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    Pesquisa


    Médica do AM descobre lesões oculares provocadas pelo coronavírus

    Estudo foi publicado pela revista científica "The Lancet" e conta com novas informações sobre os danos da Covid-19

    Pesquisa revela que o novo coronavírus, além de causar danos ao sistema respiratório, também pode afetar a região ocular | Foto: Reprodução/Internet

    Manaus – Em novo estudo feito com pacientes da Covid-19, a médica oftalmologista Paula Marinho e sua equipe, descobriram que os infectados podem apresentar alterações na retina, região presente no fundo do globo ocular. A médica explica como o estudo está se desenvolvendo e fala um pouco sobre a valorização dos profissionais da saúde em meio à pandemia.

    A pesquisa, assinada pelo Instituto da Visão e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicada na revista científica ‘The Lancet’, uma das mais conceituadas e antigas da área médica, revela que o novo coronavírus, além de causar danos ao sistema respiratório, também pode afetar a região ocular.

    Paula, formada pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e com especialização na área da oftalmologia relacionada aos processos inflamatórios, conta que foi durante uma conversa com alguns amigos médicos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) que notou que existia um processo inflamatório muito grande nos pacientes internados com a Covid-19.

    Paula Marinho, médica oftalmologista em processos inflamatórios
    Paula Marinho, médica oftalmologista em processos inflamatórios | Foto: Divulgação

    “Com isso, me perguntei se realmente não teriam sinais oculares. O passo seguinte foi conversar com os meus orientadores Rubens Belfort Jr. e Heloísa Nascimento sobre a observação. Acabamos chamando o professor André Romano e as doutoras Allexya Affonso e Ana Marisa Castello Branco e montamos uma equipe com especialistas de diferentes áreas da oftalmologia para pensar em como isso poderia ser avaliado”, descreve.

    A oftalmologista atende no Instituto Paulista de Estudos e Pesquisas em Oftalmologia (Ipepo) e evidencia quais são os resultados apresentados até agora pelo estudo. “Encontramos alterações muito leves em uma das camadas da retina, o fundo dos olhos. São alterações que ainda não foram relatadas em outras doenças oculares e justamente por isso seguimos com os estudos para esclarecer melhor o que encontramos e qual o significado disso”, explica.

    O projeto iniciou em maio e, até então, foram analisados 12 pacientes, todos profissionais da saúde e com idades entre 25 e 69 anos, infectados pelo novo coronavírus. Paula diz que, a princípio, não há nada que comprove que possa haver lesões graves na retina, que levem à cegueira, por exemplo. Contudo, segundo ela, ainda é cedo para qualquer tipo de afirmação definitiva.

    A retina corresponde a região laranja na imagem
    A retina corresponde a região laranja na imagem | Foto: Reprodução/Internet

    “O estudo e a pesquisa continuam. Nesse momento, o trabalho mais que triplicou. Tivemos várias ideias que surgiram desses primeiros resultados e também de alguns questionamentos feitos por colegas. Então estamos aumentando o número de pacientes avaliados e também os exames a serem feitos”, salienta a médica.

    No contexto atual, onde a pandemia gera crise em diversos países ao redor do globo, os profissionais da saúde e os pesquisadores têm recebido imenso destaque por seus papeis. Para Paula, a valorização desses profissionais é muito importante. “Uma pena que precisamos de situações tão extremas para isso”, lamenta.

    “Precisamos resgatar o respeito por toda a equipe hospitalar: médicos, enfermeiros, técnicos, farmacêuticos e todos os demais. O Brasil é referência internacional de produção científica nas áreas da saúde, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos. A nossa equipe tem o privilégio de contar com o apoio do Ipepo, que permitiu que pudéssemos começar esse projeto junto com a Unifesp”, declara Paula.

    "Precisamos resgatar o respeito por toda a equipe hospitalar", afirma Paula
    "Precisamos resgatar o respeito por toda a equipe hospitalar", afirma Paula | Foto: Mário Oliveira/Semcom

    A médica encerra afirmando que, ainda assim, a falta de incentivo é desnecessária para os profissionais. De acordo com ela, muitos são professores, mas ser pesquisador é um caso de amor, geralmente secundário. “Não conseguimos, até hoje, dar estrutura para que os nossos talentos possam dizer que a profissão é de pesquisador, somente uma minoria consegue isso. Educação e ciência precisam ser prioritárias se quisermos mudar isso. A opinião de ninguém é superior aos fatos”, defende.

    Conheça alguns dos outros integrantes da equipe

    Rubens Belfort Jr. é Professor Titular no departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo desde 1991. Atualmente, é considerado um dos maiores especialistas do mundo na área de oftalmologia, tendo mais de 100 capítulos publicados e mais de 150 artigos publicados nas mais importantes revistas sobre o assunto. Além disso, em 2020, Belfort assumiu a presidência da Academia Nacional de Medicina, mais antiga entidade médica do Brasil.

    Dr. Rubens Belfort Jr.
    Dr. Rubens Belfort Jr. | Foto: Divulgação

    Heloisa Nascimento é médica oftalmologista formada pela Faculdade de Medicina do ABC e doutora em oftalmologia pela Unifesp. Ao longo da carreira, trabalhou como médica em diversas instituições públicas e privadas de oftalmologia. Ela conta com uma empresa de tradução médica e pesquisa clínica e faz parte do Ipepo desde 2015.

    Dra. Heloisa Nascimento
    Dra. Heloisa Nascimento | Foto: Divulgação

    O cientista, pesquisador e médico André Romano é hoje uma referência na área de oftalmologia mundial. Romano é professor em universidades norte-americanas e canadenses, além de autor de dois livros de repercussão mundial na área de retina, tomografia de coerência óptica e novas tecnologias em oftalmologia.

    Professor André Romano
    Professor André Romano | Foto: Divulgação