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    Política


    A maldição dos vices no Amazonas e no Brasil

    Histórias antigas e recentes, tanto no Amazonas quanto no Brasil, mostram que nem sempre titular e vice num cargo político permanecem com a amizade propagada durante as eleições, após assumirem suas respectivas cadeiras no poder

    Desde a redemocratização, os vices no Amazonas e em Manaus costumam ser o pior inimigo do titular e vice-versa | Foto: Malika

    Manaus - O folclore garante que na política amazonense até “boi voa” e nenhum deles voa tão bonito quanto na relação de amor - em campanha - e o ódio - no poder – existente entre o titular de um cargo e o vice dele. Com a eleição para o governo do Estado em outubro, temos novamente a oportunidade de ver cenas de amor explícito no período de campanha, mas a pergunta que fica é: será que o sentimento vai permanecer ao longo da gestão do vencedor? A história diz que não.

    Desde a redemocratização, os vices no Amazonas e em Manaus costumam ser o pior inimigo do titular e vice-versa. A dupla formada por Gilberto Mestrinho e Manoel Ribeiro, que venceram a eleição de 1982, seguia afinada até que Ribeiro começou a trabalhar para substituir o “Professor” na eleição de 1986. Rapidamente o clima mudou, pois o “Boto” já tinha o nome do então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, na agulha. Ribeiro teve de se contentar com a prefeitura na eleição de 1985, mas na primeira oportunidade, Amazonino decretou intervenção na cidade em 1988, e colocou Alfredo Nascimento no comando da capital amazonense.

    A década de 1990 foi marcada por calmaria nessa seara, e tanto Francisco Garcia, vice de Mestrinho entre 1991 e 1994, quando Samuel Hanan, vice de Amazonino na sequência (1995-1998), deram vida mansa aos titulares. Hanan até esboçou contrariar o imperador, como Amazonino era tratado no terceiro governo (1999-2002), colocando a campanha dele à sucessão em 2002 nas ruas, mas viu o candidato do “sistema”, Eduardo Braga, ser ungido pelo antigo rival de 1998.

    Enquanto nos dois mandatos de Braga à frente do Estado (2003-2006 e 2007-2010), Omar Aziz deu trégua ao titular, na prefeitura de Manaus a casa pegava fogo. Na segunda gestão de Alfredo Nascimento (2001-2004), com Omar deixando a vice-prefeitura para a assumir como vice de Braga, a reserva do titular ficou com o presidente da Câmara, o vereador Luiz Alberto Carijó. Convidado a ser Ministro dos Transportes do presidente Lula, Alfredo acertou com Carijó que, na eleição indireta, feita na Câmara Municipal, o candidato dele seria o secretário de Economia e Finanças Aluísio Braga. Já articulado com Amazonino Mendes, que seria candidato a prefeito em outubro de 2004, Carijó deu uma pernada em Alfredo, e Aluísio e se elegeu prefeito-tampão com o vereador Joel Silva de vice. A manobra Amazonino-Carijó não deu certo, já que Alfredo se aliou a Serafim Corrêa, prefeito eleito naquele pleito, com Mário Frota na vice-prefeitura.

    Poucos poderiam dar tanto trabalho a Serafim (2005-2008) quanto Mário Frota e a relação dos dois – amigos desde os anos 1970 – esgarçou-se de tal forma que até a sala do vice-prefeito foi transferida do palácio da Compensa. Os amigos atribuem ao filho de Serafim, Marcelo, a razão do rompimento explosivo.

    Em 2008 Amazonino volta a perseguir o sonho de administrar Manaus pela terceira vez e prometendo construir mil creches e espalhar outras mil carretas de internet pela cidade conseguiu derrotar Serafim, já sem Frota por perto. O vice escolhido por Amazonino foi Carlos Souza. Novamente titular e reservas entraram em choque e Souza, vendo a gestão ir à breca sem resolver os problemas da cidade, tratou de se eleger deputado federal na eleição de 2010, abrindo mão de dois anos no palácio da Compensa. Sem cumprir as promessas e com avaliação negativa na opinião pública, o “Negão” sequer buscou um quarto mandato, atitude inédita entre os políticos do Estado desde a criação da reeleição.

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    Nas duas gestões do atual prefeito, Arthur Neto, não foi diferente e os vices escolhidos optaram por trair os compromissos de campanha e se jogaram na cama dos adversários do prefeito. Hissa Abraão perdeu a Secretaria Municipal de Infraestrutura e na primeira oportunidade se elegeu deputado federal pelo PDT, partido no qual deu abrigo para o velho adversário do tucano, Amazonino Mendes, eleito governador em 2017. Neste ano Arthur, que já tinha visto o filme em preto e branco com Hissa, viu a versão remasterizada e colorida com Marcos Rotta, que o abandonou para apoiar Amazonino. Para compensar, Rotta ganhou, na última quinta-feira (16), a Secretaria da Região Metropolitana e a missão de administrar um orçamento de R$ 148,6 milhões.

