Fonte: OpenWeather

    Voto


    Defendido por Bolsonaro, voto impresso não deve ser retomado no país

    Apesar de ser uma das principais pautas defendidas pelo presidente, diversos fatores impedem que o sistema seja implantado em um futuro próximo

     

    As urnas eletrônicas ainda representam um sistema de voto único no mundo todo, seguro e transparente
    As urnas eletrônicas ainda representam um sistema de voto único no mundo todo, seguro e transparente | Foto: Alexandre Sanches

    Manaus - Desde as eleições gerais de 2018 reascendeu-se a discussão sobre o retorno do voto impresso no Brasil, especialmente após especulações de insegurança do sistema eletrônico de voto. A obrigatoriedade do voto impresso, conforme defendido pelo presidente da República, é entendida por especialistas como um modo de reafirmar a segurança da veracidade do resultado das eleições. Mas, parte dos eleitores manauaras dividem opiniões sobre a implementação do sistema. 

    A confusão relacionada ao tema é constante, especialmente pela falta de clareza sobre como é abordado. Caso fosse reinstalado, o voto impresso seria a disponibilização de um comprovante com o resultado do voto do eleitor, que ficaria à disposição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A professora Eliane Nascimento, 37, acredita que o voto eletrônico é uma das formas mais seguras do povo brasileiro de exercer seu direito de voto democrático.

    "Tendo a tecnologia para sistematizar tudo eletronicamente, de forma rápida e segura, como sabemos que é feito, não vejo motivos para a implementação desse modelo. Acredito na eficiência da digitalização do voto e não vejo necessidades desse tipo de questionamento", defendeu.

    Favorável ao sistema de voto impresso, o advogado Emerson Santos, 42, afirmou que é possível que seja implementado um modelo eficiente. "Com o voto impresso seria mais fácil de fiscalizar, talvez teriam problemas no início, em relação à auditoria, mas nada que impeça a eficácia do sistema, especialmente a longo prazo", afirmou.

    Uma pesquisa realizada pelo EM TEMPO, através das redes sociais, mostrou que de um total de 70 eleitores manauaras, 65% são contra o voto impresso e 34% são a favor. 

    Apoio presidencial

    A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 135/2019, de autoria da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), em tramitação no Congresso, segue os preceitos defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e prevê que seja obrigatória a expedição de cédulas físicas, uma espécie de comprovante de voto das urnas eletrônicas, conferíveis pelo eleitor, a serem depositadas em urnas indevassáveis e, a partir disso, caso um candidato contestasse o resultado das eleições, as cédulas poderiam ser conferidas em uma auditoria.

    Segundo o presidente, a expectativa é de que o sistema possa ser implantado já para as eleições presidenciais de 2022. "Queremos mudar o sistema eleitoral a partir de 2022 com a volta do voto impresso", disse Bolsonaro, que relacionou ao recente caso das eleições dos Estados Unidos, alegando que a falta de segurança no processo de votação pode gerar uma grande comoção pública. "Se tivermos voto eletrônico em 2022, vai ser a mesma coisa ou vamos ter problema pior que nos Estados Unidos", defendeu.

    Para o cientista político Helso Ribeiro, o modelo de voto com a impressão de comprovante representa um ataque à democracia brasileira, além de ocasionar outras questões importantes, como o alto custo financeiro para a modernização das urnas eletrônicas e a impressão desnecessária de papeis.

    "Eu não vejo a possibilidade do Congresso aprovar a pessoa levar o comprovante consigo, isso acabaria o sigilo do voto. Receber o comprovante de voto vai encarecer muito, vai ter que mudar todas as máquinas ou realizar adaptações. Num avanço democrático eu diria que isso pode ocorrer, mas tem um outro questionamento aí, esse papel que sai da urna, caso houvesse questionamentos da legalidade da eleição, eles seriam lidos. Acho que isso seria um ataque à democracia", afirmou.

    O também cientista político Jack Serafim, defendeu a segurança e a eficácia das urnas eletrônicas que compõem o sistema democrático brasileiro. O especialista afirmou que investimentos em melhorias, que assegurem a segurança e a transparência da realização do voto, são importantes para a composição de qualquer modelo.

    "O que não pode acontecer é o que está acontecendo, por exemplo, nos Estados Unidos, em que tenta-se questionar, de qualquer forma, as eleições, e é precioso que a gente invista no máximo de transparência e segurança possíveis. Isso faz parte do debate, o importante é que a nossa democracia está consolidada, o sistema de votação no Brasil é uma referência, é extremamente seguro, a forma como o Tribunal Superior Eleitoral trata isso, de forma transparente, chamando técnicos, pondo à prova esse sistema, mostra o compromisso do Brasil em ter um sistema de votação seguro, como tem sido comprovado há várias eleições", ressaltou.

    Além disso, o cientista político afirmou que não acredita que o sistema, tão defendido por parlamentares apoiadores do governo, possa ser implementado em um futuro próximo, como nas eleições de 2022. O adiamento da decisão, pode ocorrer principalmente em decorrência dos gastos ocasionados pela pandemia, considerando que para pôr a proposta em prática seriam necessário um alto investimento.

    "Seria mais uma camada de segurança da votação nas urnas eletrônicas, conforme defendem aqueles que querem. É muito mais aquela geração que não confia muito nessa coisa dos dados, de internet, de eletrônica e que só acreditam vendo. Não vejo um problema muito grande nisso, claro que esse é o tipo de procedimento que pode fazer com que a eleição demore um pouco mais, porque não deixa de ser mais um passo dentro do processo de votação. Não acredito que até 2022 isso possa ser implementado. Como o Brasil está enfrentando a questão da Covid e existem diversos gastos, para fazer um investimento nesse sentido, de adaptar as urnas para esse tipo de voto, seria um custo muito alto", defendeu Jack Serafim.

    Confiança nas urnas

    De acordo com uma pesquisa da Datafolha, realizada entre os dias 8 e 10 de dezembro do ano passado, a segurança da urna eletrônica usada nas eleições divide a opinião dos brasileiros. Um brasileiro adulto em cada três, representando um percentual de 33%, confia muito no sistema de urnas eletrônicas, e 36% confiam um pouco. Uma parcela de 29%, porém, não confia, e 2% não opinaram. O debate acompanha o questionamento da obrigatoriedade de voto. Ainda de acordo com a pesquisa, 56% dos brasileiros é contra o voto obrigatório que hoje vigora no país, e 41% são a favor, com 2% indiferentes ou sem opinião sobre o assunto. 

    Leia Mais:

    Sem indícios de fraude, Bolsonaro volta a questionar urnas eletrônicas

    'Brasil precisa de apuração que não deixe dúvidas', diz Bolsonaro

    Bolsonaro vota e defende células de papel nas próximas eleições