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    Saúde Mental


    Brasil sofre com epidemia de depressão e ansiedade: saiba diferenciar!

    Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que Brasil está no topo de países com mais casos de depressão e ansiedade

    Brasil está entre países mais ansiosos e depressivos do mundo | Foto: Agência Brasil

    Manaus - Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que o Brasil vive uma epidemia de depressão e ansiedade, dois transtornos psiquiátricos que estão associados entre si, mas são diferentes. As duas patologias possuem sintomas próprios, no entanto, vez ou outra podem atingir uma pessoa ao mesmo tempo. Saiba o que difere de cada uma, quais são os sintomas e tratamentos.

    Segundo a OMS, o Brasil é o país mais ansioso do mundo. O dado é do ano passado e foi consolidado após comparação do número de pessoas com o transtorno, por Nação. O Brasil aparece com 18,6 milhões de ansiosos (9,3% da população) e ocupa o primeiro lugar no pódio mundial. 

    Com a depressão, a história se assemelha ao primeiro dado. O Brasil é o país com mais casos do transtorno na América Latina.  Segundo a OMS, 12 milhões de brasileiros (5,8%) sofrem de depressão, o que está acima da média global, que é de 4,4%. 

    Não é difícil também encontrar famosos com alguma das patologias. No caso da depressão, Paula Fernandes (cantora), Fábio de Melo (padre) e Whindersson Nunes (humorista) são apenas alguns exemplos. Todos já falaram abertamente sobre o tema e, inclusive, relataram melhora após tratamento.

    Ansiedade: o medo do futuro

    Quando se fala que alguém está ansioso, pode-se ter duas interpretações. A primeira delas é que o indivíduo está com expectativa positiva ou negativa sobre algo que está por vir. Isso porque a ansiedade é uma reação natural e instintiva do corpo, como define o Ministério da Saúde. No entanto, a segunda interpretação para uma pessoa ansiosa está mais ligada a um transtorno psiquiátrico. 

    Alessandra Pereira é médica psiquiatra e explica como a ansiedade funciona, quais são os sintomas e tratamentos existentes.

    Alessandra já esteve na WebTV Em Tempo
    Alessandra já esteve na WebTV Em Tempo | Foto: Arquivo/WebTv Em Tempo

    "Neste transtorno, temos uma antecipação negativa do futuro. A tristeza, o cansaço e a falta de prazer nem sempre são presentes, mas podem existir. O que impera são o que nós psiquiatras chamamos de os 'T's da ansiedade", diz ela.

    A especialista lista quatro sintomas da doença que começam com a letra 'T' e explica como cada um deles atinge o corpo.

    "O primeiro é a taquicardia, que é o coração acelerado. A pessoa parece ficar prestes a 'ter um troço'. O segundo sintoma é a tonteira, acompanhada ou não de enjoo. O terceiro são os tremores em diversas partes do corpo, nem sempre ao mesmo tempo. É o que chamamos popularmente de 'tremer a carne'. Por último, tem a taquipneia, que é a falta de ar", afirma a profissional.

    Sintomas de ansiedade
    Sintomas de ansiedade | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Depressão: o 'vazio' interno

    A depressão é um problema psiquiátrico considerado grave e que afeta diversas partes do corpo. Segundo o  Ministério da Saúde (MS), há pelo menos três causas da doença. Confira no quadro abaixo. 

    Causas da Depressão
    Causas da Depressão | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Há ainda fatores de risco que podem contribuir para o desenvolvimento da depressão, segundo o MS. Os principais são históricos familiares, transtornos psiquiátricos já existentes, estresse crônico, dependência de álcool e drogas, traumas psicológicos, dentre outros. 

    "Quando temos um paciente com depressão, nós precisamos ter dois critérios diagnósticos fundamentais. São sintomas que eles demonstram e todos precisam ficar atentos. O cansaço e a perda de energia são alguns. Às vezes, esses indivíduos até tentam substituir esse esgotamento com vitaminas e similares para tentar recuperar a força. Ela não sabe que precisa mesmo de tratamento psicológico e psiquiátrico, eventualmente", afirma a especialista.

