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    Pandemia


    Terapia online: psicólogos cuidam da saúde mental dos amazonenses

    Profissionais relatam como a terapia por videochamada tem ajudado pacientes a enfrentar a nova realidade da pandemia

    | Foto: Freepik

    Manaus - A nova pandemia do coronavírus tem abalado as estruturas do mundo inteiro, principalmente na forma como os seres humanos se relacionam. Uma das formas de conter o avanço da doença, segundo autoridades médicas, é o distanciamento social e a quarentena. Nesse novo contexto, psicólogos têm procurado usar a internet para conversar com pacientes e não deixar que a terapia e a saúde mental se enfraqueçam em tempos de pandemia.

    No Amazonas, maior Estado do Brasil em extensão de terra, nem os quilômetros de rios e estradas impedem que pacientes e psicólogos se encontrem para terapias. Peterson Colares mora no município de Presidente Figueiredo (distante 119km de Manaus) e tem pacientes na mesma cidade, mas também em comunidades nas estradas BR 174 e AM-240.

    Ele atende servidores e alunos do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), campus de Presidente Figueiredo e diz que a prática de terapia on-line começou no dia 18 de março, com a suspensão das atividades do Instituto devido a pandemia.

    "O atendimento on-line surgiu da necessidade de continuar os atendimentos a servidores e alunos do Instituto Federal de Educação, que normalmente são presenciais, nesse período de distanciamento social, por conta da pandemia", comenta o profissional.

    Peterson também atende gratuitamente a comunidade de Presidente Figueiredo em um projeto social
    Peterson também atende gratuitamente a comunidade de Presidente Figueiredo em um projeto social | Foto: Reprodução

    Ele lembra que o Conselho Federal de Psicologia emitiu uma resolução (CFP 004/2020), que orienta o atendimento online durante esse período em especial. No entanto, desde 2018, está regulamentado o atendimento psicológico por meio virtual, mediante cadastro e aprovação do respectivo conselho.

    O psicólogo lembra que o distanciamento social, principal método de prevenção do novo coronavírus, alterou a rotina de toda a população, mesmo quem não o aderiu por completo. Ele diz que essa mudança pode vir acompanhada de sofrimento psíquico e que, por conta disso, o atendimento psicológico on-line se mostra como uma boa alternativa de apoio profissional.

    Peterson comenta que há um bom retorno da alternativa de conversa pela web. Principalmente porque, segundo ele, já se vê efeitos da quarentena nas conversas com os pacientes. 

    "A maioria das situações que tem chegado a nós [psicólogos] dizem respeito a quadros de ansiedade, dificuldades em manter os horários de sono e alimentação, conflitos familiares evidenciados pela convivência em quarentena e variações de humor", afirma Peterson.

    Em alguns casos, ele comenta que as mudanças aumentam a intensidade de situações emocionais vivenciadas desde antes desse período pelos pacientes. Para ajudar nesses conflitos, ele trabalha "com a escuta terapêutica, aconselhamento, orientações, visando auxiliar na compreensão dos fatores que geram ou intensificam os estados emocionais negativos".

    Problema de conexão

    "Acredito que a grande maioria do público, que são os alunos, somente tem acesso à internet via 3G e isso quando o sinal chega com um mínimo de qualidade. Mesmo nós, que moramos na cidade, temos de enfrentar quedas na qualidade do sinal. Além disso, um grande complicador tem sido as constantes quedas de energia. Então, a falta de estrutura de comunicação por meio de internet de forma eficiente no município é um obstáculo para os usuários e para nós, prestadores do serviço", comenta o psicólogo.

    Sobre o sinal de internet no Amazonas, uma reportagem do EM TEMPO demonstrou como o Estado está longe de receber o 5G, sinal mais atual de conexão para a web. 

    .Para a matéria, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados que mostram que 40% da população do Amazonas não tem acesso à internet. Os principais motivos apontados pela sigla são a não disponibilidade do serviço e a falta de interesse por inúmeros motivos.

    Sobre internet via dados móveis de celular, a operadora que possui a maior cobertura 4G - um dos meios de conexão mais rápidos atualmente - é a vivo. Mesmo com esse posto de primeiro lugar, ela ainda está presente em apenas 28 dos 62 municípios. Com a cobertura 3G, o número cresce para 39 cidades, mas ainda deixa outras 23 sem conexão pela tecnologia.

