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    Com a Palavra


    ‘Hoje se queima a floresta, para colocar duas cabeças de gado'

    O pesquisador, diretor do Musa (Museu da Amazônia) e ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, defende a preservação ambiental e o estimulo à produção cientifica na região amazônica, em entrevista a WEBTV EM TEMPO

    Para Ennio é necessário superar o impasse político para proteger a Amazônia | Foto: Reprodução


     EM TEMPO - É preocupante as queimadas e contaminação dos rios de Manaus?

    Ennio Candotti - Essa contaminação ocorre pelo metal pesado, o mercúrio. Um dos mais grave resíduos, que são originados pelos garimpos ilegais, que utilizam o metal para separar o ouro da terra e descartam de forma irregular e criminosa. Essa exposição é altamente tóxica para o garimpeiro, para o vegetativo local e para a população, que come os peixes e que ingerem esse mercúrio no rio. Agora sobre as queimadas, eu tenho um princípio muito simples. Se todos soubessem qual é o verdadeiro valor da floresta e dos ecossistemas, ninguém colocaria fogo na mata. E sim, guardaria como um patrimônio, que é um pouco de todos do planeta, mas principalmente dos amazônidas, antes de mais nada. Ninguém imaginava queimar a floresta, quando se extraia a borracha na época do Belle Epoque. Hoje se queima a floresta, para colocar duas cabeças de gado por hectare. Isso é obviamente uma estupidez, pois uma cabeça de gado vale até R$2 mil a R$3 mil reais, quando chega neste valor. Um hectare de floresta em pé, pode se extrair milhares e centenas reais, basta saber como aprender combater a ignorância contra floresta, e esta é a minha missão.

    EM TEMPO- Como o senhor vê iniciativas como as do governo Bolsonaro, que pretende criar estrategicamente um conselho para Amazônia? 

    EC -O primeiro passo que qualquer autoridade deveria considerar sobre a Amazônia, seria estudar e compreender tudo que aconteceu ao longo de 20 anos no CBA. Sobre as políticas de desenvolvimento da Amazônia, principalmente o que os cientistas na área da exploração da biodiversidade fizeram. O CBA é um exemplo de fracasso absoluto das políticas implementadas pela Suframa. Os economistas e os tutores da administração da floresta, nunca conseguiram produzir alguma coisa, que revelasse a presença e a utilidade do Centro. Mas eu tenho respostas para esse erro. Foi entregue a um ‘pipoqueiro’, a administração de um hospital, veja que um pipoqueiro sabe fazer e vender uma pipoca, mas sobre a biodiversidade e um centro de biotecnologia, são coisas para cientistas. São de responsabilidade do Ministério de Ciência e tecnologia, não assunto para economistas e comerciantes. Se insistirem nessa política, vamos continuar no mesmo dos últimos 20 anos. Eles (gestores) não têm ideia sobre o que seja a produção de conhecimentos, exploração e biodiversidade. Nossa ignorância sobre a floresta, não permite explorar a nível mínimo extrair dela, informações ou produtos, que de fato tenham mercado sustentável. 

    EM TEMPO - Seria possível acontecer no CBA, o que houve no Vale do silício?

    EC - Não é olhando para o Vale do Silício que poderemos nos tornar uma potência tecnológica, e sim olhar para cabeças, cérebros e inteligência dos quadros técnicos. Para o EUA, foram levados mais de 100 mil cientistas, PHDs, engenheiros, químicos e biólogos. Aqui também poderiam estar trabalhando cientistas na Amazônia, desvendando, descobrindo e explorando todas as propriedades que as plantas têm. A nossa riqueza existe nisso, e nós simplesmente nem colocamos na pauta das nossas preocupações.

    EM TEMPO - Como o MMA e o Ministério da Economia (ME) estão diretamente entrelaçados para que as ações no CBA aconteçam, em conjunto com a Suframa?

