redor do mundo. De acordo com o infectologista Nelson Barbosa, a antecipação de vacinas, realizada com sucesso por muitos países vizinhos e desenvolvidos, traria imunidade para grande parte da população atualmente.

    "A inércia na compra de vacinas fez com que muitos brasileiros pagassem com a vida, e nossos governantes pecaram neste quesito. Vale destacar que o atraso na disponibilidade de vacinas pode contribuir para o aparecimento de uma terceira onda. Os pesquisadores, inclusive, temem que surja uma variante resistente às vacinas, visto que, com uma única dose, a pessoa não está completamente imunizada. O governo brasileiro pecou ao desprezar e-mails (da fabricante Pfizer) para a compra de vacinas. Além de pouco caso, foi negligência com a população", completou o médico, que atua na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas.

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