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    Política


    Pandemia e crises política e econômica geram instabilidade no Brasil

    Cientistas políticos concordam que o atual governo está caindo em descrédito e que Bolsonaro pode ser prejudicado ao buscar a reeleição em 2022

    | Foto: Adriano Machado/Reuters

    Manaus – O governo do presidente Jair Bolsonaro tem enfrentado inúmeras adversidades desde março deste ano. Além da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, a saída de ministros e os abalos na economia também estão gerando incertezas e criando instabilidade no Brasil. Cientistas políticos e eleitores amazonenses avaliam a administração do governo em meio à pandemia.  

    O advogado e cientista político Carlos Santiago contextualiza o momento que a política brasileira vivencia e explica o que mudou desde o início da trajetória do governo, até a chegada da pandemia da Covid-19. Segundo Santiago, três grandes forças populares deram sustentação eleitoral ao atual presidente Jair Bolsonaro.

    Advogado e cientista político, Carlos Santiago
    Advogado e cientista político, Carlos Santiago | Foto: Valmir Lima

    “Ele saiu vitorioso por três motivos principais: a moralização da administração pública, com forte apelo ao combate à corrupção e a parceria com a operação Lava-jato; o liberalismo econômico, com a diminuição do papel do Estado na economia e a priorização de parcerias com setores da classe empresarial; por fim, a pauta dos costumes, que envolve a defesa da família tradicional, medidas contra o aborto e o debate sobre gênero nas escolas, entre outras”, esclarece.

    De acordo com o cientista, depois de quinze meses de governo, a chegada do novo coronavírus abalou pelo menos dois desses pilares.

    “A proposta liberal foi enterrada, pois o Brasil precisa de um Estado forte e atuante na economia para combater a crise gerada pela pandemia. A moralização da administração pública não foi a tônica do governo, ainda mais agora, com a saída do Moro do Ministério da Justiça, revelando que o presidente pode ter tentado interferir em investigações da administração federal”, destaca.

    Segundo Santiago, Moro representava a a moralização da administração pública no governo Bolsonaro
    Segundo Santiago, Moro representava a a moralização da administração pública no governo Bolsonaro | Foto: Reprodução/Internet

    Mesmo que ainda tenha os eleitores que o apoiaram pela pauta dos costumes, Santiago salienta que os prejuízos nos outros setores são suficientes para abalar a popularidade do presidente e a governança do país.

    Corrupção

    Também cientista político, Jack Serafim analisa que Bolsonaro foi escolhido como um símbolo da insatisfação ante as denúncias de corrupção. Segundo ele, ainda que o presidente faça uma administração mediana, isso pouco abalaria sua popularidade.

    “No entanto, ter que gerenciar as crises envolvendo os nomes dos filhos, desgasta Bolsonaro diretamente, devido esse discurso: combate a corrupção”, desenvolve.

    De acordo com Serafim, a saída de Moro e as acusações feitas pelo mesmo atingiram diretamente a bandeira anticorrupção que Bolsonaro levantou desde o início das eleições. O cientista afirma que, nesse momento, o presidente precisa assumir uma posição de liderança.

    Cientista político, Jack Serafim
    Cientista político, Jack Serafim | Foto: Reprodução/Internet

    “A fissura provocada pelas afirmações de Moro podem ser uma brecha para destruir a imagem de Bolsonaro, que já está enfrentando uma crise econômica e de saúde. Mais do que nunca, o presidente não pode se isolar em Brasília e deve assumir uma posição de liderança, apoiando governadores e prefeitos. Caso contrário, ele corre o risco de sofrer o mesmo abalo sentido pelo Partido dos Trabalhadores (PT)”, disserta Serafim.

    Eleitores

    Em relação aos eleitores, Serafim avalia que, tradicionalmente, o Brasil se divide em 30% de votos para quem está no governo, 30% para quem faz parte da oposição e outros 40% que oscilam de um lado para o outro. Segundo ele, se Bolsonaro continuar falando só para seus 30% garantidos, corre o risco de ter os planos de sua reeleição inviabilizados pelos os 40% que oscilam.

    Educadora ambiental e biotecnóloga, a eleitora Andressa Barroso, 27 anos, afirma que o presidente não apresenta o preparo necessário para conduzir o Brasil, principalmente em meio à pandemia.

    “Eu não votei nele, uma vez que não concordo com os valores políticos e sociais do seu governo. Nesse momento, o despreparo dele só está piorando a crise ocasionada pela Covid-19”, explica.

    A eleitora Andressa Barroso afirma que Bolsonaro não tem preparo para enfrentar a crise
    A eleitora Andressa Barroso afirma que Bolsonaro não tem preparo para enfrentar a crise | Foto: Divulgação

    Andressa argumenta que o mundo vive um momento em que a ciência, a pesquisa e a educação estão na linha de frente ao combate do novo coronavírus, mas essas questões não foram realmente defendidas pelo governo Bolsonaro anteriormente e agora a situação só ficou mais complicada.

    “É revoltante um governo que não apoia a ciência e a educação. Estamos vendo pessoas morrendo todos os dias e ele não está do lado daqueles que realmente precisam, as minorias e os mais pobres. Muitos ainda irão morrer se o assistencialismo por parte do governo não for eficiente”, justifica.

    O administrador Cesar Otávio Lisboa, 41 anos, apoia o governo Bolsonaro e deixa claro que todos os demais países estão sendo prejudicados pela pandemia e não só o Brasil.

    “Todos estão reconhecendo fragilidades peculiares que não estavam no radar antes da chegada da Covid-19. Acredito que o presidente estava em uma curva de crescimento dentro do esperado, mas vários problemas em paralelo mudaram o planejamento estipulado”, esclarece.

    O eleitor Cesar Otávio acredita que a pandemia é um problema novo para todos os países e não só para o Brasil
    O eleitor Cesar Otávio acredita que a pandemia é um problema novo para todos os países e não só para o Brasil | Foto: Divulgação

    Cesar considera que o mandato de Bolsonaro é pautado em retornar à polemicas e isso acaba ofuscando os números positivos que ele deveria estar apresentando à população. Contudo, o eleitor afirma que os dados estão disponíveis nas redes oficiais do governo, estimulando que todos os cidadãos busquem acompanhar.

    Em relação a saída dos ministros, Cesar discorre que a formação militar de Bolsonaro acaba prevalecendo em muitas de suas decisões, por isso, quando os ministros esquecem da hierarquia e tomam providências sem o alinhamento com o presidente, ele precisa tomar a decisão de os retirar.

    Para Cesar, Moro não seria uma figura interessante se resolvesse se candidatar em 2022, pois o juiz caiu em descrédito no âmbito ético.

    “Os pronunciamentos feitos pelo ex-ministro demonstraram somente uma preocupação com sua biografia e, além disso, estamos no meio de uma pandemia e não houve uma preocupação ao tratar desse assunto polêmico em uma hora apropriada. Esse não era o momento”, considera.