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    Energia


    Sem políticas públicas, crise hídrica pesará no bolso do consumidor

    Com cenário desanimador na agenda ambiental do Governo Federal, especialistas e parlamentares apontam custos ainda maiores no fornecimento de água e energia à população

     

    Desde o dia 15 de janeiro de 2021, o sistema Cantareira opera em estado de atenção, que é quando o volume fica entre 40% e 59%
    Desde o dia 15 de janeiro de 2021, o sistema Cantareira opera em estado de atenção, que é quando o volume fica entre 40% e 59% | Foto: divulgação


    Manaus (AM) - Em meio à maior crise hídrica desde 1930, o Brasil enfrenta uma dicotomia delicada: a baixa histórica nos níveis das represas nacionais significa aumento nas contas de energia. Enquanto ambientalistas responsabilizam o governo federal pela falta de políticas visando o meio-ambiente, o ministro da economia Paulo Guedes afirmou recentemente, em audiência pública, que "não adianta ficar sentado e chorando" e "a conta de luz vai ficar um pouco mais cara". As declarações foram fortemente criticadas por parlamentares, economistas e biólogos. 

    Nesta quinta-feira (26), o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que as perspectivas de chuvas até o fim do período seco deste ano, meados dos meses de setembro e outubro, "não são boas no momento". Em entrevista coletiva, ele afirmou que os meses de julho e agosto registraram a pior quantidade de águas que chegaram nos reservatórios da série histórica. Para a bióloga e ambientalista Elisa Wandelli, o cenário deve se agravar, caso não haja esforço para maior conservação das florestas. 

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    Existem processos naturais de aquecimento e escassez hídrica, mas esses fenômenos estão sendo intensificados pelo desmatamento e aquecimento global. A floresta amazônica, por exemplo, transporta cerca de 3,4 trilhões de metros cúbicos de água para todo o planeta. Sendo que metade desse valor vai para as regiões sul e sudeste do Brasil, até 70% das chuvas nestes lugares são levadas pela floresta amazônica. Logo, se existe um desmatamento amplo da Amazônia, o nível de água vai diminuir. A escassez hídrica também pode estar ligada a poluição e outros processos humanos prejudiciais ao meio ambiente "

    , explicou.

     
     
    A doutora em Biologia Tropical e Recursos Naturais teme pelo futuro, visto que no momento as políticas públicas não são eficazes no quesito ambiental
    A doutora em Biologia Tropical e Recursos Naturais teme pelo futuro, visto que no momento as políticas públicas não são eficazes no quesito ambiental | Foto: Divulgação

    Em decorrência das perspectivas desanimadoras, a doutora em Biologia Tropical e Recursos Naturais, pede por mais efetividade das leis vigentes e implementação de fiscalizações mais competentes em relação ao meio-ambiente. 

    "Precisamos da execução políticas públicas para minimizar as mudanças climáticas e conservar a florestas e a biodiversidade, pois os recursos hídricos são dependentes da presença de florestas. A qualidade da água é o reflexo das políticas públicas. A água é  um bem comum indispensável para a vida e o bem viver de todos, por isso não deveria ser privatizada", finalizou.

    Legislativo reprova

    Neste cenário, a venda da Eletrobras causa uma soma de fatores que deixam não apenas ambientalistas, como também parlamentares amazonenses em estado de alerta. Questionado sobre o assunto, o  deputado federal Zé Ricardo (PT), que se posicionou contra a privatização da estatal, citou exemplo local da ineficiência desta prática para tentar diminuir os aumentos na conta do consumidor. 

     
    O deputado federal Zé Ricardo (PT) não acredita que a privatização da Eletrobrás significa diminuição das tarifas
    O deputado federal Zé Ricardo (PT) não acredita que a privatização da Eletrobrás significa diminuição das tarifas | Foto: Divulgação


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    Muitos deputados se preocupam com a questão da conta de energia, principalmente relacionada ao processo de privatização do setor elétrico. Nós tivemos a Amazonas Energia privatizada, portanto todo o serviço de distribuição de energia está privatizado e a conta de energia continua aumentando. Então a privatização não baixou o preço e o custo final da tarifa. Na agenda ambiental, nós sabemos que o governo federal infelizmente não prioriza tais políticas e isso piora o cenário de crise atual "

    , disse.

     

    O contraponto principal do Planalto é de que a venda de parte das ações irá trazer modernidade ao setor elétrico, inclusive com quantia calculada para redução considerável das tarifas. Albuquerque Bento acredita que privatização da Eletrobras causará benefícios ambientais diretos à região Norte e Nordeste.  

    Segundo dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Ipcc), a tendência é de que a escassez hídrica seja intensificada ao longo desta década, principalmente pelos fatores humanos, o que implicaria numa escalada proporcional na subida das tarifas no setor energético. No âmbito da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o deputado estadual Serafim Corrêa (PSB) condenou as falas do ministro Paulo Guedes e mencionou "escárnio com o povo". 

    "As práticas deste governo são um escárnio com o povo. Não apenas com o povo do Amazonas, com o povo de Manaus ou do interior, mas com todo o povo brasileiro. Quero deixar aqui o meu repúdio às palavras do ministro Paulo Guedes. Eu não imaginava que tivesse alguém com coragem de defender o alto preço da energia elétrica, que no nosso caso sofremos com a Amazonas Energia, mas agora apareceu um, que é o Paulo Guedes", afirmou.

     
    O deputado Serafim Corrêa rechaça as declarações do ministro Paulo Guedes
    O deputado Serafim Corrêa rechaça as declarações do ministro Paulo Guedes | Foto: Divulgação

    Com o preço da tarifa em R$ 9,49 a cada 100 kWh consumidos – o que corresponde a uma alta de 52% em relação ao valor anterior -, o deputado líder do PSB na Aleam também manifestou seu temor com o constante desmatamento na Amazônia.

    "Condeno que o governo tenha ao longo dos últimos tempos estimulado o avanço da devastação na Amazônia, das queimadas, aumentando a temperatura e, sobretudo, evitando chuvas e os rios voadores, que vão da Amazônia para o Centro oeste. O preço dessa crise hídrica, mais uma vez, será cobrado na conta de energia da população", finalizou. 

    Análise econômica

    Em julho, a tarifa de energia no país chegou à bandeira vermelha patamar 2 - quando a cobrança sobe pelo custo maior de produção da energia. Ainda nesta quinta-feira (26), o ministro Paulo Guedes pediu para que os governadores não subam o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) tendo em vista a alta da tarifa no setor. No entanto, o economista Leonardo Braule garante que os impostos não são os "vilões" e salienta o posicionamento do governo em relação aos aumentos. 

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    Se estamos passando por uma crise hídrica, não são os impostos os vilões da história. No atual momento, como o governo identifica-se com a centro-direita, ele gosta de manter as contas em dia. Agora, na condição de um governo com posição de centro-esquerda, logicamente que esse aumento não faria sentido. Porque seria considerado o peso que a sociedade já carrega nas costas, com pandemia, recessão econômica, inflação e desemprego, aumentar uma tarifa de um serviço essencial ao crescimento econômico como a energia, com certeza não é o melhor caminho "

    , declarou.

     

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