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    Coronavírus


    Telemedicina ganha força durante e depois da pandemia da Covid-19

    Especialistas dizem que a prática pode ajudar a desafogar o sistema de saúde e alta demanda prevista no pico do coronavírus no Brasil. Mas ainda há pontos a serem pensados

    A telemedicina é uma área da telessaúde que oferece assistência médica à distância, por meio de avançados recursos tecnológicos e Inteligência Artificial (IA)
    A telemedicina é uma área da telessaúde que oferece assistência médica à distância, por meio de avançados recursos tecnológicos e Inteligência Artificial (IA) | Foto: Divulgação/ Albert Einstein

    Manaus - Na última terça-feira (31) o Senado Federal, em 'home office', aprovou um projeto que autoriza a prática de consultas médicas virtuais durante a pandemia do novo coronavírus. O método faz parte da chamada telemedicina, que é uma forma à distância de prestar atendimento hospitalar, como consultas, monitoramentos e até cirurgias.

    O texto da deputada Adriana Ventura (Novo-SP) permite que a prática seja autorizada para qualquer atividade da saúde. O uso das tecnologias, segundo escreveu a parlamentar no projeto, pode ajudar a desafogar o sistema de saúde e alta demanda prevista no pico de coronavírus no Brasil.

    A nova lei prevê que os atendimentos por telemedicina ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS) sejam pagos pelo poder público, o que não inclui os atendimentos na rede privada. Nesses casos, o paciente deverá arcar com os custos. O projeto permite ainda a ampliação da telemedicina mesmo após a crise causada pela pandemia do novo coronavírus. O projeto ainda necessita da sanção do presidente Jair Bolsonaro e o Conselho Federal de Medicina (CFM) que deverá regulamentar a prática após o período de crise na saúde. 

    Telemedicina será regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina
    Telemedicina será regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina | Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

    No dia 19 de março, o CFM já havia enviado um parecer em caráter de urgência ao Ministério da Saúde indicando o uso da tecnologia durante a pandemia. Isso porque a telemedicina ainda não é bem regulamentada no Brasil, embora haja resoluções antigas que já apresentavam o método. 

    Na prática

    Profissionais defendem o uso da tecnologia para lidar com a nova Covid-19. "Ela pode contribuir muito por meio de alguma modalidade de telemedicina, como o acompanhamento dos pacientes em suas casas. Isso se torna muito mais eficiente do que se necessitássemos, por exemplo de visitas de equipes de medicina de família diariamente a essas pessoas. Então, o ganho de escala, segurança para o profissional e conforto para o paciente é muito grande neste caso", explica Julio Mendes, diretor comercial da Soluti, empresa que trabalha com certificação digital e possibilita médicos assinarem atestados e receitas on-line. 

    Julio Mendes, diretor comercial da Soluti
    Julio Mendes, diretor comercial da Soluti | Foto: Divulgação

    O ponto levantado pelo profissional é baseado na realidade da exposição dos profissionais de saúde ao novo coronavírus. Segundo a Fundação de Vigilância em saúde do Amazonas (FVS-AM), no Estado, até a última quarta-feira (1), 25 profissionais da saúde estavam infectados com a Covid-19. Três deles foram infectados enquanto atendiam no hospital. Em Wuhan, na China, onde surgiu o vírus, o médico Li Wenliang, de 34 anos, foi um dos que trabalhou nos primeiros casos da nova doença. Não demorou muito para que ele morresse por ela, após a exposição contínua e sem ainda saber o que já se tem de conhecimento sobre a Covid-19.

    No mesmo contexto do coronavírus, Julio Mendes cita ainda outros profissionais da medicina de inúmeras especialidades que precisaram fechar seus consultórios. "Nestes casos é possível uma retomada parcial dos atendimentos, lembrando que a telemedicina não é a resposta para tudo, porém, é uma grande aliada, e se encaixa perfeitamente em diversos cenários", afirma o diretor da Soluti.

    E ele cita algumas instituições que atuam com a tecnologia, como o próprio Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP), referência nacional. Também o Hospital Moinho dos Ventos, em Porto Alegre (RS). 

    Regulamentação em discussão 

    O site Telemedicina Morsch lista a 'cronologia' da discussão sobre telemedicina no Brasil. Segundo a publicação, há registros da prática desde a década de 1990 no Brasil, quando a empresa Telecardio começou a fazer eletrocardiogramas a distância.

    No campo universitário, a Universidade de São Paulo (USP), em 1997, criou uma disciplina para tratar do tema com os alunos. Em 1999, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) inaugurou um laboratório de telemedicina. 

    Ao avançarmos no tempo, chegamos a Resolução 2.227/18. Foi uma publicação do Conselho Federal de Medicina (CFM) que aprovava a realização das teleconsultas entre médico e pacientes. Mas, a comunidade médica brasileira, principalmente associações e conselhos regionais, não receberam a resolução de forma positiva. As siglas defendiam a maior participação de todos para pensarem o uso da telemedicina. Dias depois de publicada, a resolução do CFM foi revogada.

    O médico José Bernardes, presidente do Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM) levanta alguns pontos sobre a discussão da telemedicina. "Eu vejo esse método como importantíssimo para diversos tipos de atendimentos, principalmente consultas mais simples e que sejam para observar, por exemplo ferimentos no paciente. Esse tipo de situação facilita certos diagnósticos", diz presidente do CRM-AM.

