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'Sem uma revolução, nada vai mudar', diz Gilberto Vasconcelos

Depois de diversas eleições sem apresentar um forte candidato, PSTU escolhe o professor Gilberto Vasconcelos para a disputa de 2020

É a primeira vez que Gilberto Vasconcelos entra numa disputa política pela prefeitura
É a primeira vez que Gilberto Vasconcelos entra numa disputa política pela prefeitura | Foto: Lucas Silva

Manaus - Presidente do diretório estadual do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), no Amazonas, professor Gilberto Vasconcelos é o nome do partido em Manaus, na corrida pela cadeira hoje ocupada por Arthur Vigílio Neto (PSDB). Aos 53 anos, é a primeira vez que o professor concorre ao posto de chefe do Poder Executivo municipal. No entanto, ele milita politicamente desde muito cedo. Gilberto diz que a decisão de disputar à Prefeitura não é individual, mas sim uma deliberação coletiva e seu partido não pretende coligar com uma frente de esquerda.

No Distrito Industrial, ele conta que travou várias lutas por melhores condições de trabalho e salário, além de ter lutado contra a privatização dos Correios, quando estava no serviço público federal. Gilberto também fez parte do Centro Acadêmico de Letras na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e, hoje, participa da direção da CSP-Conlutas/AM, onde afirma ter contato com diversos segmentos da classe trabalhadora. Para ele, nenhum candidato a prefeito irá solucionar os problemas de Manaus, sem romper com a lógica e o modus operandi existentes. Leia mais na entrevista exclusiva ao EM TEMPO:

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Nós afirmamos que sem uma revolução nada vai mudar de verdade. Seremos a opção para quem quiser escolher um partido e um programa político e não precisar tapar o nariz. Temos orgulho da história do PSTU "

Gilberto Vasconcelos, professor e pré-candidato a prefeito de Manaus, sobre a sua decisão de entrar na disputa

EM TEMPO - Historicamente, o senhor não conta com uma trajetória política com mandato público. O que lhe fez tomar a decisão de disputar o cargo de prefeito de Manaus?

Gilberto Vasconcelos - Várias vezes tive mandato público nos organismos da classe trabalhadora. Como exemplo, faço parte da direção da CSP-Conlutas/AM. Mas nunca tive mandato parlamentar. A decisão pela candidatura à prefeitura de Manaus não é individual. Por um lado, é fruto das discussões internas do PSTU e por outro, é uma exigência da realidade, tendo em vista que todos os outros partidos vão prometer soluções para todos os problemas da sociedade sem romper com a lógica e o modus operandi existentes. Seremos a opção para quem quiser escolher um partido e um programa político e não precisar tapar o nariz. Temos orgulho da história do PSTU.

EM TEMPO - Por ser professor, o senhor conhece de perto o sistema educacional na capital amazonense. O que o senhor pretende fazer pela educação em Manaus?

Gilberto Vasconcelos - O sistema educacional do município vem sendo destruído por dentro com terceirizações e outras medidas. Das quase 500 escolas, cerca de 170 são em prédios alugados. A manutenção é terceirizada, assim como os serviços gerais, as cantinas, as reprografias, a vigilância e outras coisas. É impossível transformar a educação completamente sem levar em conta as inter-relações com as esferas estadual e federal. No entanto, muitas melhorias podem ser feitas.

Citarei apenas algumas: na infraestrutura, a construção progressiva de complexos escolares abrangendo creches, ensino infantil e fundamental em um mesmo terreno, abandonado a lógica de “escola-prisão” e dos prédios alugados; no aspecto administrativo: aumentar a autonomia das unidades escolares, escolha de gestores pela comunidade, fim das privatizações, concurso para as diversas áreas; no aspecto didático: fim da ingerência dos institutos privados, transformação progressiva das escolas em tempo integral, formação continuada latu senso e stricto sensu.

O professor diz não ver problema no fato histórico de o PSTU nunca ter eleito um representante no Poder Legislativo, por exemplo
O professor diz não ver problema no fato histórico de o PSTU nunca ter eleito um representante no Poder Legislativo, por exemplo | Foto: Lucas Silva

EM TEMPO - O senhor é presidente do PSTU, que nunca conseguiu eleger um representante para a casa legislativa, por exemplo. O que lhe faz acreditar que pode ser eleito ao lançar sua candidatura pelo PSTU?

Gilberto Vasconcelos - Nosso programa político (projeto) é o único que apresenta uma possibilidade verdadeira de mudança, o único que fala a verdade para todos/as. Esta já é uma boa credencial. Não ter eleito alguém para o legislativo não é um problema tão sério, afinal temos um governador que também não passou pela casa legislativa. Ele era animador de programa televisivo. Nossa expectativa é que possamos minimizar as dificuldades de propaganda e acessar a classe trabalhadora e a juventude para apresentar o PSTU como alternativa.

EM TEMPO - Quais as principais pautas defendidas pelo PSTU e quais o senhor acredita serem as mais pertinentes dentro do cenário político manauara?

Gilberto Vasconcelos - Diante da crise econômica inerente ao sistema capitalista em decomposição, defendemos um programa emergencial para geração de emprego e renda, começando com um plano de obras públicas e de moradias populares; a ampliação e melhoria do sistema de saúde básica, isenção de impostos e de tarifas para desempregados/as, ampliação e melhoria do transporte público, programas educativos em defesa das minorias oprimidas, construção de espaços públicos de lazer.