    Na República a história se repete desde Dom Pedro II

    Em 2015, logo após assumir o segundo mandato de presidenta da República, Dilma Rousseff (PT), ouviu do mentor dela, o ex-presidente Lula, um conselho que decidiu não seguir: “Mantenha o (Michel) Temer ocupado”. Resultado: Temer se sentia um “vice decorativo” e partiu com tudo para se tornar titular por meio de um impeachment Tabajara, como bem definiu o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

    O caso Dilma-Temer é a mais recente versão de um comportamento que começou com a fundação da República, portanto não é um problema dos políticos amazonenses. O marechal Deodoro da Fonseca, que traiu o amigo e imperador Dom Pedro II para fundar a República, trouxe de vice outro marechal, Floriano Peixoto, que não lhe deu paz nos dois anos e oito dias que passou na presidência. Deodoro renunciou e Floriano assumiu.

    Na República Velha, com a política de alternância de paulistas e mineiros na presidência, a famosa política do café com leite, titulares e vices ficaram “de boas”. Com o golpe de 1930, Getúlio Vargas assumiu o poder e acabou com a figura do vice-presidente, que só voltou a aparecer no ordenamento institucional brasileiro com a Constituição de 1946. Eurico Gaspar Dutra teve Nereu Ramos de vice, mas como era Marechal fez questão de botar ordem na casa e deixar o vice na mira das armas do Exército.

    Com a novidade da volta do vice, a Constituição de 1946 trouxe uma inovação que poderia ser reconsiderada numa eventual e possível reforma política: a eleição do titular e do vice eram separadas. Assim, Getúlio volta ao poder em 31 de janeiro de 1951 pelo PTB, mas o vice, Café Filho, era do Partido Social Progressista (PSP). Na crise de agosto de 1954 não foram poucos os momentos em que Café Filho tramou contra Getúlio. O resultado foi o suicídio do titular. Café assumiu, mas também levou um golpe pouco depois.

    Seguindo esse esquema, Juscelino Kubitschek foi eleito pelo PSP e João Goulart vice pelo PTB. A fórmula foi repetida na eleição seguinte, com Jânio Quadros eleito pelo Partido Trabalhista Nacional e Jango pelo PTB. Embora Jango não desse trabalho aos dois, era sempre uma sombra perturbadora.

    Nos governos da ditadura, os vices eram simples decoração. Na redemocratização, Itamar Franco também era decorativo, mas quando veio o impeachment de Fernando Collor ele estava tramando com todos os setores envolvidos. Acabou passando a história como o presidente que fez o Plano Real e derrotou a mega inflação brasileira.

    Com Fernando Henrique e Lula, Marco Maciel e José de Alencar foram vices fora da curva, deixaram os titulares trabalharem. Temer optou pelo contrário.

    José Melo, foi o vice estilo Viúva Porcina em 2002

    No entanto nada se compara neste campo ao que ocorreu na eleição de 2002. No fim do terceiro mandato à frente do Governo do Estado, Amazonino tinha dois “filhotes” para indicar como sucessor naquela eleição: Alfredo Nascimento, então prefeito de Manaus, e José Melo, seu supersecretário de governo.

    Sem definição e no melhor estilo “enrolation”, ele dizia que lançaria o “candidato do sistema”, aquele que daria sequência ao estilo Negão de administrar. O que ninguém desconfiava é que o candidato do sistema era justamente Eduardo Braga, que quatro anos antes foi seu adversário nas eleições. O grupo recebeu mal a indicação e para compensar exigiu Melo no posto de vice.

    E foi assim até julho de 2002: a chapa do sistema era Braga e Melo. No dia da convenção, com a família reunida e amigos empunhando faixas com o nome dele no Olímpico Clube, José Melo foi humilhado e substituído por Omar Aziz, se tornando a “Viúva Porcina” da política amazonense, numa analogia mordaz com a célebre personagem de Dias Gomes que foi, sem jamais ter sido, viúva de Roque Santeiro.

    José Melo, contudo, fez valer o velho adágio de que “vingança é um prato que se come frio”. Saiu de fininho da convenção e dois anos depois virou supersecretário de Governo justamente de Eduardo Braga.

    Disciplinado se tornou vice de Omar Aziz e na sucessão deste em 2014 deu o bote final em Braga. Venceu uma eleição na qual o senador do MDB começou com quase 60% das intenções de votos, mas foi perdendo fôlego até cair. Desde então vive no ostracismo nas disputas majoritárias.