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    Inauguração


    Em meio a críticas, Bolsonaro inaugura sistema de energia no AM

    Sem máscara, o presidente foi recepcionado por diversos apoiadores sob gritos de "mito!', e destacou a importância do Exército Brasileiro na proteção da região

     

    Na ocasião, o chefe de estado inaugurou um sistema de energia fotovoltaica e uma ponte de madeira sobre o Igarapé Rodrigo Cibele
    Na ocasião, o chefe de estado inaugurou um sistema de energia fotovoltaica e uma ponte de madeira sobre o Igarapé Rodrigo Cibele | Foto: Divulgação

    São Gabriel da Cachoeira - Um mês após receber o título de Cidadão Amazonense pela Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visitou, nesta quinta-feira (27), o município de São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas. A 850 quilômetros de Manaus, a localidade é acessível apenas por meio de barco ou avião, e abriga uma vasta maioria de habitantes indígenas de 23 etnias diferentes.

    Na ocasião, o chefe de estado inaugurou um sistema de energia fotovoltaica e uma ponte de madeira sobre o Igarapé Rodrigo Cibele, que liga São Gabriel da Cachoeira à Comunidade Indígena Balaio, no quilômetro 91 da BR-317. A obra possui 18 metros de comprimento, e foi construída pelo Exército. 

    A visita contou ainda com a presença de autoridades militares como o Ministro da Defesa, general Walter Braga Neto, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, e o comandante Militar da Amazônia, general Estevam Calls Theophilo Gaspar de Oliveira. 

    Sem máscara, o presidente foi recepcionado por diversos apoiadores sob gritos de "mito!', e destacou a importância do Exército Brasileiro na proteção da região, situada a algumas dezenas de quilômetros de jazidas de minérios nunca exploradas. 

    "Ninguém pode acusar o atual presidente da República de ser uma pessoa não democrática, que não respeita as leis e não aja dentro da instituição. Tenho a certeza de que voltaremos à normalidade brevemente. Vocês militares são respeitados e tem uma importância enorme no destino do Brasil, e só podemos dizer que essa área é nossa pela presença de vocês. É um enorme sacrifício viver longe dos grandes centros (urbanos), mas todo mundo tem como dar um pouco de si pelo país", declarou, em meio a manifestações de apoio.  

    O presidente que, desde a posse defende a exploração de terras indígenas para aproveitamento econômico, citou a efetividade do governo federal ao longo dos primeiros anos da gestão.

    "Estamos aqui na área mais rica do mundo, e os interesses são muitos sobre essa região. O inimigo tem paciência, tem estratégia e um objetivo. Um governo que tem dois anos e quatro meses, sem nenhuma comprovação ou ato de corrupção, não é uma virtude, e sim obrigação. Mas para quem se recorda de poucos anos atrás, não era isso que acontecia no Brasil. Devo isso, em grande parte, às pessoas que me cercam em Brasília – meus 22 ministros, numa quantidade de militares maior do que a existente no período entre 1964 e 1985", completou.

    Repercussão entre parlamentares

    Para parte dos representantes do Amazonas na Câmara, o apoio ao governo federal encontra-se impraticável. É o caso do deputado federal José Ricardo (PT), que considera a visita de Bolsonaro ao Amazonas como mera formalidade.

      "Diria que isso é muito pouco diante da necessidade do estado do Amazonas. Aqui, o governo federal pouco fez de investimentos. Pelo contrário, houve redução em diversos recursos. Há cortes na área da pesquisa e, principalmente, ameaças à Zona Franca de Manaus. Alíquotas estão sendo reduzidas no imposto de importação de produtos fabricados no Amazonas, e isso deixa de gerar emprego aqui. É um governo que não olha e pouco contribuiu com a região amazônica. Ano a ano, o estado fica mais pobre, o desemprego aumenta e o povo clama por mudanças", enfatizou o petista.  

    Consoante ao colega de bancada, o deputado federal Marcelo Ramos (PL) argumenta que a falta de investimentos do governo federal ao estado do Amazonas gera contradições.

    “Hoje, a aprovação do presidente já está muito aquém da que ele teve nas últimas eleições. Estamos sofrendo muitos ataques à Zona Franca de Manaus, e não vejo medidas efetivas para investimento em bioeconomia, tampouco benefícios econômicos com o atual governo. A visita do presidente não está acompanhada de um plano de investimento no estado. É uma visita, e nada mais”, afirmou o parlamentar que, na última segunda-feira (24), não descartou seu nome para candidatura às eleições presidenciais de 2022.

    Apesar das opiniões negativas, alguns representantes da bancada do Amazonas na Câmara persistem em alianças ao movimento bolsonarista. É o caso do deputado federal delegado Pablo (PSL) que, desde o início de sua campanha, apresentou discurso político semelhante ao do atual presidente.

    "Os benefícios econômicos podem ser vistos na quantidade expressiva de repasses que a União fez ao Estado do Amazonas e seus municípios, inclusive para o combate da pandemia. A presença do presidente da República no extremo Noroeste do Brasil destaca a importância que o governo confere ao povo do Amazonas", declarou o ex-policial federal.

    Em janeiro deste ano, o parlamentar encaminhou ofício ao presidente da República solicitando intervenção federal no Amazonas. A ação, em nome da sigla partidária, se deu em razão do colapso de saúde em Manaus, quando diversos pacientes faleceram por asfixia,  devido à falta de oxigênio nos hospitais.

    Em depoimento à CPI da Covid, ainda no dia 20 deste mês, o ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que a intervenção em questão não foi feita pois Bolsonaro teria chegado à conclusão de que o governo do estado contaria com condições de lidar com a colapso de saúde.

    Análise política

    Eleito presidente em 2018, Bolsonaro contou com um alto índice de aprovação por parte de habitantes do Amazonas, à época. Para o cientista político Carlos Santiago, no entanto, a popularidade do chefe de estado vem apresentando uma baixa na região ao longo dos últimos meses.

    "No Amazonas, Bolsonaro sofreu desgaste por conta da falta de atuação na crise de oxigênio em Manaus, bem como pelas recentes ameaças ao modelo Zona Franca de Manaus, em suas redes sociais. Com as eleições se aproximando, o presidente está trabalhando em sua campanha para reeleição, circulando pelo país e promovendo atos públicos. Vejo o comportamento, ao mesmo tempo, como uma estratégia para mudar o foco da mídia, que tem dado destaque negativo à sua gestão", explanou Santiago.

    Nas últimas semanas, o presidente também vem sofrido duras críticas entre senadores e deputados, principalmente por conta das atividades da Comissão Parlamentar de Inquérito da pandemia de Covid-19, que investigam a atuação da União, estados e municípios no combate à crise sanitária que resultou na morte de 450 mil brasileiros.

    Nesta quarta-feira (26), o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentou um requerimento para a convocação do presidente da República, na condição de testemunha, que foi negado pelo presidente da Comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM). Na mesma sessão, a comissão aprovou a re-convocação do ministro da Saúde, Roberto Queiroga, e o antecessor, Eduardo Pazuello para novos depoimentos.

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