Com a palavra


'Quero politicas publicas acessíveis à população', diz Paulo Trindade

Paulo acredita que suas formações e bandeiras são fundamentais para que Manaus seja transformada em uma capital mais justa

Paulo é o primeiro ativista gay a lançar pré-candidatura para o pleito amazonense
Paulo é o primeiro ativista gay a lançar pré-candidatura para o pleito amazonense | Foto: Beatriz Araujo

Manaus - Aos 35 anos de idade, o fundador do Coletivo Difusão e do Centro Popular do Audiovisual, Paulo Trindade, é artista visual, licenciado em artes plásticas, especialista em arte e educação, mestrando em antropologia social, pesquisador, professor universitário, ativista dos direitos civis e humanos da população LGBTI+, e agora é o novo pré-candidato a prefeito de Manaus, pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol).

Ele é o primeiro ativista gay a entrar numa corrida majoritária em Manaus. O pré-candidato substituiu o presidente da sigla, professor Jonas Araújo, contado para ser candidatura majoritária do partido desde 2019. Apesar da pouca experiência política, Trindade acredita que suas formações e bandeiras são fundamentais para que Manaus seja transformada em uma capital mais justa, segura e com grande valorização da educação e da vida.

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A educação e a cultura são dimensões imprescindíveis para o processo de conquistas civilizatórias em oposição ao ódio, assim, conseguiremos alcançar melhores índices de desenvolvimento humano em Manaus. "

Paulo Trindade, artista visual e pré-candidato a prefeito, Como as bandeiras sociais podem transformar Manaus

EM TEMPO - Desde o ano passado, o Psol apostava no nome de Jonas Araújo como pré-candidato da sigla, como o seu nome surgiu para substituí-lo no pleito?

Paulo Trindade - A aprovação do meu nome aconteceu nas instâncias do Psol Manaus após um amplo debate com acompanhamento do Diretório Municipal, Estadual e Nacional do partido. O professor Jonas Araújo ocupa o posto de presidente municipal do Psol em Manaus e, por questões de foro íntimo, teve que retirar sua pré-candidatura. Dada essas condições, passamos por um processo de debate interno do partido para avaliar a conjuntura. Como eu já estava num processo de organização de uma pré-candidatura ao legislativo manauara e já possuía experiências na gestão da coisa pública, aceitei o desafio de concorrer ao Executivo Municipal. A escolha do meu nome também atentou para a resolução nacional do PSOL que prioriza as candidaturas de Mulheres, Negros e Negras, Indígenas, LGBTI+ e PCD nas eleições 2020. Assim, diante da minha trajetória de vida e de luta coloquei o meu nome à disposição diante da conjuntura de combate à violência que enfrentamos hoje. Além de ser uma maneira das pessoas se encantarem pela política, pois possuo experiência em gestão e não comungo com as velhas práticas das oligarquias locais.

EM TEMPO - Com base na sua experiência com a educação, quais mudanças devem ser realizadas em Manaus tendo em vista que a capital ainda está abaixo da média educacional do país?

Paulo Trindade  - No primeiro momento é importante garantir o cumprimento dos direitos de crianças e adolescentes assegurados pela Constituição Cidadã de 1988, e de maneira complementar pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) somado à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Os desafios relacionados à educação já eram gigantescos, a próxima gestão municipal terá que enfrentar também as consequências da pandemia, pois os estudantes interromperam suas atividades escolares. Se observarmos o orçamento de Prefeitura, poderemos perceber que boa parte foi destinado à educação, entretanto, este saldo não é suficiente para desempenhar o serviço com qualidade, nesse sentido é muito importante que a prefeitura afine um diálogo com a Câmara Municipal com intuito de ampliar cada vez mais os recursos. O município precisa retomar as metas do Plano Municipal de Educação (PME), a lei já está aprovada, contudo, as gestões anteriores preferiram atender os interesses dos grupos econômicos, que atuam dentro da Semed, em vez de atender os problemas da educação municipal. O PME já estabelece a ampliação de creches, implementação das escolas de tempo integral, combate à exploração do trabalho infantil, combate à exploração sexual infantil, valorização salarial dos professores e democratização de acesso e permanência dos estudantes nas escolas municipais. Porém nenhuma dessas metas foi cumprida nos últimos anos. Portanto, tenho ciência que o município deve promover acesso à educação de qualidade, gratuita para todos.  

Paulo Trindade defende que Manaus precisa retomar as metas do Plano Municipal de Educação
Paulo Trindade defende que Manaus precisa retomar as metas do Plano Municipal de Educação | Foto: Pedro Cacheado

EM TEMPO - O senhor defende bandeiras de combate ao racismo, homofobia e violência, como isso pode ser positivo para o desenvolvimento da capital, caso o senhor seja eleito?