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Não discutimos com o PT e nem com o PCdoB. Tanto nós quanto eles não tivemos interesse em coligar. O PT já governou o país por mais de 12 anos e demonstrou que não serve para a classe trabalhadora, pois defende um programa falido de conciliação com a burguesia "

Gilberto Vasconcelos, professor e pré-candidato a prefeito de Manaus, sobre o que pensa da frente de esquerda

EM TEMPO - Alguns representantes da esquerda, como Psol, PT e PCdoB, em Manaus, estão buscando consolidar uma frente de esquerda para as eleições deste ano. O PSTU pretende dialogar com esses partidos visando a união?

Gilberto Vasconcelos - Dialogamos com o PSOL e o PCB, mas não avançamos para coligação. Não discutimos com o PT e nem com o PCdoB. Tanto nós quanto eles não tivemos interesse em coligar. O PT já governou o país por mais de 12 anos e demonstrou que não serve para a classe trabalhadora, pois defende um programa falido de conciliação com a burguesia, e nessa relação totalmente desigual, quem sai perdendo são os/as trabalhadores/as. O PCdoB foi braço direito do PT nesses anos todos, sufocando as mobilizações da classe trabalhadora para garantir os interesses do governo. O PSOL se inclina para coligar com o PT. Isso tornaria impossível uma coligação conosco.

EM TEMPO - Em 2014, o senhor concorreu como vice do candidato Herbert Amazonas ao Governo do Amazonas. Nessas eleições, o senhor aceitaria se tornar vice de alguns dos candidatos à Prefeitura da Esquerda, como por exemplo, o José Ricardo (PT)?

Gilberto Vasconcelos - Primeiramente, é importante dizer que em todo o país estamos trabalhando pela mais ampla unidade de ação com todas as organizações e partidos de esquerda para barrar as reformas econômicas, as privatizações e as retiradas de direitos que vêm se ampliando no governo Bolsonaro, mas também pelos governos estaduais e municipais, inclusive vários governos de esquerda. Porém, Frente ampla para governar é diferente das mobilizações, tem a ver com discussão programática. E não temos acordo programático com PT, nem PCdoB e com uma grande parte do PSOL. Não se trata de uma questão pessoal, não tenho nenhum problema com o Zé Ricardo. Mas nós defendemos um programa que seja capaz de responder realmente às necessidades da maioria da população, não apenas minimizar os problemas, mas de ir às raízes, às causas que fazem, por exemplo, com que grande parte da população não tenha moradia digna, emprego, enfim, uma vida digna!

Gilberto diz que a riqueza de Manaus não reflete na vida da maioria das pessoas
Gilberto diz que a riqueza de Manaus não reflete na vida da maioria das pessoas | Foto: Lucas Silva

EM TEMPO - Ainda nesse ano de 2020, o senhor entrou com uma ação popular na Justiça do Amazonas para que as redes privadas de saúde fossem estatizadas, por conta da pandemia da Covid-19. O que o senhor pretende fazer pela questão da saúde em Manaus, em um cenário pós-pandemia?

Gilberto Vasconcelos - Cabe ao município a atenção básica, o atendimento primário. Por isso, o que deve ser feito urgentemente é reconfigurar as unidades básicas de saúde, dotá-las de equipes multidisciplinares com profissionais concursados, insumos adequados e trabalhar efetivamente o acompanhamento regular nas residências (prevenção, educação, acompanhamento, etc) e nas unidades os demais atendimentos básicos. Se isso existisse durante a pandemia muitos/as hipertensos, diabéticos e outros comórbidos não teriam ido se contaminar com covid-19 nas unidades de saúde. Outra vantagem de se ter um sistema preventivo funcionando adequadamente é o desaparecimento da necessidade de e fazer campanhas em determinadas épocas do ano.

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O próximo prefeito precisa apresentar um programa que enfrente de fato o problema do desemprego e da renda para a população, reestruturar a saúde, reestruturar e elevar a qualidade da educação pública, tornar o sistema de transporte público digno da população "

Gilberto Vasconcelos, professor e pré-candidato a prefeito de Manaus, sobre os desafios da cidade

EM TEMPO - Quais o senhor acredita serem os maiores desafios do próximo prefeito de Manaus? O senhor está pronto para vencê-los?

Gilberto Vasconcelos - Manaus possui mais de 2 milhões de habitantes, orçamento acima de R$ 6 bilhões, só a receita própria está acima de 1 bilhão de reais e, segundo o IBGE, é o oitavo Produto Interno Bruto entre as capitais brasileiras. Isso significa que Manaus tem uma produção de riqueza acima 70 bilhões de reais. No entanto, toda essa riqueza não se reflete na vida da maioria das pessoas. O que nós temos é um imenso abismo de desigualdade, onde uma ínfima minoria usufrui de quase a totalidade do que é produzido aqui.

Então, o próximo prefeito precisa apresentar um programa que enfrente de fato o problema do desemprego e da renda para a população, reestruturar a saúde, reestruturar e elevar a qualidade da educação pública, tornar o sistema de transporte público digno da população, transformar Manaus numa cidade limpa, despoluir os igarapés, melhorar o sistema viário da cidade e acabar com o déficit habitacional e fundiário.

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