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    Com a Palavra


    'É necessário convencer as pessoas a se vacinarem', diz Marcus Lacerda

    O médico foi responsável por conduzir o Clorocovid, que é um estudo pioneiro no país que concluiu que uso de cloroquina em pacientes infectados com coronavírus seria ineficaz e até mesmo letal

     

    Em entrevista ao EM TEMPO, o médico se posicionou com relação à declaração dos depoentes da CPI
    Em entrevista ao EM TEMPO, o médico se posicionou com relação à declaração dos depoentes da CPI | Foto: Divulgação

    Com os desdobramentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, do Senado Federal, onde testemunhas foram ouvidas pelos parlamentares sobre fatos durante a condução do governo federal na primeira e segunda onda da Covid-19 no Brasil, o estudo do médico e infectologista da Fundação de Medicina Tropical (FMT), Marcus Lacerda, sobre o uso da cloroquina, realizado em Manaus, foi alvo críticas por alguns depoentes.

    O médico foi responsável por conduzir o Clorocovid, que é um estudo pioneiro no país que concluiu que uso de cloroquina em pacientes infectados com coronavírus seria ineficaz e até mesmo letal. 

    No entanto, em depoimento à CPI, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, doutora Mayra Pinheiro, que é defensora do uso do medicamento e do tratamento precoce, criticou o estudo do médico, afirmando que Lacerda ministrou doses tóxicas do remédio que resultou na morte de manauaras. 

    Em entrevista ao EM TEMPO, o médico se posicionou com relação à declaração dos depoentes da CPI e, além disso, falou sobre os resultados de outros estudos que têm realizado na capital, como o Covac, que antecipou a imunização de profissionais da Educação e Segurança Pública do Estado. 

    Em Tempo – Nos últimos meses o senhor foi um dos responsáveis pelo estudo Covac Manaus, que antecipou a vacinação contra a Covid para profissionais das áreas de Educação e Segurança Pública lotados em Manaus. Quais foram os principais benefícios deste estudo? 

    Marcus Lacerda – 

      O estudo foi realizado com pessoas de idade entre 18 e 49 anos. Antecipamos a vacinação de profissionais sem comorbidade, o que resultou na imunização de 5.100 pessoas. Conseguimos concluir a aplicação das segundas doses de todos eles na semana passada.  

    Durante um ano, vamos monitorar os níveis de anticorpos deles para que a gente consiga entender a duração da proteção desta vacina. A cada três meses, na Arena Amadeu Texeira, todos esses participantes têm acesso à testagem para o diagnóstico da Covid. Caso o resultado seja positivo em algum deles, estamos fazendo o sequenciamento genético para que a gente identifique se há variantes novas circulando pela cidade. 

    ET – Qual foi a vacina utilizada para a realização desse estudo?

    ML – Foi a CoronaVac. O Instituto Butatan fez a doação das 10.200 doses, exclusivas para a pesquisa. 


    ET - O Ministério da Saúde anunciou a criação de um plano de ação para vetar o uso da CoronaVac no Brasil. Qual o seu posicionamento sobre isso?

    ML – Não tenho acompanhado as discussões dentro do Ministério, mas o Instituo Butatan está migrando a plataforma para a produção de uma segunda vacina que é a ButanVac. Acho que os acordos que tem sido feitos, pelo que eu tenho acompanhado, é para um investimento maior da compra da ButanVac em vez da Coronavac. Se ela vai ser suspensa ou não é algo muito precoce para se dizer porque hoje ela (Coronavac) ainda há uma quantidade substancial distribuída no Brasil. A discussão que se tem é sobre um estudo que Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) fez aqui em Manaus, mostrando que acima de 70 anos, a proteção da vacina parece que é menor. A discussão é muito mais com relação a essa população do que a população em geral. 

     

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    ET - Alguns depoentes da CPI da Pandemia, ligados ao governo federal, como as doutoras Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi, criticaram o seu estudo que concluiu que a cloroquina é ineficaz para o tratamento contra a Covid. Qual a sua avaliação sobre isso?

