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    Comportamento


    Gays egodistônicos: como é quem não aceita a própria sexualidade

    Se por um lado alguns têm orgulho de ser quem são, outros preferem 'se esconder em um armário'. Saiba como isso pode ser um problema e desencadear até ansiedade e depressão

    Sexualidade egodistônica está presente em parte dos gays e bissexuais | Foto: Romulo Faro

    Manaus - Em junho foi comemorado, em todo o mundo, o Dia do Orgulho LGBTQ+, voltado a celebrar o amor e o direito de existir dessa população. Mas se por um lado, alguns batem no peito e levantam uma bandeira colorida, outros se escondem e preferem que seja assim. Sexualidade egodistônica é uma condição onde a pessoa não aceita sentir atração pelo gênero que percebe ter interesse. 

    O fenômeno tem vários motivos, explica Sebastião Nascimento, psicólogo e especialista em sexualidade. Segundo ele, o preconceito da sociedade, o contexto cultural e a religião podem ser determinantes em como a pessoa irá aceitar seu comportamento.

    "Esses indivíduos 'assumem' a identidade sexual, no entanto, transtornos psicológicos causam uma confusão muito grande em suas mentes, o que faz com que eles tenham prejuízos psicológicos. Normalmente essa pessoa tem a relação sexual e após isso começa a sentir nojo de si mesma", diz Nascimento.

    Sebastião é especialista em sexualidade e atua em Manaus
    Sebastião é especialista em sexualidade e atua em Manaus | Foto: Divulgação

    Por conta dessa confusão, o sexólogo conta que muitos egodistônicos procuram fazer terapia para entender o que está acontecendo. Nascimento ressalta que o tratamento não consiste em uma 'cura gay', já que a sexualidade não é doença, mas em fazer o indivíduo entender o que sente.

    "Porque normalmente eles estão em ambientes religiosos e ficam com a sensação de que se performarem a sexualidade irão para o inferno, ou morrer, e por aí vai. Mesmo com esse medo, eles ainda têm impulsos sexuais e sempre se arrependem depois de transar. Isso prejudica a mente e em casos piores, pode até levar ao suicídio", afirma o profissional.

    Quem se aceita é mais feliz

    Um estudo da Universidade do Porto, em Portugal, demonstrou que pessoas que não assumem a sexualidade têm muito mais sentimentos negativos em comparação aos que se aceitam como são. 

    Para encontrar os resultados, os pesquisadores entrevistaram 47 homens e 43 mulheres, todos identificados como gays ou bissexuais. A idade variou dos 14 aos 42 anos.

    "Os nossos resultados revelam que os homossexuais são confrontados com um difícil dilema quando devem escolher entre revelar ou não revelar a sua orientação sexual. Em conformidade com a opinião dos especialistas e das pessoas leigas, os [...] homossexuais consideram que os gays ou bissexuais não assumidos têm uma maior probabilidade de experimentar sentimentos negativos, mas podem [...] ser menos discriminados do que os gays ou bissexuais assumidos", afirma a conclusão do estudo.

    Fonte na imagem
    Fonte na imagem | Foto: Em Tempo

    Relato em Manaus

    Histórias não faltam de quem um dia esteve na condição egodistônica. Williams Henrique, 22, é um estudante que viveu a confusão mental causada por não aceitar a própria sexualidade. 

    "Frequentei a igreja desde criança, apesar de meus pais não serem evangélicos. Foi tranquilo até uns 12 anos, mas depois dessa idade comecei a perceber que sentia atração por homens, além das mulheres", conta o jovem. 

    Ele diz que na igreja aprendeu que o homem havia sido feito para a mulher e que qualquer diferença disso era um pecado, uma abominação. Além disso, foi ensinado que, sendo homem, se tivesse qualquer relação com alguém do gênero masculino, seria mandado para o inferno, morto ou pegaria alguma doença.

    "Isso tudo me dava muito medo, eu ia por conta própria para as orações das igrejas e chorava muito. Eu perguntava o porquê de Deus ter me feito daquela forma, uma abominação. Para a igreja, eu estava com um demônio no meu corpo que se manifestava no meu jeito de falar e andar", lembra Henrique, já emocionado. 

    Tratamento para sexualidade egodistônica é entender o que se sente
    Tratamento para sexualidade egodistônica é entender o que se sente | Foto: Arquivo Em Tempo

    "Viver essa experiência me deixou muito mal. Tentei me livrar da minha sexualidade com orações, indo a palestras e tendo conversas semanais com o pastor para 'me curar', mas não dava certo. Por tudo isso, eu acabei desenvolvendo sintomas de ansiedade e depressão e até pensei em tirar minha vida, de tão mal que eu estava", afirma o estudante, agora em lágrimas.

    Henrique conta que tentou de tudo para "tirar aquilo" de dentro dele, e que passou a sentir nojo de si próprio. "Eu ia para as sessões de cura interior e ficava querendo vomitar de tanto nojo que faziam eu sentir de mim", lembra o jovem.

    Segundo ele, as coisas só melhoraram já aos 17 anos, quando ele passou a ter relações com outros garotos. À época, a avó dele o levou em um psicólogo, que conversou com ele e com a família.

    "Ele teve uma conversa franca com a minha mãe e desde então tudo melhorou. Minha família me aceitou e eu também me aceitei. Não posso dizer que está tudo perfeito, porque fiquei com sequelas de ansiedade e depressão, mas melhorou muito", afirma Henrique. 

    A terapia de aceitação

    De volta ao sexólogo, ele ressalta que se você estiver com dúvida sobre a própria sexualidade ou for familiar de alguém que esteja, o primeiro passo é procurar ajuda profissional. 

    "Não fique contando para pessoas que não têm nada a ver com isso, procure logo um psicólogo ou sexólogo. Essas pessoas vão ajudar a entender e a tirar as dúvidas", comenta Nascimento.

    Ele diz que na terapia o profissional vai trabalhar para que o indivíduo aceite a própria sexualidade e também que a família dele passe pelo mesmo procedimento, se possível.

    "Porque quando os pais ou responsáveis aceitam, normalmente fica mais fácil para a pessoa entender o que está acontecendo com ela mesma. A gente faz uma psicoterapia em família onde todos participam. Nesse modelo, todos são ouvidos e ao fim o profissional explica o que está acontecendo, o que é a sexualidade ou identidade sexual e o porquê daquilo ser normal", afirma o especialista.

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