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    ENFRENTAMENTO À PANDEMIA


    'Presidente continua, sem base científica, desejando o contrário'

    Afirmação é do novo arcebispo metropolitano de Manaus, Dom Leonardo Ulrich Steiner, em entrevista exclusiva ao EM TEMPO

    Dom Leonardo Steiner defende o distanciamento social e critica falta de exemplo positivo do presidente da República | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Novo arcebispo da Arquidiocese de Manaus, desde o dia 31 de janeiro deste ano, Dom Leonardo Ulrich Steiner, antes mesmo de assumir o posto no lugar de Dom Sérgio Castriane, já vinha de uma história de declarações com tons mais políticos, em meio aos seus sermões religiosos, quando ainda Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília, ou mesmo em declarações públicas quando secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

    Há pouco mais de 90 dias como o maior nome da Igreja Católica, no Amazonas, Steiner diz em entrevista exclusiva ao EM TEMPO que, diante da maior crise sanitária da história recente do país, que afeta duramente o Estado, que não vê com bons olhos o uso de lockdown como medida a ser tomada, por conta das condições econômicas de milhares de famílias em situação de vulnerabilidade social.

    Contudo, o arcebispo metropolitano, que caminha para o seu 70º ano de vida, observa que hoje é mais do que necessário que os governos e a sociedade trabalhem para diminuir a curva de contaminação, o que, na sua avaliação, fica mais difícil “se o presidente [Jair Bolsonaro] continua, ostensivamente, sem base científica, desejando o contrário”. Leia a seguir a entrevista completa.

    Bispo está há mais de 90 dias como maior representante da Igreja Católica, no Amazonas
    Bispo está há mais de 90 dias como maior representante da Igreja Católica, no Amazonas | Foto: Lucas Silva

    EM TEMPO - Manaus vive hoje uma das suas maiores crises sanitárias, com dramática influência social e econômica. Como a Igreja Católica tem se posicionado a respeito desse momento?

    Dom Leonardo Ulrich Steiner - Como Igreja Católica, nós temos procurado seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), das autoridades sanitárias, dos governos municipal e estadual. Antes que fosse publicado o distanciamento social pelas autoridades Municipal e Estadual, já havíamos reunido o clero e aprovado as diretrizes para o tempo de trinta dias. Ficavam suspensas todas as celebrações públicas dos sacramentos e as expressões religiosas que em Manaus são tão significativas, como as procissões. Essas diretrizes foram prorrogadas para mais trinta dias e se necessário serão estendidas por mais tempo. O distanciamento social tem sido decisivo para que as pessoas infectadas recebam um acompanhamento médico e hospitalar. Com o sistema de saúde fragilíssimo, com o tempo de virose que coincidiu com a pandemia, estamos vendo a dor e o sofrimento das famílias que devem enterrar os seus mortos sem despedida. Infelizmente, não tivemos de autoridades máximas a palavra e o exemplo para o distanciamento social. Imagine se a Igreja não aderisse às recomendações e determinações, o que poderia estar acontecendo em Manaus?

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    Infelizmente, não tivemos de autoridades máximas a palavra e o exemplo para o distanciamento social. Imagine se a Igreja não aderisse às recomendações e determinações, o que poderia estar acontecendo em Manaus? "

    Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, sobre o exemplo contra a pandemia

    ET - Sem poder abrir as portas das suas igrejas, como a Arquidiocese de Manaus tem trabalhado para manter o trabalho com a fé, com os seus fiéis?

    Steiner - A fé necessita ser celebrada e celebrada em comunidade. Temos oferecido a oportunidade das celebrações transmitidas pela internet, pelas rádios e pela TV. Pela audiência, que é grande, percebemos a participação das famílias nesses momentos celebrativos. As famílias têm rezado o terço, lido e meditado a Palavra de Deus. Cresce a saudade dos encontros, dos cantos e dos abraços num mesmo espaço físico. No espaço da fé tem acontecido. O outro virá! Mas, a fé também necessita ser expressa no amor. Temos animado as pessoas a fazerem a sua doação para os pobres. A Cáritas Arquidiocesana tem recebido as doações com as quais temos ido ao encontro das pessoas mais necessitadas. Crescemos, nesse sentido como Igreja. 

    ET - Como a Igreja no Amazonas e no Brasil avalia a importância do isolamento social nesse momento de crise histórica?

    Steiner - Temos visto que a Igreja Católica no Amazonas tem contribuído para que o distanciamento social aconteça. Ela tem experiência do passado com as pestes que levaram milhares de pessoas à morte. Não tinham os recursos que temos hoje, mas sabiam que um meio eficaz e provado para enfrentar os vírus era o isolamento, a quarentena. Hoje temos muitos recursos, mas porque o vírus só é visível nos sintomas que se manifestam nos outros, subestimamos a necessidade do isolamento social. Existe resistência ao distanciamento e pressão contra o mesmo.

    ET - Diante de um governo nacional que destoa até mesmo do posicionamento do próprio Ministério da Saúde quanto às medidas de isolamento social e tem influenciado uma grande massa a não cumprir as medidas, qual é a avaliação da igreja sobre esse cenário?

    Steiner - A avaliação social tem seu parâmetro que é a ética. Essas ações estão baseadas na ética? Como avaliar? 

    ET - O que o senhor diria ao presidente da República sobre o que ele fala e da forma que age totalmente contrário aos protocolos das organizações internacionais e nacionais de saúde?

