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    Presidência


    Bolsonaro convoca ato contra congresso e STF e provoca repúdio

    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso classifica o episódio como uma crise institucional de consequências gravíssimas

    Presidente compartilhou vídeo por WhatsApp convocando população | Foto: Divulgação

    O presidente Jair Bolsonaro compartilhou por WhatsApp vídeo convocando a população para atos anti-Congresso. Amigo do presidente, o ex-deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) confirmou a informação ao GLOBO.

    O próprio Fraga disse ter recebido o vídeo de Bolsonaro. Os atos foram marcados por apoiadores do presidente em defesa do governo, dos militares e contra o Congresso. A mobilização ganhou força na semana passada, após o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, ter atacado parlamentares, acusando-os de fazer “chantagem”.

    Parlamentares e lideranças políticas de diversos partidos reagiram ontem com críticas a Bolsonaro. O ex-presidente Fernando Henrique classificou o episódio como “uma crise institucional de consequências gravíssimas”. “Calar seria concordar. Melhor gritar enquanto se tem voz”, publicou em seu perfil no Twitter.

    O ex-presidenciável e ex-ministro Ciro Gomes (PDT) ressaltou que é “criminoso” incitar a população com “mentiras contras as instituições democráticas” e pediu reação do Congresso. O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), disse que é “extremamente grave” que altas autoridades civis e militares estejam apoiando atos políticos contra os Poderes Legislativo e Judiciário.

    No filme de um minuto e meio compartilhado pelo presidente não há menção direta ao Congresso ou ao Supremo Tribunal Federal (STF). São exibidas imagens de protestos em Brasília na época do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Com o Hino Nacional ao fundo, um narrador pergunta logo no início: “Por que esperar pelo futuro se não tomarmos de volta o nosso Brasil?”. Procurada, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou que não vai se manifestar.

    A narração segue com imagens da posse de Bolsonaro, do momento da facada, durante a campanha eleitoral, em Juiz de Fora (MG), e de suas passagens pelo hospital. “Basta”, diz o narrador em outro trecho. “O Brasil só pode contar com você. O que você pode fazer pelo Brasil? O poder emana do povo. Vamos resgatar o nosso poder. Vamos resgatar o Brasil.”

    Embora não haja referência ao Congresso ou ao STF no vídeo, a peça deixa explícita a chamada para os atos que têm sido convocados também como protesto contra as duas instituições. A divulgação do vídeo pelo presidente foi noticiada no início da noite de ontem pelo jornal “O Estado de S.Paulo”.

    O ex-deputado federal Alberto Fraga confirmou ao GLOBO que Bolsonaro “encaminhou o vídeo”, mas disse que o presidente não está convocando a população para a manifestação. ''O Bolsonaro sabe que não é conveniente fazer isso, mas ele não tem como evitar que as pessoas façam'', disse.

    Em áudio captado em transmissão ao vivo da Presidência pela internet no dia 19, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional Augusto Heleno avaliou que o Executivo não pode aceitar “chantagens” do Parlamento o tempo todo. ''Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Foda-se'', disse Heleno, na presença de ministros.

    Na reunião do Conselho do Governo, no Palácio da Alvorada, o ministro do GSI expôs novamente o incômodo do presidente em permitir que o Congresso derrube seus vetos e controle R$ 30 bilhões no Orçamento de 2020. A preocupação de Bolsonaro, segundo aliados, é de que começará a governar em um sistema de parlamentarismo. Durante o evento com ministros, Heleno deu voz à irritação do presidente, afirmou que o governo não pode ficar “acuado” às pressões do Congresso e que, se preciso, o povo deve ir às ruas se manifestar.

    A Câmara dos Deputados e o Senado chegaram a discutir na última semana a possibilidade de chamar o general Heleno para explicar suas declarações.

    Reação

    Anteontem, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo do governo Bolsonaro, se manifestou sobre o uso de imagens de militares nas postagens que convocam para o ato anti-Congresso. Santos Cruz considerou a montagem irresponsável. Em sua conta no Twitter, o general escreveu que o Exército é uma “instituição de Estado”. “Irresponsabilidade. Exército Brasileiro - instituição de Estado, defesa da pátria e garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem. Confundir o Exército com alguns assuntos temporários de governo, partidos políticos e pessoas é usar de má-fé, mentir, enganar a população”, escreveu Santos Cruz.