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    Coronavírus


    Quem se cura da Covid-19 está imune? Especialistas respondem

    A 'pergunta de um milhão de reais' está a procura de ser respondida por cientistas brasileiros e internacionais

    Tudo indica que não é possível se reinfectar, mas precisamos de mais estudos para responder essa questão com 100% de certeza | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Desde que foi descoberto em dezembro de 2019, o novo coronavírus ainda segue sem muitas respostas. Não existe uma cura ou remédio comprovadamente eficaz, por exemplo, mas uma nova dúvida tem aparecido nas discussões sobre a doença. Quem contrai a doença e se cura depois ganha a chamada 'imunidade duradoura'? A resposta para essa pergunta pode ser importante quando se trata de uma pandemia, porque se boa parte das pessoas não puder mais ser infectada, acaba o perigo de uma segunda onda de novos casos.

    A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, recentemente, que não há evidências científicas suficientes para afirmar que pessoas que se recuperaram da Covid-19 estão imunes à doença. 

    O anúncio foi feito para ir contra falas de governantes mundiais que já planejam um tipo de 'passaporte de imunidade', ou seja, um documento que permita viajar ou realizar outras atividades como conseguir emprego, caso já tenha adquirido a doença. 

    "A OMS continua revisando as evidências das respostas de anticorpos à infecção por SARS-CoV-2 (vírus da covid-19). A maioria desses estudos mostra que as pessoas que se recuperaram da infecção têm anticorpos para o vírus", diz o comunicado. "No entanto, algumas dessas pessoas têm níveis muito baixos de anticorpos neutralizantes no sangue, sugerindo que a imunidade celular também pode ser crítica para a recuperação”.

    Segundo Ana Galdina, médica infectologista do hospital João Lúcio, até então, quem pegou a doença, não foi infectado novamente. Ela diz que os curados têm apresentado a formação de anticorpos que garantem a imunidade duradoura - quando alguém não contrai a doença mais de uma vez.

    "Mas ainda temos uma pergunta que ainda não foi respondida. Algumas pessoas não têm desenvolvido esses anticorpos. E aí temos que descobrir o porquê e analisar caso a caso. Mas, o que temos de concreto é que, até o momento, não há reinfecção pela Covid-19", comenta a médica.

    Ela diz ainda que outra questão atual é quanto tempo o corpo pode ficar imune ao coronavírus. Se é apenas por cerca de um ano, como no caso das gripes comuns, ou se ao contrair a Covid-19, as pessoas depois desenvolvem a imunidade duradoura.

    "A Covid-19 nunca mais vai nos deixar. Ela sempre vai circular. Mas se 70% das pessoas ficarem imunes, vamos ter o que chamamos de imunidade de rebanho, que é quando a circulação do vírus cai muito, porque ele pula de indivíduo em indivíduo e não consegue se espalhar porque a maioria ganhou imunidade. Se isso acontecer, vamos ver nossa curva de infectados cair muito", afirma a especialista.

    O 'problema' da imunidade de rebanho

    A imunidade de rebanho pode vir, segundo Ana Galdino - mas também outros cientistas internacionais - se 70% da população desenvolver imunidade à doença. Isso pode vir caso essas pessoas peguem a doença ou sejam vacinadas. Mas até nisso há alguns problemas que são explicitados por números.

    Segundo o Banco Mundial, até 2018, a população da terra era de 7,5 bilhões de pessoas. Para que houvesse a imunidade de rebanho, 70% (5,3 bilhões) de seres humanos precisariam ser infectados. Se todas essas pessoas realmente contraíssem o novo vírus, cerca de 198 milhões morreriam pela doença, com base na taxa de letalidade atual da doença, que é de 3,74%.

    Se a Covid-19 matasse todas essas pessoas, ficaria atrás apenas da atual pandemia mais mortífera da história, a peste negra, que matou 200 milhões de pessoas, entre 1347 e 1351.