    Causas da Depressão
    Causas da Depressão | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    Outro sintoma, também segundo ela, é a perda de prazer. Atividades que eram consideradas positivas e prazerosas, de  repente perdem o poder. A médica cita o exemplo de idosos que amavam brincar com netos ou jovens que gostavam de sair com amigos, ver séries e filmes. Quem tem depressão, sente que essas atividades 'perderam a graça' constantemente.

    O tratamento nos dois casos

    A psiquiatra  explica que diferenciar depressão e ansiedade ajuda em um melhor diagnóstico e tratamento, dentre outros fatores. Segundo a médica, nos dois casos os tratamentos têm dois focos, a psicoterapia e o uso de remédios. 

    "A psicoterapia é realizada com acompanhamento psicológico e o tratamento farmacológico é feito por médico psicoterapeuta. No entanto, casos leves de depressão podem ser tratados sem necessidade de remédio", afirma a profissional. 

    Ela diz que os depressivos moderados e graves, por sua vez, tomam remédios com ação química cerebral e que vão auxiliar tanto na depressão como na ansiedade. Alessandra aproveita para ressaltar que procurar um profissional adequado é essencial para conseguir realizar um bom tratamento.

    "Vemos as vezes exaltarem o uso de remédio tarja preta para dormir ou tratar ansiedade, mas é preciso lembrar que esses fármacos podem gerar dependência química, logo, é necessário ter acompanhamento médico, mesmo porque estamos falando de doenças", diz a psiquiatra.

    Não espere o pior para procurar ajuda

    Não faltam relatos de quem enfrentou a depressão ou ansiedade, afinal as patologias afetam pessoas sem distinguir gênero, cor ou classe social. Nauzila Campos é jornalista, advogada e se tornou ativista pela saúde mental após uma experiência com depressão. 

    "Eu diria que no meu caso, a doença se intensificou com a minha própria negligência com os sintomas. Antes de a situação se agravar, eu já estava há dois anos sentindo e percebendo que havia algo de errado com a minha saúde mental, mas eu ignorava", diz Nauzila.

    Nauzila diz que a depressão acabou por a transformar em uma pessoa melhor
    Nauzila diz que a depressão acabou por a transformar em uma pessoa melhor | Foto: Reprodução

    Ela conta que passou muito tempo em isolamento social, com grande irritação e acúmulo de problemas familiares, em relacionamentos e amizades. Até mesmo a produtividade dela reduziu e isso se somou à perda de sono e de peso. 

    "Tudo isso se acumulava e eu achava que conseguiria resolver sozinha, como se não fosse um problema de saúde como outro que eu preciso de ajuda profissional. E eu só procurei efetivamente quando as coisas se agravaram de uma forma que nem trabalhar eu conseguia mais, porque eu não tinha concentração para isso", lembra a jornalista.

    Depois de tentativas de suicídio e quadros graves de depressão, ela conta que em 2016 buscou ajuda profissional e pôde finalmente iniciar o tratamento e entender o que se passava com ela. Nauzila lamenta ter demorado para buscar ajuda e diz que esse se tornou um de seus principais conselhos a quem lhe pede ajuda.

    "Essa experiência me trouxe a missão de ajudar também quem passa por isso. Por causa da minha experiência, passei a ser procurada e ajudar outras pessoas. Criamos um grupo chamado Acolhida e por meio dele trocamos experiências em comum e partilhamos histórias. É uma forma de nos sentirmos acolhidos e de perceber que não estamos sozinhos", afirma ela.

    Nauzila diz que a depressão foi uma experiência que lhe fez mais forte. Depois dela, a ativista pela saúde mental diz que passou a ser muito melhor do que era antes.

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