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    SÉRIE


    De engraxate a 'rei' do império de Coari: a história de Adail Pinheiro

    Reportagem do Em Tempo visita a história de Adail Pinheiro, ex-prefeito de Coari condenado a mais de 57 anos de prisão por chefiar um esquema milionário de corrupção na gestão municipal

    Adail Pinheiro foi preso em 2014 | Foto: Divulgação

    Manaus - Quando o menino Adail corria pelas ruas de Coari, nos anos 60, podia não imaginar, mas ergueria um império político baseado na cidade. O castelo erguido às margens do rio Coari (que dá nome à cidade) seria seu maior feito, mas ruiria anos depois, o levando à mais de 57 anos de prisão. Conheça a ascensão e queda de Manuel Adail Amaral Pinheiro, ex-prefeito do município mais rico do Amazonas e agora condenado pelos crimes de exploração sexual de menores e corrupção.

    Para esta reportagem, o EM TEMPO ouviu uma pessoa que acompanha a trajetória de Adail desde o início de sua vida política. A fonte pediu anonimato, já que há registros de ameaças feitas pela família Pinheiro a quem consideravam opositores no município. Tentamos também contato com a própria família do político através da filha dele, deputada estadual Mayara Pinheiro (PP-AM), mas não obtivemos retorno. 

     

    Mayara Pinheiro foi a deputada estadual mais votada nas eleições de 2018
    Mayara Pinheiro foi a deputada estadual mais votada nas eleições de 2018 | Foto: Divulgação

    Quando engraxava sapatos nas ruas de barro de Coari, um pequeno município no interior do Amazonas, Adail Pinheiro já dizia: "um dia vou ser prefeito dessa cidade". E, embora tenha se mudado para Manaus anos depois, o jovem cumpriu sua promessa. Aos 36 anos, ele retornou ao município à beira do Rio Solimões, a fim conseguir votos para se eleger deputado estadual. Adail perdeu, mas foi no período que descobriu uma prática que o levaria mais tarde ao cargo de prefeito.

      "Isso foi em março de 1998. Pra tentar se eleger deputado, ele foi nos bairros da cidade e começou a distribuir brindes pras mulheres, dizendo ser do Dia das Mães. Com essa abertura que teve nas casas, começou a prometer que, se eleito, poderia oferecer muito mais", conta uma fonte próxima à história de Adail.  

    Primeiro mandato: geladeiras e fogões

    Já nos anos 2000, o chefe dos Pinheiro foi candidato à prefeito de Coari pelo Partido Liberal (PL). Aquele momento mudaria para sempre o rumo da cidade e da família. Eleito para o primeiro mandato, Adail assumiu em 2001.

    "Quando se tornou prefeito, ele passou a fazer anualmente a festa do Dia das Mães. Era um evento na cidade. Ocorria em ginásios e toda a comitiva da gestão municipal participava. Faziam sorteios e concursos para dar geladeiras, fogões, micro-ondas e outros eletrodomésticos para a população", conta a fonte. A informação foi confirmada por outros moradores do município.

    Em 27 de novembro de 2003, Adail teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob acusação de compra de votos e abuso de poder econômico. Uma denúncia dava conta de que o político havia forçado jogadores do time de  Coari - financiado pelo município - a declarar voto nele. Adail ficou fora do cargo por 45 dias, mas uma decisão no Supremo Tribunal Federal (STF) o devolveu o cargo. Ele completou o mandato normalmente. 


    Segundo mandato: gestão do petróleo

    Nas eleições seguintes, 2004, Adail foi novamente eleito. A partir dali, o município de Coari passaria por grandes avanços econômicos motivados pela construção do Terminal Aquaviário de Coari (2006), utilizado para escoar a produção de petróleo e gás da Petrobrás na região de Urucu, no município. 

      "Esse foi um período de grandes transformações na cidade. Adail construiu grandes escolas, ginásios, mandou asfaltar todas as ruas. Para o povo, era mesmo um tempo de mudança. Ele também continuou com as festas", relata um oposicionista do prefeito, à época.  

    Por ser pertencente das terras de Urucu, Coari recebe royalties pela produção de Petróleo na região até hoje. Somente entre 2017 e agosto de 2019, o município recebeu mais de R$ 250 milhões. A informação é do Portal da Transparência da Controladoria Geral da União (CGU).


    Terceiro mandato: a queda

    Após dois mandatos seguidos, Adail só pôde concorrer em 2012. Ele participou da corrida eleitoral sendo eleito com 43,01% dos votos válidos. Ali, a situação do político ficaria mais complicada, já que, anos antes, em 2009, o Ministério Público Federal (MPF-AM) havia apresentado denúncia contra o Pinheiro, o acusando de chefiar uma organização que explorava sexualmente menores de idade. 