    EC -Quando o CBA foi criado, eu era presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Eu acompanhei todos os discursos de posse dos superintendentes, e naquela época, também acompanhei de perto a tumultuada criação do CBA. Todos que assumiam a cadeira, estabeleciam como problema, a falta de produção de ciência básica. E que o Amazonas aplicaria conhecimentos e desenvolveria produtos, sob o discurso de que se faz a interface entre a indústria e a biodiversidade na região. Fazendo um avaliação depois de 20 anos, e o que foi produzido? Se vivêssemos em um país sério, esse modelo utilizado já estaria em desuso. Estão novamente usando essa velha pratica de afirmar: ‘vamos transformar receber e finalmente conceber um centro de negócios com a biodiversidade’. Isso na prática não funciona e vem sendo dito, desde o primeiro responsável pelo CBA no anos 200. Na Amazônia ainda não há uma densidade científica, capaz de alimentar um Vale do silício aqui. Aqui deveria ser um vale da biodiversidade, nós precisamos de no mínimo 50 mil doutores, cientistas, engenheiros, sanitaristas, químicos e biológicos para pensar em explorar ao máximo o potencial amazônico. Há quantos em pesquisadores em toda Amazônia? Se há ao menos mil deles, é muito. Quantos pesquisadores, formadores de quadros de primeira linha, aquilo que chamamos no meio cientifico de temos aqui? Se houver ao menos dez não chegamos nem perto do número que um departamento da Universidade de São Paulo (USP), tem. Falando ainda sobre produção cientifica na Amazônia, quantas pós-graduação em botânica existem na região? Apenas duas e com avaliações muito modesta. Quantos institutos ou grupos de pesquisa de repercussão internacional? Apenas um. Então estamos muito aquém da massa crítica necessária, para fornecer à indústria, oportunidades de desenvolvimento e mercado.

    EM TEMPO - Por que o senhor não desiste de carregar essa pauta Amazônica?

    EC - A Amazônia é umas 12 principais áreas visadas durante a “guerra” pela sobrevivência no planeta. Assim como ela, outros ecossistemas são palcos de embates científicos, como os oceanos e as  áreas polares, como a Antártida. Portanto, não podemos perder a batalha da Amazônia, pois a perderemos, o planeta também perde uma história de centenas de milhões de anos. O sistema Amazônico tem 22 bilhões de anos e dentro desse espaço, se desenvolveram processos naturais, que são únicos no planeta. E nós precisamos de muita gente estudando este universo, para entender a essência do própria do desenvolvimento e da vida no planeta. Portanto aqui, há uma história natural muito valiosa e fantástica, de importantíssimo significado para a humanidade. Não é possível ver todo esse ecossistema ser destruído em troca de dois bois pastando. Perder a floresta amazônica por uma cegueira sistemática, de sucessivos responsáveis pela Suframa e do MMA é uma ignorância. Estes gestores desconhecem formas de extrair do bioma, informações com valor comercial. Dentro da mata existem tantos outros produtos de valor muito superior a ouro, que só podem ser explorados sem a degradação da floresta.

    EM TEMPO- Como aliar a preservação e o desenvolvimento desde a educação de base?

    EC - Vou dar um exemplo concreto para responder: Quantos jardins botânicos existem na Amazônia? Esse local é o ideal para uma aproximação dos estudantes e da sociedade, para ver como realmente é a sua floresta, saber o que pode fazer mal, seus fenômenos e assim, olhar com uma ‘lupa’ a aplicação dos processos naturais que ocorrem na mata. Em toda Amazônia existem apenas dois jardins botânicos, se continuar assim, é claro que a batalha está perdida. O Musa, sob minha direção é um exemplo que deve ser repetido em todo Estado. Podemos criar em todos municípios do interior, um jardim botânico, pois têm um custo barato e dentro dele; se educam as crianças, jovens e seus professores sobre as variedades da floresta viva. Uma experiência real, conhecer a floresta não só por meio dos livros. Temos essa riqueza tão invejada pelo mundo, só precisamos oferecer a possibilidade à estudantes, um despertar; uma oportunidade de transformá-los em futuros pesquisadores. Essas pessoas, vão formar o ‘futuro’ do ‘Vale do silício’ na Amazônia, utilizando as melhores ferramentas dessa biodiversidade.