    Diferenças

    O psicólogo Geisyng Azevedo, que atua em Manaus, conta que os benefícios de se fazer atendimento on-line são os mesmos da consulta presencial. Ele iniciou o método no final de março, quando estabelecimentos na capital do Amazonas começaram a fechar as portas. 

    "O que pode diferenciar é o contato mais direto com o paciente. Pessoalmente, há mais capacidade de observação do psicólogo com as reações e até a linguagem corporal da pessoa atendida. Além disso, algumas técnicas presenciais não podem ser aplicadas on-line, ou então podem, mas com adaptações", comenta o psicólogo.  

    Geisyng conta que tem conseguido manter a rotina pessoal, mesmo com o home office
    Geisyng conta que tem conseguido manter a rotina pessoal, mesmo com o home office | Foto: Reprodução

    Mesmo com as diferenças, Azevedo diz que ele e os pacientes já se acostumaram após um mês com a nova metodologia. Ele, quando atendia presencialmente, trabalhava a tarde e a noite, e agora, segue com o mesmo horário. A quantidade de pacientes atendidos também se manteve, variando de um até três ao dia, segundo Azevedo.

    "Um ponto interessante é que no início da terapia on-line, eu percebi que os pacientes estavam mais resistentes a aderir o método, mas isso rapidamente mudou. Logo viram que é importante para elas, porque veja só, durante essa pandemia as pessoas estão mais sensíveis e isso facilita muitos conflitos internos e externos", afirma o psicólogo.

    Ele diz que a procura por terapia tem aumentado na quarentena. "Já observamos que há um movimento maior por parte das pessoas em procurarem atendimento psicológico durante a pandemia, principalmente por uma questão de autoconhecimento, de auto percepção", comenta Azevedo.

    Atendimento a um continente de distância

    Taciana Farias, 24, é uma brasileira de Porto Alegre (RS) que vive atualmente na cidade do Porto (distante cerca de 300 km de Lisboa), em Portugal. Estudante de jornalismo, ela escolheu a cidade para realizar um intercâmbio com duração de seis meses na Universidade do Porto.

    Taciana Farias, 24, quando foi estudar em outro país teve se adaptar a nova realidade de terapia para continuar com a mesma psicóloga
    Taciana Farias, 24, quando foi estudar em outro país teve se adaptar a nova realidade de terapia para continuar com a mesma psicóloga | Foto: Arquivo Pessoal

    Com as aulas da Instituição suspensas desde o dia 12 de março e o fechamento do comércio não essencial em todo o País, restou a estudante ficar em casa durante a pandemia de coronavírus que também atinge Portugal. Até esta quarta-feira (6), eram mais de 26 mil infectados e pouco mais de 1090 óbitos pela doença no país lusitano. 

    "Eu fiz três anos de terapia presencial em Porto Alegre e quando decidi fazer o intercâmbio, minha psicóloga e eu decidimos que seria bom continuar a terapia mesmo à distância. Então, começamos a trabalhar essa ideia de atendimento pela internet", conta a jovem.

    Ela diz que mesmo antes de imaginar que haveria uma pandemia, já havia decidido pela terapia on-line para lidar melhor com todas as novidades do intercâmbio, assim como sensações e outros acontecimentos em sua vida.

    "Apesar disso, eu vejo certas dificuldades. O que mais gosto é sentar e olhar nos olhos da minha psicóloga. Até o espaço faz diferença. Estar naquela sala e poltrona que eu ficava para conversar com minha terapeuta é algo que faz diferença. Você sente mais a vontade para conversar e se abrir", comenta Taciana.

    Ela diz que no início sentiu dificuldades para encontrar um bom espaço para conversar com a psicóloga. Tentou no quarto, na rua e até mesmo em um cemitério próximo a sua casa, por acreditar que lá teria mais silêncio. 

    "Eu moro com outras estudantes e tinha medo de alguém ouvir minha terapia. Até hoje ainda tenho medo de um dia o vídeo ou o áudio vazar ou outra pessoa ouvir, mas acho que isso é mais paranoia mesmo", brinca a estudante.

    No fim, ela diz gostar da alternativa e considera essencial. "É melhor do que não ter, já que considero muito importante não interromper a terapia. Isso atrasa o avanço e a melhora das pessoas. Eu indico bastante caso uma pessoa não faça. É isto, vão para a terapia", finaliza a jovem.