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    Base rachada e ‘negacionismo’ da Covid-19 podem isolar Bolsonaro

    Figuras públicas do meio político avaliam a delicada posição do presidente da república

    | Foto: Walterson Rosa

    Manaus – Os posicionamentos, declarações e a articulação do presidente da República Jair Bolsonaro (Sem partido), foram avaliadas por parlamentares aliados, de oposição e um especialista político. Bolsonaro segue como a principal figura central, na atual crise política do Brasil, que anteriormente já atravessava uma recessão econômica, e agora está imerso à pandemia de Covid-19.

    Para o cientista político Jack Serafim, as acusações do ex-ministro Sérgio Moro causaram fissuras na popularidade do governo atual. “O principal capital político de Bolsonaro é a sua popularidade e um dos propulsores dela, estava fundamentado no combate a corrupção. Boa parcela dos eleitores o apoiou por esse motivo, não por suas qualidades como gestor. Esse público votou na ideia de combate aos corruptos, e no instante em que ocorre esse racha, Bolsonaro fica fragilizado. Quem votou na ‘ideia’ e não no mito, passou a recuar. Ainda não sabemos o grau desse recuo, mas se for acentuado, certamente ele ficará isolado, já que os políticos mais experientes não costumam permanecer em barco que está afundando”, analisou.

    Delegado Péricles (PL), deputado estadual e apoiador de Jair, afirma ser inegável a contribuição do ex-ministro, mas que mantém apoio ao governo. “Sérgio Moro, contribuiu não só para o governo, mas para todo o nosso país. Ele sempre será figura emblemática quando o assunto for combate à corrupção, a lava-jato. A ausência de toda contribuição técnica que poderia ser dada por ele, foi questão lamentada por mim. Mas acredito que o governo Bolsonaro independe do ministro. Começou ainda na campanha sem ele e seguirá, sem dúvida, sem medir esforços para o crescimento do nosso país, pelo o bem da nossa população”, comentou.

    O vereador Chico Preto (DC), em uma postagem no facebook, disse estar estarrecido ao ver Moro “nascer” como político. “As palavras de Sérgio Moro na coletiva além de um conteúdo político, tem um conteúdo jurídico. Acusou o presidente de condutas que, em tese, têm repercussão na seara criminal e isso será devidamente apurado, após pedido assertivo da PGR. Já Bolsonaro, revelou traços da personalidade de Moro, que o afastam do perfil conservador que o presidente preserva e com o qual me identifico. Espero que as acusações feitas que sejam devidamente apuradas, dentro dos ditames da justiça e que o país supere esse episódio e volte a combater o real problema do momento: o coronavírus”, ponderou.

    E dai?

    Durante uma entrevista coletiva no Palácio do Planalto, na terça-feira (28), uma jornalista disse ao presidente que o Brasil havia ultrapassado o número de mortos da China por covid-19. Bolsonaro retrucou a profissional, e fez uma referência da situação caótica ao próprio sobrenome: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", disse ao som de uma risada solitária ao fundo.

    O presidente também ponderou o discurso, afirmando que se solidariza com a família das vítimas. “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida. Amanhã vou eu, logicamente, a gente quer ter uma morte digna e deixar uma boa história para trás”, disse.

    O presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM), parlamentar do “centrão” amenizou a frase de Jair. “Não vou imaginar que o presidente, por uma frase mal colocada ou outra, está tratando como irrelevante as mortes brasileiras, acho que não. Mas é claro que gera polêmica”, comentou.

    Pelo twitter, deputada federal de oposição Erika Kokay (PT) sugeriu o que Bolsonaro poderia fazer. “ ’E daí? O que eu posso fazer? ’ Mobilizar o governo contra o vírus; construir hospitais, leitos de UTI; produzir testes e EPIs; pagar o auxílio de R$ 600; preservar empregos; socorrer estados e municípios; parar de gerar crises. Incompetente não sabe governar”, afirmou.

    Já o cientista político avalia, que ao agir contra o isolamento e empurrar a responsabilidade para os governadores, o presidente mostra que está distante da realidade e da própria ciência. “Isso é ruim, pois o Brasil não pode mais ter governadores e o presidente em direções opostas. Nem tampouco ter a medicina e o governo em confronto. Bolsonaro está fazendo o que prometeu não fazer: se isolar em Brasília, enquanto governadores e deputados estão sendo duramente confrontados com as mortes e com o desespero da população. É preciso que ele acorde e mude a chave de suas prioridades, infelizmente ao invés de liderar o Brasil a vencer a pandemia, o presidente está mais preocupado as investigações da PF”, ressaltou Serafim.

    Impeachment

    Na avaliação de Jack Serafim, o processo de um impeachment em si seria extremamente traumático e desgastante. “Imagine um time de futebol que além de tentar fazer gol, precisa fazer uma cirurgia no meio do campo, não dá para fazer os dois ao mesmo tempo. Mas independente do caos, a democracia brasileira se sustenta em leis e princípios que não podem ser desrespeitados, mesmo em meio a essas dificuldades. Um deles é o princípio da impessoalidade, onde ninguém pode a força administrativa para prejudicar nem favorecer ninguém”, avaliou

    O cientista político ainda continua avaliando o cenário no Brasil. “O print divulgado por Moro é evidência suficiente desse tipo de violação. A mensagem, em si mostra a tentativa do presidente de proteger seus aliados de serem investigados. Seja bolsonarista ou não, a PF não pode ser direcionada por motivações pessoais. Imagine se ao invés de Bolsonaro, essa mensagem fosse por exemplo por Lula, a reação seria a mesma? É por isso que existem as leis. Independente da cor partidária, deve servir para todos. E as chances de um impeachment são reais, a menos que o governo faça o que sempre condenou: Abrace o “centrão”, distribua uns cargos e, com votos suficientes no Congresso, impeça a queda”, finaliza o especialista.