    EM TEMPO- Qual sua visão para o futuro da Amazônia? É um prognóstico positivo ou negativo?

    EC - Precisamos superar o impasse político para proteger a Amazônia, isso é fundamental. Há nos atrás, participei de um congresso internacional sobre meio ambiente e durante uma oportunidade, falei com os administradores do ‘negócio’: ‘Senhores nós precisamos de ajuda para criar na Amazônia, institutos de pesquisa, com intuito de ampliar o nosso conhecimento profundo, sobre os processos fundamentais que ocorrem na biologia da floresta. Temos fungos, plantas, insetos, toxinas e até a Bergenina que podem ser estudadas’. Sabe qual foi a resposta? ‘Professor vocês conservam e nós pesquisamos, a pesquisa é monopólio dos centros avançados, ela é protegida por lei de patentes e de propriedade intelectual’. Com essa resposta ficou claro o nosso papel; cabe a nós conservar e talvez eles possam dar um ‘troco’ para fazermos isso. Ganhar créditos de carbono e outros incentivos, assim eles poluem lá e nós aqui conservamos. Portanto, é necessário superar essa fase, nem que seja preciso, uma decisão política que afirme: nós (cientistas locais) vamos pesquisar na Amazônia.

    EM TEMPO - Sobre o impacto ambiental da abertura da BR-319 no AM, poder ser igual ou pior do que houve no Pará? Com a estrada, trouxe a grilagem de terras, tráfico, garimpo ilegal e uma riqueza limitada como em Serra Pelada?

    EC - Enquanto não se mudar matriz de sustentação de produção de riquezas na Amazônia, essa disputa entre desenvolvimento contra conservação da floresta, vai continuar. O maior tesouro que os ribeirinhos e florestinos hoje podem nos oferecer, é sua capacidade de entrar e sair na floresta. Soldados, camporários e industriais não entram e saem da mata com a mesma facilidade que os habitantes da floresta. Fazer uso dos conhecimentos deles, vai ampliar as possibilidades de ajudar a localizar árvores, produtos e sementes. Devemos contar com eles para explorar na prática a floresta, porque não será todo dia que alguém pode encontrar um determinado fungo que seja capaz de produzir determinados fármacos.  Somente pessoas muito bem habilitadas e muito familiarizada com a floresta, consegue localizar determinados fungos, sementes, frutos e cascas. Precisamos ter uma exploração inteligente da floresta, um trabalho de grande valor, que pode perfeitamente ser remunerado. Uma arvore viva vale 1000 vezes mais do que queimar a floresta para o pasto. Essa discussão sobre a terra é retrógrada. Um discurso de uma elite de atraso. Existem muitos pesquisadores, assim como eu, que conhecem e podem ser consultadas sobre esta questão. No entanto, quando há um fechamento sobre a descoberta, como já se mostrou não ter grande valor, como uma novidade. A vinda do ministro do MMA, demonstra que ele descobriu apenas agora, que o CBA poderia se dedicar a coisas práticas e não teóricas. O centro   se dedicou coisas teóricas, trouxe para cá, 15 grandes pesquisadores e os perdeu, por que nunca foi criado o Conselho Técnico Científico no CBA, nunca foi pensado nisso. Quem estava nessa direção, não tinha essa visão. Queria mandar, era o “dono” do momento, criticou. A natureza está lá cheia de segredos e queimar esta grande biblioteca, que é a floresta é um crime de ignorância! Em um debate no Senado, disse à ‘bancada do boi’, para tomar cuidado. Pois a carne, já não é mais fabricada a partir da Boiada. A China gastou recentemente o equivalente a 13 milhões de dólares, em uma planta capaz de produzir carne a partir de células tronco. Sabemos que a engenharia genética fábrica carne e daqui há poucos anos, os nossos rebanhos não terão mais nenhuma importância ao mercado. E isso será lembrado, que os bois foram colocados em lugares onde crescem células tronco. Plantas inteligentes podem fabricar produtos que extraímos em benefício para medicamentos. O potencial existe, nosso grande dilema é aprender a ler nossa própria biblioteca na floresta.