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    Coari


    "Pobre cidade rica": o poder da família Pinheiro sobre Coari

    Dando continuidade à série de reportagens sobre o império da família Pinheiro, o EM TEMPO abordou o gigantesco potencial econômico de Coari que escancara a diferença entre povo e "realeza"

     

     

    A família Pinheiro administrou apenas em royalties de petróleo, desde 2016, cerca de R$ 467.393.496
    A família Pinheiro administrou apenas em royalties de petróleo, desde 2016, cerca de R$ 467.393.496 | Foto: Divulgação


    Amazonas - O "Império" de polêmicas, denúncias, crimes e condenações de Adail Pinheiro em Coari é regado a ouro. Não aquele dourado, encontrado em jazidas acessíveis por mineração manual, mas sim o ouro preto: petróleo. Aliado ao gás natural, o combustível fóssil permeia o território do município comandado pela mesma família por 21 anos, e os valores de seus royalties escancaram a dicotomia brutal entre povo e "realeza". 

    Em 2006, durante o segundo mandato de Adail Pinheiro - atualmente condenado criminalmente por participar de esquema de pedofilia -, a região começaria a receber privilégios federais após a descoberta de grandes reservas de petróleo e gás natural. Com a construção do Terminal Aquaviário de Coari, utilizado para escoar a produção  da Petrobrás na região de Urucu, o município teve grandes impactos positivos.

    E apesar de tal poderio econômico favorecer o município até os dias de hoje, tendo representado prosperidade e avanços extraordinários para a população coariense ao longo dos anos, os gastos astronômicos da realeza em Coari - atualmente comandada por Dulce Menezes (MDB),  tia de Adail Filho -, não mais se transformam em ação para o povo comum. 

    Conforme depoimento de um morador do município, que preferiu permanecer em anonimato, mesmo com os privilégios ligados ao favorecimento federal, cenas de mendicância e extrema pobreza são comuns na "terra do gás".

    "

    Há vários anos é comum vermos muitos mendigos e pedintes na rua - entre eles, crianças. Você anda na cidade e pode perceber um monte de camelôs e sujeira. Aumentou demais o trabalho escravo infantil. Geralmente os empregos mais comuns são na área de pequenos comércios, mas com a vinda de uma grande rede de supermercados ligada à família Pinheiro, vários estabelecimentos fecharam "

    , explicou.

     

     

    O prefeito Adail Pinheiro e seus simpatizantes em Coari
    O prefeito Adail Pinheiro e seus simpatizantes em Coari | Foto: divulgação


    O morador explica ainda que a realidade de Coari tem muita ligação com o paternalismo, imposto desde os primórdios do "Império Pinheiro", como exposto no texto anterior da série de reportagens do EM TEMPO. Segundo ele, nos dois primeiros mandatos de Adail Pinheiro, ainda nos anos 2000, botijões de gás, remédios, empregos ou até pagamento de contas de luz eram os principais pedidos de moradores que recorriam ao ex-prefeito para a solução de problemas corriqueiros.

    "Diariamente, uma fila de cerca de 3 quilômetros formava-se no entorno da Prefeitura do município para receber alguma assistência. Além disso, a realização de festas anuais onde aconteciam sorteios de eletrodomésticos era comum na gestão Pinheiro. Quem educou o povo a ser pedinte foi Adail Pinheiro. Por conta da falta de oportunidades, diversas pessoas acabam migrando para Manaus em busca de alguma melhoria na vida", disse. 

     

    Uma das demonstrações do fanatismo com a família Pinheiro em Coari
    Uma das demonstrações do fanatismo com a família Pinheiro em Coari | Foto: divulgação


    Controvérsia econômica


      De acordo com dados expostos publicamente no Portal da Transparência do Governo Federal e apurados pelo EM TEMPO, o município de Coari recebeu cerca de R$ 467.393.496 (quatrocentos e sessenta e sete milhões, trezentos e noventa e três mil, quatrocentos e noventa e seis reais e quarenta e seis centavos) em royalties entre janeiro de 2016 e agosto de 2021. O ano de início da pesquisa foi escolhido pelo fato do prefeito à época ser Adail Filho, sucessor ao "trono" do pai - que teve seu mandato cassado.  