    ML - Esse estudo iniciou em março de 2020. Naquele momento ninguém sabia qual era a dose. Hoje, a dose que é usada, infelizmente só no Brasil, é uma dose que não concentração para matar o vírus. Naquele momento, o estudo de Manaus foi o primeiro a testar uma dose mais alta e outra mais baixa do medicamento e a gente viu que a dose mais alta dava mais arritmia cardíaca, e foi interrompido.

      Quando o estudo foi publicado se transformou em uma guerra política e as pessoas quiseram atacar o estudo e, mesmo depois de um ano, continuam atacando o estudo, que já foi para a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Ministério Público Federal (MPF) e já o arquivaram porque entenderam que houve falha na interpretação de todo o mundo.  

    ET -  Quais foram as constatações desse estudo? 

    ML - O estudo constatou que uma dose mais alta do medicamento, que seria uma dose que funcionaria contra a Covid, não deveria ser continuada. E a dose mais baixa não mostrou nenhuma diferença para pacientes internados e em relação à melhoria clínica. Foi o primeiro estudo que mostrou que não fazia muito sentido em usar cloroquina nos pacientes internados. Muita coisa que é falada é sem a devida leitura do artigo.

    E, claramente isso hoje na CPI é uma estratégia para desviar o foco daquilo que realmente importa, que foi o atraso na compra de vacinas. A gente só começou a vacinar no Brasil em meados de janeiro. A CPI tem discutido esse tema, mas os governistas tem tentado jogar essa cortina de fumaça no estudo, que não foi o único que definiu que a cloroquina não funciona. Mais de 15 estudos foram publicados e todos eles concluem a mesma coisa: não funciona. 


    ET- A quem o senhor atribui a politização da cloroquina?

    ML -

      Acho que o presidente (Bolsonaro) precisava ter uma medicação para a população. Houve um entusiasmo muito grande no início. Ano passado a gente usou muito. Principalmente no primeiro semestre, mas os médicos já perceberam que não funciona e deixaram de usar.  

    ET - A Universidade Oxford anunciou, na última semana, que vai testar a Ivermectina como um tratamento possível para a Covid-19. Qual o seu posicionamento sobre esse medicamento e outros remédios, como Azitromicina, recomendado por médicos governistas para o tratamento contra o coronavírus?

    ML- A Universidade de Oxford tem um grande grupo de pesquisa que tem testado várias drogas para a Covid. Muitas medicações que usamos hoje foram testados por este grupo no Reino Unido e cada vez que surge a possibilidade que um medicamento funcione eles fazem esse teste rapidamente, com mais de 100 hospitais públicos do país. Eles anunciaram que vão começar um ensaio grande com ivermectina, porque os dados são meio controversos.

    Há artigos que mostra que funciona um pouco, e outros mostram que não funciona e eles vão tentar mostrar se há sentido ou não usar Ivermectina. Atualmente, os estudos são muito fracos, com poucos pacientes, então não dá para concluir muita coisa. A Azitromicina, por outro lado, já há estudos mostrando que não funciona, além da vitamina D. 

     

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    ET - E sobre o tratamento precoce?

    ML- 

    Tem que ver qual é a medicação. Temos dados mostrando que a Colchicina tem um efeito protetor. A Budesonida também tem um efeito protetor importante. Não dá para colocar tudo no mesmo pacote. Tem algumas drogas que parecem que tem algum benefício.  

    ET - Em Manaus, recentemente, houve a comemoração de 1 milhão de imunizados contra a Covid-19. Quais os cuidados que a população deve manter após a aplicação da vacina?

    ML - A proteção da vacina não é de 100%. Mesmo com a aplicação das duas doses da vacina, não vai assegurar que você fique plenamente protegido. No consultório eu tenho visto pessoas que se vacinaram, com as duas doses, e mesmo assim ficando doentes. Mas é muito raro alguém que tenha tomado as duas ficar internado ou morrer.

      O grande objetivo da vacina é diminuir a circulação do vírus até que ele pare de circular.  

    Porque a hora em que eu estou vacinado, e não tem vírus circulando, eu tenho certeza que eu posso sair na rua sem máscara, mas ainda não é um momento. Não se pode entender a vacina como um estudo de proteção de 100%. As pessoas precisam começar a convencer os outros a se vacinarem porque senão a gente não vai chegar nesses 70% e 80% de imunizados. 

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