    José Bernardes, presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-AM)
    José Bernardes, presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-AM) | Foto: Divulgação

    Mas, o médico ressalta a ideia de que a telemedicina não substitui um profissional. "É muito difícil avaliar sintomas que só o paciente pode dizer que sente. Como por exemplo, dor de cabeça. Pode ser uma enxaqueca, como pode ser um câncer. São necessários outros tipos de atendimento e para isso é imprescindível a presença de um médico nas duas pontas para que eles possam dar conta de prestar o atendimento. Mas não se pode, por exemplo, querer que o paciente 'se atenda' apenas com orientação de um profissional via telemedicina, porque tem certos detalhes que só um médico vai saber observar", afirma José. 

    Ele defende a ampliação da rede de médicos, como por exemplo no interior do Amazonas. "Temos que investir nisso. Antigamente, médicos vinham para o Estado porque aqui recebiam bem e tinha um bom apoio. Hoje, é o contrário. Alunos de medicina se formam no Amazonas e vão trabalhar em outros estados", conta o médico. 

    Conselho Regional de Medicina do Amazonas
    Conselho Regional de Medicina do Amazonas | Foto: TV Em Tempo

    Ele ainda dá um dado do conselho que preside. "Eu tinha em Manaus, ano passado, 5.114 médicos. Esse ano eu tenho 4.865. Reduziu 249 médicos, mas você ainda precisa lembrar que também formamos mais 300 profissionais. Logo, é preciso se pensar o que está acontecendo. Eu vejo que é uma desvalorização do médico, principalmente pautada em atraso de salários", afirma José. 

    No Amazonas

    No maior estado da Região Norte do Brasil, a telemedicina não é uma novidade. A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) utiliza a telessaúde desde 2005, quando foram iniciadas as atividades do Polo de Telemedicina da Amazônia da instituição. Posteriormente, o espaço se tornou base operacional do Núcleo Telessaúde Estadual dos Amazonas conveniado ao Programa Telessaúde Brasil Redes do Ministério da Saúde. 

    Segundo Waldeyde Magalhães, Coordenadora da Telessaúde na UEA, o método se apresenta como estratégia oportuna para o favorecimento da melhoria da qualidade de vida das populações localizadas em áreas remotas e culturalmente diversas, como as indígenas e as que habitam os espaços geográficos mais longínquos e isolados do Estado do Amazonas e do Brasil.

    Ponto de saúde indígena em
Parintins
    Ponto de saúde indígena em Parintins | Foto: Divulgação

    "O Núcleo de Telessaúde Estadual do Amazonas (NT AM) atualmente está em todos os municípios do Estado do Amazonas, pois possui 63 Pontos de Telessaúde em Áreas Urbanas e cinco Pontos de Telessaúde em Áreas Indígenas. A Telessaúde no Amazonas vence as adversidades demográficas, e, com sua cobertura em 100% do estado acrescentam aos profissionais formação complementar, suprimindo eventuais carências", afirma a profissional.

    A telessaúde da UEA atua em teleconsultoria, que é realizada entre trabalhadores, profissionais e gestores da área da saúde, com o objetivo de esclarecer dúvidas sobre procedimentos clínicos, ações de saúde e questões relativas ao processo de trabalho. A conexão acontece em tempo real, geralmente por videoconferência ou serviço telefônico, além de mensagens offline com resposta em até 72h.

    O serviço da universidade também inclui tele-educação, voltada a atividades de ensino à distância, de forma a qualificar estudantes, profissionais e trabalhadores da área da saúde do interior onde o projeto chega. 

    Aliás, a telessaúde da UEA está presente nos municípios abaixo: 

    Marcador Laranja: ponto de telessaúde; marcador amarelo: ponto de telessaúde indígena; marcador verde: Núcleo de Telessaúde
    Marcador Laranja: ponto de telessaúde; marcador amarelo: ponto de telessaúde indígena; marcador verde: Núcleo de Telessaúde | Foto: Divulgação

    Telemedicina e Covid-19, no Amazonas

    Além da UEA, outra instituição tem um trabalho com telemedicina para ampliar o serviço a quem normalmente não teria condições ou seria impedido por barreiras geográficas e econômicas. A Universidade Federal do Amazonas (Ufam)  também atua com a telessaúde desde 2014, por meio da Gerência Multidisciplinar de Telessaúde da Ufam (GMTS), ligada à Reitoria da instituição. 

    A Universidade está em cinco municípios do interior: Coari, Parintins, Itacoatiara, Humaitá e Benjamin Constant. Em todos, aplica dois métodos. A teleassistência, para ajudar no atendimento de paciente em especialidades médicas, e a tele-educação, para capacitar profissionais e alunos. 

    A enfermeira Adriany Araújo, de preto, ao meio, e equipe da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM)
    A enfermeira Adriany Araújo, de preto, ao meio, e equipe da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) | Foto: Divulgação

    A enfermeira Adriany Araújo é coordenadora na GMTS e explica como a telessaúde foi e está sendo utilizada durante a pandemia de coronavírus. "Em fevereiro nós realizamos uma atividade de orientação para comunidades do interior. Explicamos o que é o coronavírus e a doença Covid-19, assim como protocolos para agir nos atendimentos suspeitos", conta ela.

    Capacitação de profissionais por meio de telessaúde
    Capacitação de profissionais por meio de telessaúde | Foto: Divulgação

    Segundo a profissional, o trabalho capacitou 200 pessoas para lidar com a Covid-19, mas não foi o único. Houve ainda outro após os primeiros casos de coronavírus no Brasil. "A Fundação de Vigilância em Saúde participou. Capacitamos cerca de 300 pessoas, dentre alunos e profissionais da saúde dos municípios".