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    Márcia Levi


    Psicólogos não podem oferecer a ‘cura gay’, diz especialista

    Psicóloga abre o jogo e fala sobre homofobia, sexualidade, terapia de reversão sexual e direitos dos homossexuais

    Márcia Cristina Henrique Levi é professora e analista judiciária do Tribunal de Justiça do Amazonas (Tjam) | Foto: Chico Batata

    Manaus - A psicóloga Márcia Cristina Henrique Levi, 40 anos, concedeu entrevista exclusiva ao Em Tempo e abordou a questão de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, os avanços do movimento LGBTQIA+, possíveis causas e porque o tema ainda concentra um “tabu” tão presente na sociedade, ocasionando, inclusive, em crimes contra homossexuais. 

    Bacharel em Direito, Márcia é analista judiciária do Tribunal de Justiça do Amazonas (Tjam), além de professora, e avalia que, para esta pauta ser tratada com mais seriedade, falta empatia, representatividade, disposição, perceber e aceitar as unicidades que compõem cada ser em específico, gentileza em olhar para o outro, que falta tudo, o que não falta é preconceito.

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    Não é possível ou, eticamente imaginável, profissionais da psicologia no Brasil, por exemplo, oferecerem qualquer tipo de terapia de “reversão sexual”, de “cura gay” ou algo parecido, uma vez que a homossexualidade não é, nem pode ser considerada patologia "

    Márcia Levi, psicóloga, sobre o papel a psicologia em relação a homoxessualidade

    EM TEMPO - A senhora, além de psicóloga, é pós-graduada em sexualidade, gênero e direitos humanos, temas cada vez mais em pauta na sociedade. Como avalia as discussões em torno desses fatores? Falta mais abertura de forma geral?

    Márcia Levi - Infelizmente, hoje, na segunda metade do ano de 2020, ainda é sim, um imenso tabu falar sobre sexualidade e gênero como facetas da promoção de um dos direitos mais intrínsecos aos humanos que é: ser quem se é. E é bem significativo se pensar que essa temática pois não são verdades absolutas e sim construtos sócio-históricos, ou seja, em determinados períodos da contagem e da passagem do tempo, para alguns grupos sociais, esses comportamentos ou esses conjuntos de características que definem e caracterizavam algo ou alguém como facetas da personalidade, enquanto prática sexual, afetiva ou identitária, eram aceitos e totalmente normalizados. Por exemplo, na Grécia Antiga, momento em que o relacionamento “homo” ou “bissexual” era corriqueiro, já na Idade Média, esse mesmo comportamento sexual, afetivo ou identitário era tido como totalmente inapropriado e rechaçado, sendo em alguns casos, criminalizados e punidos, inclusive, com pena de morte. 

    No Brasil, por exemplo, relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo ou LGBTQIA+, era considerado crime de sodomia. A descriminalização só ocorreu em 1830, com o advento do “Código Criminal do Império”. Atualmente, na maior parte dos países, não há mais esse tipo de violência aberta (penas de prisão ou castigos corporais), diretamente perpetrada, por parte do Estado, porém, o que é de conhecimento público e, ainda erroneamente persiste é um imenso e agonizante sofrimento, pois falta sim abertura para esta pauta. E, é justamente por essas, entre tantas outras faltas - equivocadamente estabelecidas em nossa sociedade - que as discussões sobre sexualidade e gênero, enquanto marcos de amparo e proteção de Direitos Humanos, podem ser muito antagônicas e violentas.

    A especialista diz aos jovens homossexuais que busquem se conhecer e se amar em primeiro lugar
    A especialista diz aos jovens homossexuais que busquem se conhecer e se amar em primeiro lugar | Foto: Chico Batata

    ET - A homofobia representa repulsa e preconceito contra a homossexualidade ou o homossexual. Qual o papel da psicologia no enfrentamento à homofobia?

    Márcia Levi - Primeiramente é importante explicar o que é homofobia, que significa sim aversão irreprimível, repugnância, medo, ódio ou preconceito que algumas pessoas ou grupos tem e/ou demonstram contra outras pessoas, em função de suas afetividades, sexualidades ou identidades, porque não concordam ou “não aceitam” tais características, o que por si só, já é um imenso absurdo. Para além disso, a psicologia, ciência e profissão é legal, histórica e legitimamente consagrada por sua luta relacionada a busca constante por direitos igualitários de e entre todos os seres humanos, incluindo-se, por óbvio, as pessoas LGBTQIA+, referendando este alicerce de tal modo que seus profissionais tenham como norte, a atuação segundo os princípios éticos inerentes a profissão, entre os quais: a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade, assim, não é possível ou, eticamente imaginável, profissionais da psicologia no Brasil, por exemplo, oferecerem qualquer tipo de terapia de “reversão sexual”, de “cura gay” ou algo parecido, uma vez que a homossexualidade, como já dito anteriormente, não é, nem pode ser considerada patologia, transtorno, desvio ou desordem psíquica, ou seja “não há cura para aquilo que não é doença”.

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    Para falar de políticas públicas relativas à promoção de todo e qualquer direito é imperativo se falar de cidadania e, nesta seara, já temos que encarar um enorme e muito complexo problema que enfrentamos, direta ou indiretamente, em nossa sociedade, todos os dias "

    Márcia Levi, psicóloga, sobre a promoção da diversidade sexual

    ET - Como a senhora avalia as políticas públicas relativas à promoção da diversidade sexual e ao combate à homofobia? Como elas poderiam ser melhoradas nesse sentido?