Paulo Trindade - A minha pré-candidatura à prefeitura de Manaus já se tornou um marco para a política no Amazonas. Nos últimos anos, tem aumentado o índice de racismo e assédio na cidade, isso significa que as pessoas estão apresentando uma postura de denúncia a esse tipo de violência. Falo isso, pois entendo que tudo influência no bem-estar das pessoas. São inúmeras sequelas sofridas em decorrência da violência. Nessa semana, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AM), Marco Aurélio Choy, elogiou a iniciativa ao entender a necessidade de respeitar setores de invisibilidades em nossa sociedade. Entendemos que o combate ao racismo, machismo, LGBTransfobia e outras violências também deverão ser encaradas nos espaços de tomada de decisão. Tenho consciência e uma profunda gratidão pelas lutas das mulheres que possibilitaram abrir caminhos para que eu possa estar aqui, principalmente as mulheres indígenas, pretas, trans, por quem nutro profunda admiração. Sempre estive no front da defesa dos direitos civis e humanos, do combate à violência, contribuindo com as ações transformadoras sociais e estruturais dessa maioria inviabilizada. A educação e a cultura são dimensões imprescindíveis para o processo de conquistas civilizatórias em oposição ao ódio, assim, conseguiremos alcançar melhores índices de desenvolvimento humano em Manaus.

EM TEMPO - O senhor é o primeiro pré-candidato homossexual a disputar o processo eleitoral na capital. Porém, Manaus está entre as cidades que mais possuem apoiadores bolsonaristas isso pode resultar em uma alta rejeição do seu nome?

Paulo Trindade  - O governo federal tem realizado uma gestão de sucessiva retirada de direitos da classe trabalhadora, e somente aprofundou a crise econômica vivenciada pelo país, não cumprindo suas próprias promessas de campanha, além dos mais não deu respostas à crise sanitária que já vitimou mais de 118 mil pessoas pela Covid-19. Quando o atual presidente foi eleito, o Psol Amazonas ganhou em número de novas filiações, ou seja, cresce em Manaus a necessidade de oposição aos discursos e práticas da extrema direita. A Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) possuem competentes núcleos de estudo sobre gênero e diversidade humana, capaz de consolidar parcerias com a Prefeitura para qualificar a temática dos direitos humanos no serviço público. Essas pesquisas colaboram para elaboração e atualização de políticas públicas nos setores de educação, saúde, assistência social, cultura, trabalho e emprego.

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Esta cidade tem capacidade de proporcionar mais qualidade de vida e oportunidades para as pessoas que escolheram viver aqui "

Paulo Trindade, artista visual e pré-candidato a prefeito, Como Manaus pode se tornar uma capital desenvolvida

EM TEMPO - Antes de ser anunciado como pré-candidato o senhor não ocupava cargos políticos, a pouca experiência na área é um fator que preocupa o senhor na corrida eleitoral?

Paulo Trindade - Possuo 20 anos de atuação no setor cultural e na construção de políticas públicas e faço parte da geração de retomada do cinema amazonense. Desde jovem, me integrei a ações socioculturais e ambientais. Já trabalhei em diversos setores: indústria, cultura, comunicação, educação e gestão de projetos. Estou pesquisador na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS). Tive a honra em ser professor substituto da Faculdade de Artes (FAARTES/UFAM), e professor no Centro de Educação a Distância (CED/UFAM)/ Universidade Aberta do Brasil (UAB). Atualmente estou Dirigente Municipal do PSOL Manaus. Ao longo na minha vida tenho colaborado com movimentos ligados à cultura, LGBTI+, educação, mulheres, negritude e indígenas. Além de Manaus atuei em projetos e ações nas capitais da região Norte: Belém (PA), Macapá (AP), Porto Velho (RO), Boa Vista (RR), Rio Branco (AC), além de cidades das regiões administrativas do Amazonas no Madeira, Médio Amazonas, Baixo-Amazonas, Rio Negro-Solimões e Alto Rio Negro. Esse leque de experiências me credencia para ocupar o cargo de prefeito da capital do Amazonas.

EM TEMPO - O Psol busca firmar uma frente de esquerda para as eleições municipais, como você avalia esse objetivo da sigla?

Paulo Trindade - A conjuntura política do país tem modificado seu panorama de forma rápida e dinâmica. No entanto, o elemento da escalada da extrema-direita tem se mantido constante. Isso impõe ao Psol a tarefa fundamental de efetivar uma tática eleitoral que possa apresentar um projeto de esquerda viável e autêntico para Manaus. Analisando a conjuntura, entendemos que o Psol tem papel fundamental na articulação de uma frente de esquerda que possa enfrentar os grupos de direita que irão concorrer à Prefeitura de Manaus. Por isso, defendemos a articulação de uma composição que envolva PCB, PSTU, PT, PSB, Rede e PC do B. Ou seja, tornar real e efetiva uma estratégia eleitoral capaz de encantar a política após anos de abandono da gestão municipal. Estamos em diálogo constante com o PT, Rede e PC do B para fecharmos essa frente eleitoral para esse pleito de 2020.

EM TEMPO - Ao ser anunciado como pré-candidato, muitos eleitores avaliaram a sua posição como uma ferramenta de “enganar” o eleitorado, pois caso eleito o poder da cidade ficaria em mãos desconhecidas. Como o senhor avalia essa especulação?

