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    Bancada Evangélica: o domínio da fé na política

    A atuação de evangélicos na política iniciou-se na década de 60, graças ao movimento “Brasil para Cristo”, iniciado pela Igreja Pentecostal do Brasil

    Atualmente, fazem parte da Bancada Evangélica, segundo consta a 56° Legislatura (2019 até 2022), 194 deputados e 7 senadores
    Atualmente, fazem parte da Bancada Evangélica, segundo consta a 56° Legislatura (2019 até 2022), 194 deputados e 7 senadores | Foto: Divulgação

    Entre as repartições presentes na política brasileira, é observada a junção de determinados grupos que, apesar de filiações partidárias distintas, dividem opiniões e diretrizes convergentes, que podem estabelecer força diante da tomada de decisões parlamentares. Um dos grandes exemplos dessa agrupação é a formação da 'Bancada Evangélica'.

      A bancada surgiu com o refinamento da Frente Parlamentar Evangélica, uma instituição jurídica que possui estatuto e regimento próprio. A bancada, apesar de não se enquadrar nas diretrizes institucionais, por ser o conglomerado de líderes políticos que compartilham posicionamentos específicos, influencia na delimitação da Frente Parlamentar.  

    A atuação de evangélicos na política, iniciou-se na década de 60, graças ao movimento “Brasil para Cristo”, iniciado pela Igreja Pentecostal do Brasil, onde foi eleito o primeiro deputado federal. Depois disso, houve a mobilização de outras instituições religiosas para a representação da igreja na política.

    Foi em 1990 que foi efetivada a formação da Bancada Evangélica no Congresso Nacional, com a criação de um plano estratégico de atuação, realizada pela igreja Universal do Reino de Deus. O fundador da igreja, o Bispo Edir Macedo, proprietário da Rede Record de Rádio e Televisão, passou a conclamar em seu canal, por meados de 1989.  

     

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    Atualmente, fazem parte da Bancada Evangélica, segundo consta a 56° Legislatura (2019 até 2022), 194 deputados e sete senadores.  Dentre os posicionamentos comuns que rodam os ideais do grupo, é possível evidenciar temáticas delicadas de cunho social: aborto, gênero, família, homossexualidade, entre outros. Baseando-se em ideias difundidas nas instituições religiosas, que apresentam um perfil representado pelo conservadorismo social e político, a bancada toma suas decisões de maneira uniforme.

    A força da bancada política, já foi demonstrada na aprovação de inúmeras propostas na Câmara, por exemplo, a da emenda que previa a proibição do aborto. Na época, a bancada pedia a proibição em todas as circunstâncias, atualmente, ela é permitida em casos de estupro e comprovação de fetos com má formação cerebral (apresentam anencefalia). 

    No momento, o grupo une forças para que André Mendonça ocupe a vaga de ministro no Supremo Tribunal Federal. O pedido conta com o apoio do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (sem partido), que em breve deve filiar-se ao PL.

    Influência da Igreja

    No Brasil, segundo dados, a Igreja Evangélica é uma das que mais expandem no país, e já englobam, cerca de 31% da população de autodeclaram evangélicos. O crescimento da religião, representa também a maior expansão das áreas de atuação de seus seguidores em inúmeros âmbitos, inclusive na política.

      Em 2020, no registro de candidaturas, houve um aumento de 35% de candidatos que utilizam em sua designação, cargos da igreja, para a exibição nas urnas eletrônicas. 4915 de inscrições fazem referência ao segmento pautado no cristianismo evangélico.  

    A influência dos votos que partem do grupo, em sua maioria partem de figuras com alto grau de importância nas instituições. Um exemplo da força, pôde ser observada nas eleições presidenciais de 2018. O atual presidente, Jair Messias Bolsonaro, na época, contou com o apoio do Bispo Edir Macêdo. A decisão da figura religiosa, garantiu que 70% de seguidores de sua doutrina, direcionassem seu voto para Bolsonaro. 

    O presidente, apesar de se autodeclarar católico, conta com articulações políticas que sofrem influências diretas das decisões da bancada evangélica. Muitas das pautas de campanhas presidenciais utilizadas por ele, condiziam com os ideais defendidos pelos membros, como discussões acerca de gênero, políticas armamentistas e educacionais. Ainda hoje, é possível observar a relevância que os desdobramentos das decisões da bancada, influenciam nos posicionamentos presidenciais. 

