Mandante de Assassinato


Caso Flordelis: relembre fatos que levaram ao indiciamento de deputada

Flordelis dos Santos foi indiciada por cinco crimes e é apontada como mandante da morte do marido Anderson Carmo. Outras seis pessoas foram presas nesta segunda (24)

| Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Rio de Janeiro - A morte do pastor Anderson Carmo, que era marido da deputada federal Flordelis dos Santos Souza (PSD-RJ), ocorreu na madrugada do dia 16 de junho de 2019. Desde então, diversas dúvidas surgiram em torno do caso, que repercutiu em todo o país. Entretanto, nesta segunda-feira (24), uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro - que resultou na prisão de seis pessoas - pode significar a resolução do caso. 

Acompanhe abaixo os principais fatos identificados nas investigações sobre a morte de Anderson Carmo.

O crime

Anderson Carmo morreu depois de ser atingido por diversos tiros logo após chegar na casa onde morava com Flordelis e seus filhos, em Pendotiba, Niterói. Na época, o pastor voltada de uma confraternização juntamente com Flordelis, que relatou ter tido a sensação de que o carro do casal estava sendo seguido por motociclistas. 

Logo após entrar na residência, o pastor voltou à garagem, onde foi surpreendido pelo criminoso. Carmo chegou a ser levado para o Hospital Niterói D’Or, em Santa Rosa, mas não resistiu. A perícia identificou mais de 30 perfurações no corpo dele. 

Primeiros suspeitos presos

Anderson Carmo e Flordelis registraram 55 filhos, a maioria adotados. E foi sobre a "prole" do casal que as investigações se debruçaram.

Um dia após o crime, Flávio dos Santos - filho biológico apenas de Flordelis - foi preso ainda no velório de Anderson. Ele tinha um mandado de prisão por violência doméstica.

Em seguida, Lucas Cezar dos Santos - filho adotivo do casal, de 18 anos - também foi preso. Quando era menor, ele teve envolvimento com o tráfico de drogas. 

Três dias após a prisão, Flávio admitiu ter atirado seis vezes contra Anderson Carmo. Em depoimento, ele afirmou também que recebeu ajuda do irmão Lucas Santos para comprar a arma usada no crime. Inicialmente, a polícia informou apenas que Flávio teria assumido o planejamento da morte. Ainda no dia 20, ambos tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça do Rio por homicídio qualificado. 

No quarto onde Flávio dormia, a polícia encontrou uma pistola em cima de um armário. 

Após a confissão de Flávio, a deputada Flordelis comentou em uma rede social que "confissões não são suficientes para condenar". 

Dinheiro em troca do assassinato

Um dos filhos do casal afirmou à polícia que suspeitava do envolvimento de Flordelis e de mais três irmãs na morte de Anderson Carmo. O jovem relatou que uma delas teria oferecido a quantia de R$ 10 mil a Lucas dos Santos para matar o pastor. 

Na ocasião do depoimento, o jovem ainda citou que Flordelis e as três irmãs colocavam remédio na comida de Anderson que, posteriormente, apresentava problemas de saúde. O relato foi parcialmente confirmado na operação realizada nesta segunda-feira (24), que apontou episódios de envenenamento sofridos por Anderson. 

O jovem afirmou que viu Flávio próximo ao corpo do pai logo após o crime. Ele teria recolhido uma mochila e o celular de Anderson. 

Com o depoimento, a polícia passou a investigar também a participação de Flordelis no crime, assim como das demais pessoas que estavam na casa na ocasião. 

Carta falsa

Durante uma audiência realizada em novembro de 2019, quatro meses e meio após o crime, o Ministério Público do Rio de Janeiro apontou que a deputada Flordelis poderia ter fraudado em que Lucas dos Santos assumiu ser mentor da morte de Anderson Carmo. No documento, ele ainda apontava a participação de outros dois irmãos. 

Entretanto, Lucas afirmou na audiência que apenas recebeu o texto pronto e o reescreveu. 

Na época do surgimento da carta, Flordelis afirmou que recebeu o documento por meio da mulher de um preso. Em seguida, o apresentou à polícia. 

Celular desaparecido

Ainda no início das investigações, a polícia descobriu que o celular de Anderson Carmo foi utilizado logo após o crime para enviar mensagens em um grupo. De acordo com a polícia, uma pessoa se apresentou como filho do pastor, pediu orações e, por último, afirmou apenas que "infelizmente as notícias são verdades". Em seguida, o autor das mensagens compartilhou a localização do crime, ou seja, a casa da família.