Paulo Trindade - Tenho uma vida dedicada aos estudos, gestão pública e movimentos sociais, logo estou qualificado e preparado para lidar com todas as necessidades políticas estruturais de nossa cidade. É natural que parte da população tenha curiosidade em conhecer um pouco mais sobre a minha trajetória. Eu nasci aqui e tenho uma relação de amor com este lugar. Manaus já foi considerada uma das capitais mais contemporâneas em outros momentos da nossa história, sem falar de sua referência na conjuntura internacional. Vivemos em uma cidade rica, todavia essa riqueza precisa ser melhor distribuída. Esta cidade tem capacidade de proporcionar mais qualidade de vida e oportunidades para as pessoas que escolheram viver aqui. É uma necessidade da nossa população acessar políticas públicas de qualidade com garantia dos seus direitos. E é isso que eu quero caso seja eleito prefeito de Manaus.

Pelo amor a capital, Paulo deseja torna-lá mais justa para os amazonenses
Pelo amor a capital, Paulo deseja torna-lá mais justa para os amazonenses | Foto: Pedro Cacheado

EM TEMPO - A segurança pública é um dos debates mais complexos para Manaus. Pois muitos defendem o armamento a guarda-municipal, quais as medidas defendidas pelo senhor para a segurança da população?

Paulo Trindade - Primeiramente é importante citar que o PSOL possui uma agenda robusta em relação à segurança pública. Vale lembrar que Marielle Franco (PSOL-RJ), vereadora assassinada, relacionava a temática de segurança pública com a de direitos humanos através de seus estudos e intervenções políticas.  É importante citar, que a competência constitucional para a segurança pública está sob a responsabilidade dos Estados. No que se refere à Manaus, a Guarda Civil Metropolitana possui como principal objetivo a proteção do patrimônio público. Entretanto, temos percebido um processo cada vez maior no sentido de se tornar uma polícia ostensiva, quase um braço da Polícia Militar do Amazonas (PM-AM). Nós entendemos que o Governo do Estado do Amazonas deve manter a sua competência e, assim, evitar a sobrecarga das trabalhadoras e trabalhadores da Guarda Civil Metropolitana e não realizar uma espécie de desvio de função desses profissionais, pois estarão realizando dois serviços para receber o de um, isto é, não há outra solução que um trabalho conjunto entre Município e Estado, principalmente em contribuições referentes à produção de inteligência para esse setor e buscar construir uma segurança pública mais preventiva.

EM TEMPO - A taxa de desemprego em Manaus ainda é alta, principalmente em um cenário de pandemia. Caso seja eleito, como pretende reverter essa situação?

Paulo Trindade - Nossa proposta é de apresentar uma alternativa que considera a efetividade da política da vida real em uma cidade rica e miserável simultaneamente. Além disso, otimizar os setores primários, secundários e terciários, inclusive fortalecendo a região metropolitana que possui uma larga produção no setor primário. Outro ponto, é fortalecimento da agricultura familiar, visando combate a fome e a miséria. E finalmente, estimular postos de trabalho no setor industrial em especial na fabricação de produtos regionais. Articulados entre as esferas municipais, estaduais e federais. Manaus representa uma “cidade estado” que concentra 90% da pujança econômica e comercial do Estado do Amazonas, possuindo o oitavo maior PIB do Brasil segundo IBGE (2019). Articular todo esse potencial da nossa cidade é possível para reverter as dificuldades intensificadas nesse momento de pandemia com altas taxas de desemprego. É inadmissível perceber a gestão pública omissa às pessoas com cartazes de pedido de emprego nos principais cruzamentos da Av. Constantino Nery ou da Av. Djalma Batista. Faço parte do setor Cultural, onde não só a Covid-19, mas a necro política, alcançaram e massacraram este setor. Vale lembrar que não existe mais Ministério da Cultura e muito menos Ministério do Trabalho nas esferas do Governo Federal. Não vivemos o novo normal e precisamos perceber a dimensão simbólica, econômica e social que a cultura representa e deve ter no centro do planejamento para o desenvolvimento da cidade.

EM TEMPO - O senhor já teve conversas com pré-candidatos da esquerda, incluindo o deputado federal, José Ricardo. Você deve se tornar vice de outros nomes ou já existe um nome definido para o seu vice?

Paulo Trindade - Estou pré-candidato à prefeitura de Manaus. Ao longo da semana, o Psol reuniu com o Partido dos Trabalhadores (PT), Rede Sustentabilidade (REDE) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) dando continuidade à busca da consolidação da Frente de Esquerda. Durante os encontros, o Psol apresentou o nosso compromisso histórico com as bandeiras de luta da esquerda, como: mulheres, negritude, indígenas, LGBTI+, PCD, trabalhadoras e trabalhadores. Ressaltamos também, as condições em que a população de Manaus se encontra, sofrendo com o abandono e o descaso com os serviços públicos básicos. A escolha da vice candidatura será realizada pelos partidos que compõem a Frente da Esquerda. Até a primeira quinzena de setembro serão realizadas as convenções para aprovação dos nomes elencados. O Psol tem buscado o diálogo com os demais partidos, no intuito de construir uma Frente de Esquerda forte e bem estruturada para disputar as Eleições 2020.

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