Setembro Amarelo


Neste primeiro semestre, 65 pessoas cometeram suicídio em Manaus

Assunto ainda é tabu: o projeto Setembro Amarelo existe desde 2014 e visa a prevenção e o combate ao ato do suicídio

 

Em Manaus, é possível conseguir atendimento nas policlínicas, no CAPS, para casos graves, e nos ambulatórios das universidades. Para auxílio por telefone, pode-se ligar no 188 (Centro de Valorização à Vida)
Em Manaus, é possível conseguir atendimento nas policlínicas, no CAPS, para casos graves, e nos ambulatórios das universidades. Para auxílio por telefone, pode-se ligar no 188 (Centro de Valorização à Vida) | Foto: Setembro Amarelo 2020

Manaus – Há seis anos, o dia 10 de setembro é oficialmente o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Em Manaus, que representa mais da metade da população do Estado, cerca de 105 pessoas cometeram suicídio em 2019. Só no primeiro semestre do ano passado, 55 pessoas tiraram a própria vida, na capital. Já no primeiro semestre deste ano, o número aumentou, com 65 pessoas que cometeram o ato de suicídio. O levantamento foi realizado pelo Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp), com informações do Instituto Médico Legal (IML).

O projeto Setembro Amarelo foi idealizado e organizado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), com a intenção de orientar às pessoas sobre o assunto, valorizando a vida e evitando o ato. O projeto é anual, mas com ênfase no mês de setembro.

Causas

Segundo o portal do Setembro Amarelo, mais de 10 mil pessoas cometem suicídio a cada ano no Brasil e 1 milhão de pessoas no mundo. Dentro desses casos, 96,8% acontecem por motivos de transtornos mentais. Os mais comuns são a depressão, o transtorno bipolar e o abuso de substâncias químicas.

Situação grave e não isolada

A psiquiatra e membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicidologia (Abeps), Alessandra Pereira, explica que a maioria dos casos acontece por conta de doenças da mente.  “Mais de 90% dos suicídios são causados por transtornos mentais sem tratamento adequado ou o abuso de álcool ou outras drogas. No entanto, os casos ocorrem pela psicofobia, ou seja, porque as pessoas têm muito preconceito em relação às doenças mentais e pela desassistência no tratamento correto. Dessa forma, os casos só aumentam”, revela Alessandra, que também é membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Para a psicóloga, Raquel Lemos é primordial discutir o tema, porém, de maneira acertiva. “Precisamos falar sobre o assunto o ano todo porque o suicídio não é um caso isolado, e sim um problema de saúde pública. Para cada pessoa que tira a sua vida, outras três já tentaram cometer o ato e várias outras têm o pensamento de morte, alimentando um sofrimento mental durante muito tempo”, alerta.

Transtorno mental é a maior causa de mortes. É possível evitar o suicídio com o tratamento apropriado, contando com o auxílio de psicólogo e psiquiatra.
Transtorno mental é a maior causa de mortes. É possível evitar o suicídio com o tratamento apropriado, contando com o auxílio de psicólogo e psiquiatra. | Foto: Reprodução Internet

O assunto ainda é tabu

Sobre a abordagem do assunto, Raquel diz que a sociedade ainda não está preparada para falar sobre doenças mentais, o que gera preconceito. “Antes de falar de suicídio, é preciso conscientizar que a depressão é uma doença, que a dor não é frescura. A pandemia veio para nos alertar que precisamos cuidar da nossa saúde mental”, enfatiza. 

Existe um mito em torno de pessoas que ‘ameaçam’ tirar a própria vida, como se esta manifestação fosse uma tentativa de chamar a atenção. Na verdade, segundo a psicóloga, esse momento pode ser a última chance de salvar alguém. “Os números alarmantes nos mostram que quem diz que vai cometer suicídio na verdade está pedindo ajuda. Ela precisa ser ouvida. Ter depressão não significa que ela está acamada, chorando. Muitas pessoas estão nas ruas, trabalhando e sorrindo, porém, estão em dor extrema”, esclarece.

 Como perceber os sinais?

Diante de tantos casos, como evitar que a vida de alguém seja interrompida por meio da observação? Geralmente, pessoas com pensamentos suicidas, dizem algumas frases que podem parecer desânimo, porém, quando recorrentes, é hora de ligar o sinal de alerta e socorrer.

“Frases do tipo ‘eu preferia não acordar mais’, ‘eu não tomei banho’, ‘não consigo levantar da cama’, ‘minha vida não faz mais sentido’ são alertas para a gente entender que a situação não está boa. O que eu posso fazer para lhe ajudar? É uma pergunta que pode salvar vidas. A pessoa, que está sofrendo, não quer acabar com a vida, e sim com a dor, com o sofrimento. É neste momento que a campanha vem mostrar que a vida é importante e que essa situação pode ser revertida”, revela a psicóloga Raquel.

“O suicídio não é uma escolha, é um sintoma de uma doença”, afirma a psicóloga Raquel Lemos.
“O suicídio não é uma escolha, é um sintoma de uma doença”, afirma a psicóloga Raquel Lemos. | Foto: Reprodução Internet

Como socorrer?

Raquel ainda comenta que existe o medo em perguntar para uma pessoa que está sofrendo se alguma vez ela pensou em acabar com sua vida. A pessoa pode perguntar, mas existem alguns cuidados para quem está doente. Jamais diga, ‘nossa, a sua família é tão boa, você tem tudo, reaja.’ Esse tipo de discurso traz culpa ao depressivo, agravando o caso. O ideal é não jogar mais culpa, mas valorizar a vida dessa pessoa.

De acordo com a Alessandra, uma pessoa só pode melhorar com o tratamento. Com a doença, a pessoa pode não ter forças para procurar ajuda, por isso, é necessário o apoio familiar. “Caso você conheça alguém que não quer mais viver, o importante é você tomar a atitude de buscar ajuda profissional - psicólogo ou psiquiatra habilitado. Com o tratamento, vai mudar o perfil químico cerebral, o comportamento e o pensamento do indivíduo, fazendo com o que ele deixe de se ver sem valor, sem amparo e sem esperança, achando que isso não vai mais modificar.”

A psiquiatra ainda traz uma alerta sobre o distanciamento emocional das famílias atuais.  “Muitas pessoas disfarçam os sintomas. Em uma era tecnológica, as famílias estão mais afastadas, pois cada um fica isolado no celular. Nem todo mundo vai perceber que isso está acontecendo em sua casa. O importante é ter uma boa conexão com quem você ama e saber o que a pessoa pensa”, orienta.

O projeto Setembro Amarelo desenvolveu um guia com o objetivo de levar informação às pessoas sobre as doenças e como evitar que mais casos aconteçam. Você pode realizar o download aqui: a Cartilha Suicídio Informando para Prevenir.

 

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