Entretanto, durante vários dias, a polícia fez buscas na residência e não encontrou o aparelho. Segundo o relato de um dos filhos de Anderson e Flordelis, o objeto teria sido levado por Flávio dos Santos, que assumiu ter atirado contra o pastor. 

Já em janeiro deste ano, com o avanço das investigações, a polícia informou que o celular de Anderson Carmo foi utilizado com um chip diferente horas após o crime. A policia informou que o chip usado no celular da vítima estava registrado no nome da empresária Yvelise de Oliveira e foi conectado em uma rede Wi-Fi da casa dela, onde vive com o senador Arolde de Olveira (PSD-RJ) - com quem é casada. 

O inquérito apontou ainda que o celular foi levado para Brasília no mesmo dia do crime. Em seguida, o aparelho desapareceu novamente.

Arolde é um dos líderes do PSD, partido o qual a deputada Flordelis também é filiada, e tinha uma relação próxima com Anderson Carmo. O senador fundou o Grupo MK, que se trata de uma gravadora presidida por Yvelise e que produziu discos de Flordelis. 

Procurados pela revista Extra, o senador e a esposa afirmaram no dia 22 de janeiro estar "perplexos" com a situação. 

Operação "Lucas 12"  já resultou na prisão de cinco filhos de Flordelis dos Santos
Operação "Lucas 12" já resultou na prisão de cinco filhos de Flordelis dos Santos | Foto: Reprodução

Um possível desfecho? 

Nesta segunda-feira (24), um ano e dois meses após a morte de Anderson Carmo, o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio deflagraram a operação "Lucas 12". Ao todo, a polícia tenta cumprir 17 mandados de busca e apreensão em três cidades cariocas. 

A deputada federal Flordelis dos Santos, esposa de Anderson, foi apontada como mandante do crime, que começou a ser idealizado ainda em maio de 2018. Segundo as investigações, doses de arsênico foram colocadas na comida de Anderson Carmo que, por diversas vezes, chegou a dar entrada em hospitais de Niterói. 

Apesar do inciamento por cinco crimes (homicídio triplamente qualificado, associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e tentativa de homicídio - pelos episódios de envenenamento), Flordelis não pôde ser presa por conta da imunidade parlamentar. 

Na casa onde a deputada mora, em Pentotiba (Niterói) foram presos outros quatro filhos dela. São eles

Marzy Teixeira da Silva (filha adotiva): foi responsável por cooptar Lucas para matar o Anderson e também participou dos envenenamentos;

Simone dos Santos Rodrigues (filha biológica): foi responsável pelos envenenamentos e buscou informações sobre uso de veneno na internet;

André Luiz de Oliveira (filho adotivo): ele é ex-marido de Simone e foi flagrado em conversas com Flordelis combinando o envenenamento de Anderson Carmo;

Carlos Ubiraci Francisco Silva (filho adotivo): ele é pastor e foi citado por participação no planejamento da morte; 

Já em Camboinhas, também em Niterói, a polícia prendeu Adriano dos Santos (filho biológico), que participou no episódio da carta falsa;

Em Guaratiba, Zona Oeste do Rio, os policiais prenderam Andreia Santos Maia, esposa de um ex-policial que também auxiliou no caso da carta falsa; 

No apartamento funcional de Flordelis, em Brasília, a polícia encontrou Rayanes dos Santos Oliveira (neta). Ela buscou por assassinos para as tentativas anteriores, como Lucas;

Flávio dos Santos Rodrigues (filho biológico), apontado como autor dos disparos, já estava preso e teve um mandado de prisão expedido nesta segunda; 

Marcos Siqueira (ex-policial) também já estava preso e teve mandado expedido nesta segunda por participar no episódio da carta falsa;

Além destes, a polícia indiciou também Lucas Cezar dos Santos, que está preso, mas não teve mandado expedido na "Lucas 12".

Motivação financeira

De acordo com o delegado Allan Duarte, da Delegacia de Homicídios de Niterói, a motivação do crime foi financeira e, para isso, Flordelis construiu um "enredo". 

"A investigação demonstrou que toda aquela imagem altruísta e de decência era apenas um enredo para alcançar a posição financeira e política. Depois que ela alcançou esse objetivo principal de chegar à Câmara dos Deputados, ela colocou em prática esse plano criminoso intrafamiliar". 

Das 55 pessoas que compõem a família, 11 estão respondendo criminalmente. 

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