Coronavírus


Covid-19 pode deixar sequelas irreversíveis no coração, aponta estudo

Novo estudo feito por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, observou como a Covid-19 afeta o coração dos infectados

Coração está entre as partes do corpo afetadas pelo novo coronavírus | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Manaus - Um novo estudo feito por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, atestou para graves problemas que podem ser gerados no coração de quem está infectado com o novo coronavírus. Para chegar ao resultado, foram analisados ecocardiogramas [ultrassom no coração] de mais de 1,2 mil pacientes, em 69 países. Confira o que os cientistas descobriram.

Os estudos atestaram que mais da metade  (55%) dos pacientes analisados apresentaram anormalidades no coração. Destes afetados, 1 em cada 7 desenvolveram sequelas consideradas 'severas'.

Ainda na lista de danos ao coração, 479 pacientes (39%) apresentaram danos no ventrículo esquerdo e direito, os quais são responsáveis por bombear o sangue do coração para o corpo.

Além disso, 36 pacientes (3%) se mostraram em risco para infarto, assim como outros 35 (3%) apresentaram miocardite, uma doença provocada pela inflamação do coração. Por fim, a doença cardíaca grave (disfunção ventricular grave ou tamponamento) foi observada em 182 (15%) doentes

Dos 1,2 mil pacientes estudos, 901 não tinham doença pré-existente. Ainda assim, 13% deles apresentaram doença grave. O ecocardiograma resultou como 'anormal' em outros 46%. 

De acordo com o estudo, fazer uma análise de como estava o coração dos infectados fez com que médicos alterassem o tratamento de 33% deles. 

 A pesquisa foi feita durante os dias 3 e 20 de abril deste ano 

Como o estudo foi feito

Para chegar ao resultado, os cientistas observaram os exames dos 1,2 mil pacientes, sendo 70% deles do sexo masculino, com média de idade em 62 anos. A análise chegou ao conhecimento público após ser publicada no European Heart Journal - Cardiovascular Imaging, um periódico científico com estudos sobre o coração.

Os ecocardiogramas [exames] foram coletados por meio de um questionário on-line divulgado pelos pesquisadores. Nele, 11 perguntas deram conta de buscar informações como doenças pré-existentes, sexo, idade, dentre outras questões.

O estudo foi feito em países com alto número de infectados pela Covid-19, como o Reino Unido, Itália, Espanha, França e os Estados Unidos. O Brasil ficou de fora da lista, embora seja atualmente o segundo mais afetado do planeta pela doença.

Cardiologista explica sequelas

José Maria é um médico cardiologista que também atende pacientes que entraram em contato com o novo coronavírus. Embora não esteja ligado ao estudo acima, ele relata os efeitos da doença no coração humano com experiência nos doentes que já atendeu durante a pandemia.

Médico cardiologista atende em Manaus e já tratou pacientes com complicações por Covid-19
Médico cardiologista atende em Manaus e já tratou pacientes com complicações por Covid-19 | Foto: Divulgação

"Ele atinge o coração, e assim como inflama o pulmão, também inflama o coração. É o que chamamos de miocardite. Além disso, pode provocar fibrilação atrial e levar à insuficiência cardíaca e choque cardiogênico, quer dizer, o coração acaba parando de funcionar devido à ação do vírus. Muitas vezes isso é irreversível', informa o profissional.

De acordo com o médico, todo o coração fica inflamado, assim como o pulmão, o que dificulta o trabalho de bombear o sangue. Logo, o paciente sente falta de ar, e se desenvolver para fibrose, o coração pode ter problemas de funcionamento para sempre.

O cardiologista alerta para os riscos no coração em todas as idades, independente de grupo de risco.

"Já tive vários pacientes no meu consultório que chegaram comigo com o coração já 'estragado' por causa da Covid-19. Uma pessoa com o coração funcionando só 19%, com sequela pelo resto da vida. Um exemplo é um jovem de 36 anos. Tive que dar até invalidez permanente para ele, para se aposentar", relata o médico.

 Tratamento e cura

José Maria explica ainda que são poucos os casos de pacientes da Covid-19 que desenvolvem complicações no coração. O problema é, segundo ele, não se ter certeza quem será afetado.

"Com o coronavírus, são poucos os que desenvolvem sintomas graves da doença. Desses, menos ainda irão ter complicações sérias no coração. A grande questão é que nunca saberemos quem será a pessoa azarada, por isso é importante ter atenção a todos os casos", comenta ele.

Ele tranquiliza os ânimos e diz que, mesmo os afetados no coração, podem ter uma recuperação, ou seja, boa parte dos casos se recupera das sequelas. 

"Sabemos que esses pacientes daqui a um tempo terão uma vida normal. Ele está com o coração inflamado, não tem a mesma potência, mas com o passar do tempo, o organismo cura e volta ao normal. Isso vai depender, é claro, do tratamento", ressalta o cardiologista.

Segundo ele, a recuperação para esses casos é marcada por muito repouso e uso de fármacos indicados por profissionais da área. O tratamento pode durar entre um e três meses, sendo o início o período mais difícil.

"Os três sintomas são dor no peito, falta de ar e palpitação. É importante ficar atento a eles, em especial porque podem ser confundidos com a inflamação no pulmão, mas são casos diferentes. Para ter certeza da origem do que sente, procure profissionais habilitados e um cardiologista", orienta o médico.

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