    Em 8 de fevereiro de 2014, no meio do mandato, Adail foi preso em Manaus como consequência da acusação que o MPF havia feito à Justiça. Meses depois, em novembro, o então prefeito de Coari foi condenado a 11 anos e 10 dias de reclusão. Lhe substituiu na prefeitura o vice Igson Monteiro da Silva (PMDB), que também foi cassado em 2015. Por isso, a gestão de Coari na época terminou com Raimundo Nonato de Araújo Magalhães (PRB), opositor a Adail e segundo lugar nas eleições de 2012.

     

    Adail foi preso após as acusações de exploração sexual de menores
    Adail foi preso após as acusações de exploração sexual de menores | Foto: Reprodução

    Em 2017, o ex-presidente Michel Temer concedeu perdão presidencial a detentos brasileiros que demonstraram 'bom comportamento', o chamado 'indulto natalino'. Esta medida está expressa na Constituição Federal, no artigo 84, XII. Com o decreto, a condenação de 11 anos de Adail foi extinta. 

    Em 2018, Adail recebeu outra condenação. 57 anos e 5 meses de prisão por comandar um esquema milionário de fraudes em licitações desvios de recursos públicos da prefeitura de Coari. Ele havia sido investigado na operação Vorax, que descobriu as irregularidades em 2008, no segundo mandato do Pinheiro.


    Coari divida ao meio 

    Para quem vive no Brasil, não é difícil imaginar como o populismo divide as pessoas. Em 2018, por exemplo, as eleições partiram o país em duas partes: bolsonaristas e petistas (com o candidato Fernando Haddad). Da mesma forma, o município de Coari é rachado em dois pedaços há anos. De um lado os afrissurados pelo 'deus' Adail, do outro, os que veem nele um 'homem do mal'. 

    "Até hoje as pessoas ainda adoram a família Pinheiro por aqui. E estou falando da maioria. Infelizmente, todos lembram dele como um gestor que fazia festas e que geriu a cidade em um período de grande abundância, por causa dos royalties da Petrobrás", conta uma fonte moradora no município. 

    Além disso, a família Pinheiro é detentora de uma das principais rádios da cidade, a Nova Coari. Tem também como aliados outros veículos radiofônicos com atuação na cidade, com exceção da Rádio Tiradentes, na figura de Robson Tiradentes. Este é o principal opositor da família Pinheiro, tendo ficado em segundo lugar nas eleições municipais de 2020. 


    Poder político ainda é presente

    Em 2016, 'Adailzinho', filho de Adail Pinheiro, foi eleito prefeito de Coari com 54,97% dos votos válidos. Ele havia concorrido ao pleito pelo Partido Progressistas (PP). Assim como o pai, a gestão de Adailzinho foi marcada por denúncias de esquemas de corrupção e nepotismo na prefeitura. Nas mesmas eleições, foi eleito para vereador Kleitton Pinheiro (primo de Adailzinho e sobrinho de Adail Pinheiro). Ele se tornou o presidente da Câmara Municipal de Coari, casa que deveria fiscalizar as ações da prefeitura.

     

    Adailzinho é a principal força política atual no município, depois do pai
    Adailzinho é a principal força política atual no município, depois do pai | Foto: Divulgação

    Em 2019, após reportagem da TV Record, Adailzinho foi preso por suspeita de desvio de R$ 100 milhões da prefeitura de Coari. Segundo a denúncia do Ministério Público, o prefeito pagava fornecedores que não recebiam da prefeitura há anos e cobrava, em  troca, 30% do valor da dívida. O caso ainda corre na Justiça.

    Em 2020, Adailzinho voltou a disputar o pleito eleitoral para a prefeitura de Coari pelo Progressistas. Como vice, ele levou o primo Kleitton Pinheiro (PP). A chapa foi eleita com quase 60% dos votos válidos. Apesar da vitória, teve a candidatura cassada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em razão da Lei Eleitoral que proíbe membros da mesma família de assumirem o cargo de prefeito por três mandatos seguidos. Adail Pinheiro foi eleito em 2014, Adailzinho em 2016 e novamente em 2020, o que motivou a cassação. 

    Esta reportagem é a primeira de uma série que será publicada no decorrer desta semana pelo portal EM TEMPO. Tratamos da história de Adail, do potencial econômico de Coari e das atuais eleições no município, que ainda não ocorreram. A cidade segue com a prefeitura interina Dulce Menezes, ex-cunhada de Adail Filho e tia de Adailzinho. 

    Na árvore genealógica abaixo, você confere todos os membros da família e a ligação com o poder municipal de Coari. 

     

    Árvore genealógica mostra o poder político da família Pinheiro em Coari
    Árvore genealógica mostra o poder político da família Pinheiro em Coari | Foto: Waldick Junior

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