    Steiner - O diálogo, a fala é possível com quem tem a capacidade da escuta. Escutar é uma graça a ser exercitada; também a escuta da realidade, do sofrimento dos outros.

    ET - A pandemia da Covid-19 está bem perto de alcançar todos os municípios amazonenses, até mesmo os mais longínquos. A igreja tem trabalhado alguma mensagem para esses amazonenses?

    Steiner - Cada uma das igrejas particulares, dioceses e prelazias têm feito o dever de casa, contribuindo para o distanciamento social. Os bispos da Amazônia legal publicaram um manifesto conclamando a Igreja e a sociedade para a realidade do coronavírus. E na realidade da pandemia para a realidade sempre crescente de violação dos direitos dos povos indígenas. Os povos indígenas da Amazônia têm-se manifestado, pedindo justiça e saúde. Mas, não são ouvidos. Nós como Igreja desejamos ressoar a voz desses irmãos e irmãs. Os indígenas têm enviado mensagem de cuidado entre eles. Como é agradável ver o cuidado entre eles.

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    Os povos indígenas da Amazônia têm-se manifestado, pedindo justiça e saúde. Mas, não são ouvidos. Nós como Igreja desejamos ressoar a voz desses irmãos e irmãs. Os indígenas têm enviado mensagem de cuidado entre eles. Como é agradável ver o cuidado entre eles. "

    Steiner, sobre o comportamento dos povos indígenas na pandemia

    ET - Com uma aceleração descontrolada de casos de contaminação e de morte no Amazonas, causadas pela Covid-19, as notícias sobre essa crise chegou ao Vaticano. Qual foi a mensagem que o Papa Francisco passou para o senhor e o que a Igreja tem feito desde lá?

    Steiner - O telefonema do Papa Francisco foi para todos que vivem na Amazônia, um gesto de proximidade, de preocupação, de conforto, de consolo, de esperança. Quantas pessoas, depois manifestaram gratidão pelo gesto do Papa. O Papa se lembrou de nós, o Papa está conosco; foram das expressões que ouvi. É extraordinária a sensibilidade do Santo Padre. Onde existe dor humana ele se faz presente.

    ET - O senhor á favorável ao lockdown em Manaus, diante do atual quadro?

    Steiner - Quantas pessoas a serviço de todos nós: coveiros, pessoas da limpeza nos cemitérios, da limpeza de nossa cidade, seguranças, pessoas que estão a serviço da saúde, pessoas que estão acolhendo e distribuindo alimento para os pobres. As pessoas que vão ao banco buscar o auxílio emergência. Temos muita gente nas ruas. Seria importante uma campanha do distanciamento social através dos meios de comunicação, pois há necessidade diminuir a curva das infecções e internações. Mas, não será muito crível se o presidente continua, ostensivamente, sem base científica, desejando o contrário. A cidade fechada, eu tenho a sensação, não funcionará. Os pobres não terão onde ficar. As casas são pequenas para abrigar, durante uma semana ou duas, quatro a seis pessoas.

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    Seria importante uma campanha do distanciamento social através dos meios de comunicação, pois há necessidade diminuir a curva das infecções e internações. Mas, não será muito crível se o presidente continua, ostensivamente, sem base científica, desejando o contrário. "

    Steiner, sobre a curva de contaminação da pandemia

    ET - É possível chamar os fiéis que, sempre lotaram os grandes eventos da Igreja, como o Pentecostes, para mais esse sacrifício que é ficar em casa por dez ou 15 dias, a fim de ajudar na desaceleração negativa da curva da pandemia? Como?

    Steiner - Os irmãos e irmãs que são presença viva na igreja e na sociedade entendem e compreendem que não devemos ser agentes de transmissão, agentes de saúde mental e física. Não se trata de sacrifício, mas de um gesto de amor para com o próximo.

    ET - O senhor é a favor do auxílio emergencial de R$ 600 que o governo tem distribuído aos trabalhadores informais e microempreendedores individuais?

    Steiner - A tentativa inicial de oferecer um auxílio era menor. É uma ajuda, mas não sei como as famílias sobrevirão com 600 reais numa casa com quatro ou mais pessoas. Houve uma demora muito grande na aprovação e entrega do auxílio. É um auxílio importante. Mas, o Estado também deverá ajudar às empresas e microempresas para que não haja um desemprego ainda maior. Outros países não tiveram receio de endividar o estado para salvar os empregos. Que essa dívida seja organizada, equânime, justa, sem desvios, para o bem do Brasil.

    ET - Especialistas apontam que a pandemia será superada, talvez ainda neste ano, depois até mesmo de uma provável segunda onda. Com a experiência de hoje, como o senhor acha que a igreja vai passar a se comportar na pós-pandemia. O Senhor acredita em um novo comum? 

    Steiner - Talvez, sejamos melhores. Tenho lido textos que desejam refletir o momento que vivemos. Buscam apontar elemento onde talvez, não vivamos abraçados ao consumo, ao desperdício, à destruição da natureza, ao desprezo dos pobres. A nossa cotidianidade vai sendo construída, mas tenho a impressão que determinado número de pessoas nunca vai aprender, perdendo a oportunidade de serem mais pessoas, mais humanos. Nós, como Igreja, sairemos mais fortalecidos, mais solidários. Santo Agostinho diz: “Canta no caminho e o caminhar será mais leve!” No meio de todas as dores e despedidas não feitas, ainda cantamos, buscando o coração de Deus.