    Outra opção para adquirir a imunidade de rebanho seria uma vacina (que ainda não existe) ser aplicada em 70% da população, ou seja, em 5,3 bilhões de pessoas. No entanto, pela forma como essas pessoas estão espalhadas pelo mundo, poderia demorar um grande tempo e o custo poderia ser altíssimo. Mas ainda é a opção mais apontada por especialistas.

    Doença 'irmã' da Covid-19 confere imunidade

    Apesar de ser uma doença nova, a Covid-19 tem uma irmã, que é a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (Mers), causada por um outro tipo de coronavírus (Mers-CoV). A médica infectologista diz que essa doença é um bom exemplo para acreditarmos que a Covid-19 dará imunidade duradoura.

    "É claro que ainda precisamos de comprovação científica para o caso do novo coronavírus, mas a experiência que temos com esse tipo de vírus é que após ser infectado por ele, o corpo humano desenvolve anticorpos que fazem com que não haja reinfecção", diz Ana Galdina.

    O cientista Vineet D. Menachery, pós-doutor em microbiologia, aponta em seu estudo sobre a Mers que a maioria das pessoas infectadas pela doença adquiriram imunidade para cerca de oito a dez anos. O pesquisador desenvolve estudos sobre coronavírus, imunidade e genética no Laboratório Nacional de Galveston, nos Estados Unidos.

     Estudo para testar imunidade

    Todos os dias novas informações são descobertas sobre a Covid-19. No entanto, até o dia 15 de maio, quando esta matéria foi escrita, não havia nenhum caso confirmado de dupla infecção por coronavírus. Ou seja, uma pessoa que foi infectada novamente, depois de se curar.

    Na Coreia do Sul foram registrados alguns casos de 'reinfecção', mas que depois se mostraram ser, na verdade, 'restos' de vírus da primeira infecção. Isso porque o coronavírus pode ainda ficar em baixa quantidade no corpo humano, mesmo depois da cura da doença. 

    Outro ponto descoberto por pesquisadores chineses é que após um ser vivo ser infectado pela Covid-19, há produção de anticorpos pelo sistema imunológico. O estudo feito com macacos infectados propositalmente com o novo coronavírus mostrou que após terem sido curados, os animais não contraíram a doença pela segunda vez, ao serem novamente expostos ao vírus.

    Depois da pesquisa, outros cientistas revisaram o mesmo estudo, dentre eles, Frédéric Tangy, do Instituto Pasteur da França. Em sua análise, ele concluiu que o estudo "não diz nada sobre imunidade, já que a observação aconteceu durante um período de um mês". Segundo o pesquisador, é preciso de mais tempo para saber até quanto tempo os seres humanos podem ficar realmente livres da doença.

    Na China, onde a pandemia iniciou, os relatos são mais fortes: ao menos 100 indivíduos que se curaram da doença voltaram a apresentar resultados positivos para a presença dessa ameaça microscópica. Será que o corpo não cria imunidade contra esse vírus, o que favoreceria uma reinfecção?

    De acordo com a evidência científica atual, a probabilidade de uma reinfecção é remota. Quem aposta nisso é o médico Anthony Fauci, líder da força-tarefa contra o coronavírus dos Estados Unidos e um dos maiores especialistas do mundo em doenças infecciosas.

     Covid-19 pode nunca desaparecer

    Na última quarta-feira (13), o a Organização Mundial da Saúde alertou que a Covid-19 pode se tornar endêmica, como o HIV, e nunca mais desaparecer. A informação foi proferida por Mike Ryan, especialista em emergências, da entidade médica.

     ""Acho importante sermos realistas e não acho que alguém possa prever quando essa doença desaparecerá. Acredito que não há promessas nisso e não há datas. Essa doença pode se estabelecer como um problema longo ou não", comentou ele.

    Ryan ressaltou que algumas doenças, como sarampo, possuem vacina, mas não foram eliminadas totalmente do planeta. E que, seria necessário um "controle muito significativo" do vírus, para diminuir a avaliação de risco. A OMS ainda classifica o perigo do vírus como alto a nível nacional, regional e global.