Com a palavra


'A mulher é a grande vítima da corrupção eleitoral', diz Beth Azize

A ex-juíza afirmou que a sub-representação da mulher na política é influenciada pela corrupção nos partidos políticos

Azize destacou ainda sua luta e militância durante o período de regime militar, quando era acadêmica de Direito
Azize destacou ainda sua luta e militância durante o período de regime militar, quando era acadêmica de Direito | Foto: Divulgação

Manaus - Ativista política desde a faculdade, como presidente do Diretório Acadêmico do curso de Direito da Universidade Federal do Amazonas, Elizabeth Azize possui uma trajetória marcante na política amazonense. Foi a primeira juíza concursada da região Norte, com 23 anos. Após quase 10 anos de magistratura,  pediu exoneração do cargo e se filiou ao movimento jovem e da mulher no Partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Em 1976, foi eleita vereadora e líder do partido na Câmara Municipal de Manaus (CMM). Dois anos depois, se elegeu ao cargo de deputada estadual e continuou líder do partido na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam). Em 1983, foi eleita presidente da Aleam, sendo a primeira mulher neste cargo. Azize ainda ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados entre 1990 a 1995, quando finalizou suas atividades políticas.

Ao falar sobre sua carreira e analisar o cenário político atual, Azize destacou que por mais que tenha vontade, não se vê exercendo um cargo político novamente. Além disso, afirmou que o próximo gestor a dirigir a Prefeitura de Manaus deve ter competência para atuar e atender as demandas que a cidade possui.

EM TEMPO: Durante o período de ditadura militar, quais desafios a senhora enfrentou?

Beth Azize: Tive muitos problemas com o regime militar. Além da tribuna, escrevia crônicas políticas todos os dias, publicadas no jornal A Crítica. Inúmeras vezes fui intimada pelo comando Militar da Amazônia. Tiravam minhas roupas e me fotografavam. Melava meus dedos das mãos e dos pés e à noite me liberavam. Resisti bravamente à entrada de militares na Faculdade de Direito. Sentei na escadaria, abri toda a minha ampla saia e o general pisou suas botas na minha saia e de outra colega.

EM TEMPO: Uma das principais atuações da sua carreira foi participar do processo constituinte, na década de 80. Como foi esse momento?

Beth Azize: Fiquei quase 10 anos da Magistratura em Comarcas do Interior e na Capital. Vivi o abandono do povo e sua vida de miséria e nada podia fazer como Juíza. A Constituição proibia. A Assembleia Nacional Constituinte foi o maior feito, depois que a Nação voltou à democracia. Foi um templo que reuniu no Congresso toda a sociedade brasileira e todas as minorias. Morei no Congresso durante todo o seu processo. Era a Nação buscando seus direitos violados. Uma grande feira de decisões que abrigou todos os segmentos. Tudo fora perdido no regime militar. Consegui introduzir no texto a garantia da Zona Franca, que o PT era contra. Tive que conversar muito e fiz muitas reuniões com os petistas contrários à ZF para salvar a nossa economia. Introduzi a aposentadoria antecipada da mulher e fui linha de frente da bancada feminina para introduzir os direitos específicos da Mulher.

EM TEMPO: É notável que a política está desgastada no Amazonas, causando desgosto em muitos eleitores. É possível reverter esse cenário em um futuro próximo, especialmente com o resultado destas eleições?

Beth Azize: Depois da Constituinte e criação de partidos novos, começou a degradação da política brasileira e os agentes da política se transformaram em profissionais do enriquecimento ilícito e com mordomias inomináveis. Uma pessoa honrada, competente e de bons princípios ideológicos, hoje, foge do exercício da política. Com as eleições de hoje, anima a hipótese de ingresso de melhores quadros na política local, embora seja uma hipótese duvidosa. O ser humano político faz profissão como agente e as vantagens financeiras e mordomias que recebem atrai muito mais aventureiros a cargos eletivos, sem nenhum saber da ciência política.

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Uma pessoa honrada, competente e de bons princípios ideológicos, hoje, foge do exercício da politica "

Ex-deputada Elizabeth Azize,, sobre a política atual

EM TEMPO: Além da senhora, nenhuma outra mulher conseguiu chegar à presidência da Casa Legislativa. Na sua visão, qual o principal obstáculo para que isso tenha acontecido?

Beth Azize: Até hoje fui a única mulher chefe do Poder Legislativo. E também fui a única mulher a ocupar o cargo de Governadora, em exercício, por força da ausência do governador. Foi um acontecimento que fez a cidade vibrar. Como chefe do Poder Legislativo e por força da Constituição Estadual dei posse ao governo eleito Gilberto Mestrinho, na Praça do Congresso. Foi um fato que marcou minha vida. Nesse momento não havia, eleição para Prefeito. A Assembleia elegia o Prefeito e dava posse a ele. Como presidente da Assembleia não participei da eleição, porque a presidente só vota em caso.de empate. Como não houve empate não votei.

EM TEMPO:  O que falta para que as mulheres consigam suprir a sub-representação na política?

Beth Azize: A mulher é a grande vítima da corrupção eleitoral. Essa corrupção começa nos partidos políticos, que praticam vícios e crimes eleitorais, usando a mulher como a principal vítima. Os partidos usam a mulher como quociente exigido por lei, para receberem mais verbas para o fundo partidário e eleitoral. Uma excrecência política votada pelo Congresso atual que alcança um montante de 4 bilhões de reais ou mais.

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O prefeito a ser eleito há de ter muita competência e vivência com a coisa pública. Aventureiros são como mercenários em guerra "

Ex-deputada, Elizabeth Azize,, sobre pleito municipal deste ano

EM TEMPO: Por que não se candidatar a um dos cargos neste pleito?

Beth Azize: Não consigo conviver com agentes políticos que negociam seus mandatos e muito menos com partidos políticos farsantes que enganam a opinião pública invocando ideologias de moda e de farsa. Jovens me procuraram para tirar fotos para suas campanhas. Jovens honestos e de bom caráter. Tenho pena deles. Minha mente pede para voltar a legislar a nível estadual, mas vai ser preciso fazer uma lavagem para aceitar o ambiente político atual.

EM TEMPO: Há algum dos candidatos a prefeito que, na sua opinião, possa atender a população com excelência?

Beth Azize: O prefeito a ser eleito há de ter muita competência e vivência com a coisa pública. Aventureiros são como mercenários em guerra. Não confio em urnas eletrônicas. Os digitadores têm o dever legal de fazer contagem de votos à luz do dia e não nos porões do Tribunal Eleitoral.

Um dos marcos de sua carreira foi a participação na Constituinte, para a criação da Constituição de 1988
Um dos marcos de sua carreira foi a participação na Constituinte, para a criação da Constituição de 1988 | Foto: Divulgação

EM TEMPO: A senhora acredita que os movimentos populares atualmente, não agem com a mesma força quemagiam anos atrás?

Beth Azize: Os movimentos populares após a Constituinte não ajudaram em nada. Com a aparição de partidos sem tradição, esses se tornaram donos dos movimentos sociais. No entanto esses partidos só visavam conquista de mandatos e ganho de votos. Esse quadro continua até hoje. Com a derrota desses partidos os governantes de todas as esferas têm obrigação de fazer, com honestidade, políticas diretas para a população mais pobre tenha algum ganho de vida.

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