    Márcia Levi - Para falar de políticas públicas relativas à promoção de todo e qualquer direito é imperativo se falar de cidadania e, nesta seara, já temos que encarar um enorme e muito complexo problema que enfrentamos, direta ou indiretamente, em nossa sociedade, todos os dias. Pois se refletirmos sobre as graves dificuldades e os muitos percalços relacionados ao acesso verdadeiro garantidores dos direitos básicos primordiais tais quais: vida, saúde, educação, moradia, saneamento básico, trabalho, lazer, segurança, assistência e previdência social, evidencia-se que todos estamos muito distantes daquilo que se pretende por ideal e, que está contido como fundamento primeiro de nossa Constituição Federal que, por isso, deveria ser uma realidade comum e usual para todos, mas essa não é a nossa realidade. Neste diapasão, perde o povo brasileiro como um todo e, a comunidade LGBTQIA+, perde ainda mais, pois não há a sustentação verídica ou qualquer tipo de política pública estruturada, por parte do Estado e dos órgãos competentes, para que sua cidadania e direitos sejam, de fato, plenamente exercidos. 

    ET - O que sugere a psicologia para o jovem ou a jovem que está se assumindo poder lidar com o preconceito?

    Márcia Levi - Nós psicólogos não sugerimos nada para ninguém, não aconselhamos, não predizemos o futuro (risos). Falando sério, independentemente de sua identificação, orientação, afinidade afetiva ou sexual, se você tem muita ou nenhuma experiência, em qualquer aspecto, inclusive no afetivo e sexual etc., falo para todo e qualquer jovem: conheça-se e se ame muito, em todos os momentos, ocasiões e circunstâncias, ame-se e se respeite, o que, por si só, já é um exercício bem complexo, todavia, extremamente necessário. Pois quanto mais você se conhece, percebe-se, respeita-se e se ama enquanto ser humano precioso que é, os outros serão apenas os outros, eles – os outros – não terão tanta força e já não ditarão o que é certo, conveniente ou válido para você, porque eles são eles – ou outros – não são você.  O afeto ou o desejo sexual por pessoas do mesmo sexo não é doença, não é “anormalidade”, não é escolha, não é distúrbio ou desvio psicológico (ideia igualmente defendida pela Organização Mundial da Saúde desde 1990).

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    Se você que é pai ou mãe e está com dificuldades de aceitar seu filho, por ele ser quem é, o problema não está no seu filho, está em você. Seja minimamente compreensivo e ao mesmo tempo sincera ou sincero consigo mesmo "

    Márcia Levi, psicóloga, sobre a relação pais e filhos

    ET - Por que ainda é tão difícil os pais aceitarem um filho LGBTQIA+?

    Márcia Levi - Por preconceito e por frustração de suas idealizações e fantasias, pois, quando um filho é gerado, seja afetiva ou biologicamente, esse ser tão pequeno e indefeso já passa por uma fortíssima avaliação probatória em relação a tudo que diz respeito a sua vida, uma vez que, já vem demarcado e formatado por uma série de limitações, idealizações e projeções por parte dos pais, cuidadores ou familiares. Esse humano, quando nasce, passa a ter então um órgão sexual e urinário determinado, um nome, uma história de vida e vários planos, futuro e missão imaginada por várias pessoas, menos por ele mesmo. Neste contexto é preciso se pensar nas diferenças que os pais, inconscientemente, e sem qualquer culpa ou maldade, fazem entre: o filho real e o filho ideal, enfatizando-se que o real é o que de fato existe e está, na melhor das hipóteses, a seu alcance, sentado ou deitado bem pertinho de você. O filho real é o que se suja, o que cai, o que tem febre, o que faz birra, o que às vezes mente, o que responde, que tira nota baixa, que passa horas em frente do computador ou grudado no celular - jogando ou rindo sozinho com os vídeos da internet, que brinca e faz sua vida valer a pena, mesmo colocando o dedo no nariz e logo depois na boca.

    Assim, se você que é pai ou mãe e está com dificuldades de aceitar seu filho, por ele ser quem é, o problema não está no seu filho, está em você. Seja minimamente compreensivo e ao mesmo tempo sincera ou sincero consigo mesmo. Você não dá conta nem dos seus próprios desejos, relacionamentos afetivos e sexuais, mas quer dar conta dos afetos e da sexualidade alheia?

    ET - Em função de sua especialidade, a senhora só atende ao público LGBTQIA+?

    Márcia Levi - Não. Assim como o ser humano é múltiplo e diverso, o atendimento em consultório também precisa ser plural, jamais anacrônico, meu compromisso ético e profissional com a Psicologia, possibilita-me oferecer, entre as várias atribuições previstas nas Regulamentações do Conselho Federal de Psicologia, o estudo e a análise dos processos e das relações intra e interpessoais, possibilitando a compreensão do comportamento daquele ser humano na sua individualidade e em grupo, com o objetivo de identificar e intervir em face de determinadas condições das ações perpetradas e dos sujeitos envolvidos, em sua história pessoal, familiar e social, vinculando-as também a suas qualidades e inter-relações culturais, políticas e sócio-históricas. 

    Ou seja, realizo pesquisas, diagnóstico, acompanhamento psicológico e intervenção psicoterápica individual, especializada, de base psicanalítica, buscando, junto com o paciente, integração, saúde emocional, bem-estar psíquico e melhor adaptação deste para consigo e para com o mundo que o rodeia, a partir do autoconhecimento, da auto percepção, do processo de compreensão de suas próprias angústias existenciais, pensamentos, ações e reações, assim, em parceria dialético-reflexiva, trabalhamos seus processos mentais, sensações, sentimentos e emoções, por meio da fala e da escuta terapêutica especializada, seja ele quem for, cis ou trans, homo, bi ou hétero, pois, o que me interessa e dá sustentação ao meu fazer psicanalítico é o pacto de vida que tenho para com o ser humano, independentemente, de suas percepções e conceituações.