Herança politica


Novatos contam com ‘sobrenomes’ políticos para vencer eleições

Grupos políticos familiares podem seguir influenciando o resultado das eleições no Amazonas.

Com objetivo de atrair votos durante a campanha, candidatos devem carregar o sobrenome das famílias para vencer as eleições. | Foto: Divulgação

Manaus – O pleito municipal deste ano, deve repetir uma ‘tradição’ de sobrenomes conhecidos pela população na disputa pelo eleitorado na cidade. 

Nomes estreantes na política, como Rodrigo Ramos, irmão do deputado federal Marcelo Ramos, (PL) devem carregar a alcunha de seus parentes antecessores, com objetivo de atrair votos durante a campanha. 

Além dele, veteranos com sobrenomes conhecidos do eleitorado amazonense, também farão uso dessa estratégia familiar, para marcar presença na lista de candidatos nas eleições; como é o caso dos vereadores Diego Afonso (PDT), filho do deputado Adjuto Afonso (PDT) e Hiram Nicolau (PSD), irmão do deputado estadual, Ricardo Nicolau (PSD)

No entanto, nem sempre essa método é eficaz na momento da contagem de votos. Isso porque, na última eleição, em 2018,  Willace Souza (Avante), filho do ex-deputado estadual Wallace Souza  e Henrique Oliveira Filho (Pros), filho do ex-vice governador Henrique Oliveira,  não foram eleitos.

No último pleito, ambos se candidataram para vaga de deputado estadual, mas não obtiveram sucesso. Willace alcançou 2.712 votos; já Henrique contabilizou 3.088 votos. 

Família Souza

Sobre os caminhos políticos dentro da família Souza, o jovem,  filho de Wallace Souza, ex-político e apresentador do ‘Canal Livre’, falecido em 2010, afirma que o contexto parlamentar nunca foi imposto a ele a carreira de político, tanto que não deseja participar do pleito este ano. “Nunca me foi imposto gostar ou debater sobre política. Acho que tudo aconteceu naturalmente, devido a convivência com meu pai, acompanhando os momentos políticos dele, enquanto era criança, me fez gostar dessa área”, comentou Souza.

Willace relembra que um dos desafios enfrentados durante a campanha, foi a falta de experiência como candidato e outro fator lembrado por ele, foi justamente a falta de apoio do núcleo político familiar, que pode ter contribuído com sua derrota nas urnas. “Um dos desafios foi desconhecimento de uma disputa pelo pleito, sendo eu o candidato. Minha campanha teve poucos recursos e contei com apenas alguns amigos. Fomos as ruas sem influência de meus parentes políticos, que pouco ou quase nada participaram da minha campanha”, explicou Willace. 

Para ele, a sombra do pai Wallace Souza, não contribuiu negativamente para a campanha. Isso porque, o ex-apresentador Wallace, foi acusado de ‘encomendar’ as mortes exibidas no programa policial. “Muito pelo contrário, sempre fiz questão de mostrar o legado dele em toda minha campanha. Não escondo e nunca irei esconder de quem sou filho, tenho muito orgulho e não estou ‘nem aí’, para quem se deixa levar por tudo que vê e lê, na internet sem apurar. Eu sei muito bem o que é verdade e o que é mentira”, disparou Willace.

Os planos futuros de Willace, estão entre tocar seu programa e seguir sua rotina habitual. Apesar disso, ele não descarta um possível candidatura no futuro. “ Segurei com meu programa e pretendo estudar e cuidar da minha empresa. Quanto a política, eu sempre amei, não é segredo pra ninguém, sou um cidadão como qualquer outro e se achar que devo sair candidato, sairei”, finaliza Souza.

Ramos

A situação do estreante Rodrigo Ramos, também não é diferente de Willace, a política tem sido habitual no cotidiano familiar. “Nasci em um ambiente político e desde muito novo acompanho meu irmão, nas eleições atuando como coordenador de campanha. Então, naturalmente, vim me preparando para a construção de um projeto político”, comentou Rodrigo. 

As expectativas de Rodrigo no pleito municipal são de propor uma candidatura independente de governantes, algo que ele próprio classifica como um ‘caminho árduo’. “O caminho será árduo, especialmente a cidade possui inúmeros problemas em vários aspectos. Quero construir um programa político com propositura de leis que façam com que a sociedade não dependa de governante. Sei que isto gerará muitas críticas e obstáculos, mas sou um homem movido a desafios e lutas” acrescentou Ramos.

Rodrigo Ramos também não vê lado negativo ao ‘carregar’ o legado do irmão como bandeira de campanha. “O legado do Marcelo muito me honra, caminhei por toda cidade levando as propostas dele. Independentemente de partido político ou cargo eletivo, ele é meu irmão e caminhamos juntos na política por muito tempo. Neste ano seguirei com as caminhadas, mas mostrando o que eu – Rodrigo Ramos - posso fazer pela nossa cidade” ponderou o irmão de Marcelo. 

Reflexo da sociedade 

O sociólogo e cientista político, Carlos Santiago faz uma análise desse movimento sob uma perspectiva sociológica, onde os partidos reproduzem o que a sociedade em si representa. “O Brasil tem uma tradição elitista, excludente, autoritária, patrimonialista e patriarcal; que está presente em todas as instituições do Estado, bem como da sociedade civil. Os partidos políticos são mais um exemplo desta prática”, comenta o especialista.

“A maioria dos partidos são comandados por um pequeno grupo de negocistas ou grupo familiar, objetivando fazer negócios com o Estado, por meio de suas candidaturas, visando benefício próprio. São inúmeros exemplos no Amazonas e no Brasil, onde tais famílias se reproduzem como mandatários de partidos políticos e de poder. Transformando cargos eletivos, e a política em uma simples profissão, priorizando seus benefícios em detrimento dos interesses coletivos, da sociedade que os elegeu”, explica Santigo. 

A representação política, também é analisada pelo cientista, sob o prisma da ‘renovação política’ feita por jovens, filhos de ‘caciques’ políticos. “A pouca idade ou a jovialidade nem sempre representam a renovação na política. Por vezes, estes jovens ‘herdeiros’, são tão somente caricaturas de seus pais, ou tutores políticos. Essa ‘perpetuação’ dos sobrenomes nas eleições visa tornar a política, cada vez mais partidária no Brasil. Um ambiente sem renovação, não só de quadro e de novas ideias; mas também renovação de mentalidade”, analisa o Sociólogo. 

“Enquanto partidos políticos não democratizarem suas decisões e não forem transparentes e abertos, permanecerão sendo comandados por pessoas, que não possuem interesses em desenvolver políticas públicas coletivas.  Sem o interesse coletivo, os partidos serão somente o reflexo de pequenos grupos e a política; e por consequência não terá uma renovação cultural, somente reproduzindo a ‘velha prática’, conclui o cientista político.