    Apenas neste ano, de janeiro a agosto, foram R$ 74.522.615,99 (sessenta e quatro milhões, quinhentos e vinte e dois mil, seiscentos e quinze reais e noventa e nove centavos) arrecadados em royalties. No entanto, tais dados não podem ser encontrados no Portal da Transparência do município em sua integralidade.

     

    Já na página do governo federal os royalties podem ser analisados em sua integralidade, conforme são repassados ao município
    Já na página do governo federal os royalties podem ser analisados em sua integralidade, conforme são repassados ao município | Foto: Divulgação

     

    Print da página em que os valores de royalties deveriam estar expostos em sua integralidade no Portal da Transparência de Coari
    Print da página em que os valores de royalties deveriam estar expostos em sua integralidade no Portal da Transparência de Coari | Foto: Divulgação


    A Lei Orçamentária Anual de Coari (LOA) para 2021 está estimada para R$ 287.097.441,38 (duzentos e oitenta e sete milhões, noventa e sete mil reais e trinta e oito centavos), cerca de R$ 118 milhões a mais do que na LOA estimada para 2020: R$ 169.039.698,10 (cento e sessenta e nove milhões, trinta e nove mil e seiscentos e noventa e oito reais e dez centavos).

     

    A Lei Orçamentária Anual de Coari (LOA) expõe o uso da verba pública em sua teoria, contrastando com a realidade do município
    A Lei Orçamentária Anual de Coari (LOA) expõe o uso da verba pública em sua teoria, contrastando com a realidade do município | Foto: Divulgação


    Apesar desse maior privilégio para 2021, no portal da transparência do município não constam obras em andamento neste ano, muito menos demonstrativos contábeis. 

     

    O Portal de Transparência de Coari não registra obras em 2021
    O Portal de Transparência de Coari não registra obras em 2021 | Foto: Divulgação


    Favorecimento federal

    O especialista em economia, Leonardo Braule Pinto, explica as especificidades dos favorecimentos em decorrência dos royalties de petróleo e gás natural. Além disso, ele também comenta os aspectos de arrecadação, tendo em vista a dificuldade socioeconômica visível em Coari. 

    "Os royalties incidem sobre o valor da produção do campo e são recolhidos mensalmente pelas empresas concessionárias por meio de pagamentos efetuados à Secretaria do Tesouro Nacional (STN) até o último dia do mês seguinte àquele em que ocorreu a produção. Dependendo da previsão de receita pública em cada uma e o destino dado, podemos medir a eficiência ou não do uso da arrecadação. Acredito que um município como Coari poderia ter muito mais qualidade de vida; muito mais eficiência na forma como o dinheiro público é investido em educação, saúde, moradia, segurança, e lazer para a população", afirmou. 

    Investigações

    O Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) já multou a família Pinheiro diversas vezes após encontrar irregularidades nos documentos orçamentários do município. Uma das punições obrigou o ex-prefeito Adail Pinheiro a pagar multa de R$ 72 milhões em 2020 e R$ 16 milhões em 2016. O órgão também investiga diversas representações por parte da oposição no município contra a atual prefeita de Coari, em razão de supostos superfaturamentos, como apresentado em reportagem do EM TEMPO.

    Em setembro, foi protocolado documento ao TCE expondo valor de pregão presencial de R$ 6.054.050,00 (seis milhões, cinquenta e quatro mil e cinquenta reais) para serviço de fretamento de aeronave. Aliado a isso, a deputada estadual Mayara Pinheiro (PP), filha de Adail, também é investigada por suposto esquema de funcionários fantasmas na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). 

    E apesar das vastas denúncias ao longo dos anos, o apoio e clamor popular à família Pinheiro ainda apresenta raízes profundas no município. O cientista político Helso Ribeiro comenta o paternalismo e conformismo que compõem o cenário dramático em Coari. 

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    O gestor faz um grande favor para grupos da população e, além disso, gera empregos direcionados com cargos comissionados, com mais prestadores de serviço que consequentemente criam outros empregos menores. Então o município arrecada com esses cargos em cascata, para que não se quebre esse laço, parte da população vota no atual núcleo que comanda essas práticas. Você pode perceber que o dinheiro arrecadado é usado para manter estruturas oligárquicas" "

    , explicou.

     

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