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    Coronavírus


    Epidemia avança no Brasil duas semanas após queda no isolamento

    O Amazonas já registrou 5.254 casos confirmados do novo coronavírus e 425 mortes

    Várias estão descumprindo a quarentena
    Várias estão descumprindo a quarentena | Foto: Divulgação

    A tendência de registro de novos casos e mortes da Covid-19 parece estar seguindo à risca no Brasil a estimativa de cientistas de que as oscilações no nível de adesão à quarentena demoram duas semanas a serem sentidas.

    Quando a mobilidade de pessoas atingiu o mínimo da tendência no país, em 24 de março, a epidemia esboçou desaceleração 15 dias depois. Naquele dia, a procura por transporte público caiu 69% em relação a janeiro, segundo dados do Google com base em celulares rastreados.

    Mas o isolamento social daqueles que podem ficar em casa, feito para reduzir o contato entre as pessoas (inclusive as não infectadas) e desacelerar a disseminação da doença, começou a se reduzir em força depois disso, e perdeu um quinto da adesão até 17 de abril.

    Ontem, 13 dias depois desse relaxamento, o número de casos engatou tendência de alta pelo quarto dia seguido, com 7.218 novos casos notificados num único dia, o recorde até agora, além de 435 mortes. O país tem agora 85.380 casos confirmados e 5.901 óbitos.

    O atraso de duas semanas entre ação e reação é fruto do ciclo de transmissão do vírus, que leva em conta o tempo de a pessoa se contaminar, transmitir o vírus a outra, e a nova pessoa infectada apresentar sintomas.

    Nos dados do Google para o Brasil, em 10 de abril, sexta-feira santa, os brasileiros ficaram mais em casa e bateram o recorde de adesão ao isolamento. Duas semanas depois, em 26 de abril, o número diário de registros da doença também caiu, como em coreografia.

    Em sua transmissão de vídeo nas redes sociais ontem, o presidente Jair Bolsonaro voltou a insinuar que a política de distanciamento social não funciona.

    — Pelo que estamos vendo, até agora todo empenho para achatar a curva praticamente foi inútil — afirmou, em declaração que contraria o consenso científico.

    Evidências

    O economista Hakan Yilmazkuday, da Universidade Internacional da Flórida, realizou um estudo olhando para dados de mobilidade do Google em 127 países, e viu uma forte correlação.

    “Os resultados sugerem que um aumento de 1% na permanência semanal em residências leva a cerca de 50% menos casos semanais de Covid-19 e cerca de 4% menos mortes pela doença”, escreveu em estudo preliminar no portal SSRN. “Um decréscimo de 1% em visitas a terminais viários leva a cerca de 22% menos casos de Covid-19 e 2% menos mortes.”

    Para quase todos os parâmetros, os brasileiros parecem ter respeitado mais suas quarentenas até a última semana de março. Mas, desde então, à exceção da sexta santa, a população parece estar aos poucos comprometendo o distanciamento social. O relaxamento coincide com o período em que Bolsonaro acirrou a queda de braço com governadores pedindo retomada da economia.

    O ministro da Saúde, Nelson Teich, disse ontem que a diretriz do governo de flexibilizar o distanciamento social no país está pronta. Ele afirmou temer, no entanto, que ela seja alvo de “polarização” e transformada em “ferramenta da discórdia”. Mas reconheceu que há risco de a pandemia se agravar:

    — Em relação a um possível número de mortes, hoje a gente está perto de 500 mortes, 400. O número de mil, se estivermos num movimento, num crescimento significativo da pandemia, é um número que é possível acontecer.

    O estatístico Benilton Carvalho, da Unicamp, que estuda a dinâmica da Covid-19 no Brasil, enxerga tendência de reversão no comportamento do brasileiro. Apesar de uma boa adesão ao isolamento social até o começo de abril em parâmetros como mobilidade e frequência a lojas e parques, desde o final de março a visita a familiares está aumentando. Por isso, nas últimas semanas, índices de contágio podem ter sido impulsionados dentro de casa.

    Com informações da Agência O Globo*