    Outro grande nome religioso, que possui grande valorização nas decisões políticas, é o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia. Segundo o filho do presidente, Silas possui vínculo estreito com o Bolsonaro e o influencia diretamente em inúmeras decisões. Além disso, Malafaia mantém periodicamente a exposição de seus direcionamento políticos, inclusive ao fazer pressões na bancada, como ocorreu em fevereiro, durante a votação de soltura do deputado Daniel Silveira (PTB).  

     

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    O cientista político Carlos Santiago, analisa o destaque da religião na política do Brasil: 

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    A religião sempre teve um papel destacada na política do Brasil. 90% da população do país se declara cristã. Nas últimas décadas, algumas denominações religiosas resolveram participar ativamente da política, elegendo governantes e representantes legislativos. Criaram também até partido político. Há interesses de valores religiosos, há interesses econômicos e há interesses de manutenção e ampliação de privilégios políticos e tributários "

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    Conforme Santiago, a política possui caráter amplo e não excludente, portanto, os parlamentares não deveriam levar a religião como fator primordial em suas definições. 

    "Existe o lado positivo, mas tem o lado negativo. A religião tem que debater e se envolver com temas da política. No entanto, os valores religiosos não podem definir as políticas de estado e nem o estado pode ter religião. Todos que foram eleitos, independentemente da fé, devem trabalhar para o bem comum", completou.

    Amazonas 

    No Estado, a bancada evangélica, conta com membros de grande relevância para a política Amazonense e nacional. O deputado federal Silas Câmara (Republicanos), é um dos grandes nomes que representa o grupo.  Em pesquisas realizadas este ano, Silas foi eleito pela terceira vez, um dos parlamentares mais influentes do Congresso Nacional. O nível de sua relevância e popularidade, pode estar estreitamente ligado ao número de apoiadores advindos das igrejas. O mesmo, demonstra sempre em suas redes sociais a importância de sua diretriz política em seus afazeres de cunho público. 

     

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    A demonstração da força da bancada, foi observada durante o ápice da pandemia no Estado, onde após pressão da frente parlamentar evangélica, as igrejas foram incluídas como atividades essenciais durante a pandemia. A ação foi direcionada por Silas,  contou com o apoio do presidente Bolsonaro que em vídeo declarou: 

      "Quem não é cristão, que não vá, mas não queira tirar o direito de quem quer procurar um pastor ou padre", disse ele.  

    Raiff Matos, vereador de Manaus, também é um importante nome da bancada na região. Em seu perfil, se intitula como defensor da família e vivente de princípios e valores cristãos. Entre seus atos que se enquadram ao perfil, Raiff, deu entrada a um pedido de esclarecimento junto ao Conselho Municipal de Educação, acerca resolução que trata da inclusão do tema "diversidade sexual e de gênero". 

     “Não posso me calar diante deste tema. Concordo que o conhecimento é importante para evitar uma conduta de intolerância, mas existem questões-chave ainda não resolvidas que antecedem esse tipo de resolução”, afirmou ele acerca do assunto. 

    O mesmo também compartilha declarações que evidenciam o caráter direcionado à religião. "O estado é laico, mas eu não sou laico, sou cristão", o mesmo apoiou sua falar no artigo 5°m parágrafo VIIIda constituição que diz: 'Ninguém será privado de direitos por motivos de crença  religiosa ou convicção filosófica ou política. 

    A relevância de políticos que fazem parte da bancada no Amazonas, é evidente e tende a crescer. Segundo dados, a região norte conta com grande número de seguidores da religião evangélica, onde cerca de 39% se denominam seguidores da linha. O número, que avança exponencialmente e por consequência, surtirá efeitos no cenário político amazonense. 

    Carlos Santiago faz alertas acerca da do grau de representação que políticos com o perfil podem influenciar no cenário:

    "Não é problema a presença de pessoas religiosas ou de denominações religiosas na política. O problema acontece no momento em que essas pessoas não pensam e não promovem políticas para todos, apenas para uma parcela da população. A pessoa pública deve fazer ações objetivando a coletividade, independentemente de credo ou não", disse ele. 

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