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    Saúde Mental


    Amazonas é o estado do Brasil que mais compra antidepressivos

    Dados do Conselho Federal de Farmácia mostram que o Amazonas foi o estado que mais passou a comprar antidepressivos e estabilizadores de humor durante a pandemia

    Dados foram atualizados durante a pandemia | Foto: Arquivo EM TEMPO

    MANAUS - Um novo levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostrou que o Amazonas está em primeiro lugar no ranking dos estados que mais compraram antidepressivos e estabilizadores de humor, em 2020. O crescimento foi de 29% em comparação com 2019, número maior que a média nacional de 17%. Segundo o CFF, um dos motivos para o AM liderar a compra dos fármacos pode estar relacionado ao trauma vivido pelo estado durante a pandemia, que já é considerada um dos momentos mais traumáticos de sua história.

    Foram quase 100 milhões de medicamentos controlados vendidos em 2020, em todo o Brasil. Além do Amazonas, apareceram no TOP 5 do ranking os estados do Ceará (2º), Maranhão (3º), Roraima (4º) e Pará (5º).

    De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, a procura por esses fármacos já estava em alta há pelo menos três anos, no Brasil. Em 2018, o aumento havia sido de 9%, e, em 2019, 12%. No entanto, a pandemia do novo coronavírus, que teve início em 2020, elevou essa porcentagem para 17% no ano passado.

    Um dos sentimentos mais comuns durante a pandemia é o medo que a doença atinja ou alcance pessoas próximas, como amigos e familiares. Esses pensamentos fizeram com que o jornalista Fred Santana, de 40 anos, precisasse buscar ajuda profissional. Ele é autor do site Vocativo, de Manaus. 

    "Eu tive Covid-19 em abril, porque a minha esposa trabalhava no hospital Delphina Aziz e acabou se contaminando. Ela teve sintomas mais fortes que os meus, mas, para mim, a tensão da expectativa de ser infectado e a confirmação de que estava doente foi muito traumática", relata ele. 

     

    Crise da falta de oxigênio, em janeiro, em Manaus
    Crise da falta de oxigênio, em janeiro, em Manaus | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Fred diz que o momento de maior tensão foi quando restou comprovada a possibilidade de reinfecção pela doença.

    "Quando a ciência confirmou ser possível pegar de novo [a doença], entrei em pânico. Redigi a matéria [em meu site jornalístico] tremendo. Veio o medo de passar por tudo aquilo de novo. Tive sérios problemas de ansiedade e depressão. Era muito difícil trabalhar. Precisei buscar terapia por meses", conta o jornalista. 

    Embora não tenha recorrido a antidepressivos, Fred diz ter sido necessário se dedicar às conversas com um psicólogo por videoconferência, o que lhe ajudou a controlar seus medos.

    Possíveis causas

    A covid-19, embora seja conhecida do mundo há mais de um ano, ainda esconde muitos segredos sobre sua atuação enquanto doença, mas casos de depressão e ansiedade já estão sendo relacionados à patologia.  

    Em estudo realizado em Milão, na Itália, pesquisadores entrevistaram 402 pacientes curados da covid-19, entre 6 de abril a 9 de junho de 2020. Como resultado, cientistas descobriram que mais da metade dos pacientes (55,7%) demonstrava algum sintoma de ansiedade, depressão, insônia, transtorno obsessivo-compulsivo ou transtorno de estresse pós-traumático. 

    Para o psicólogo e psicoterapeuta José Trintin, o aumento dessas psicopatologias está associado ao momento de tensão que vive toda a humanidade durante a pandemia.

     

    Psicólogo aponta possíveis causas para o aumento da venda de antidepressivos
    Psicólogo aponta possíveis causas para o aumento da venda de antidepressivos | Foto: Divulgação

    "O isolamento social, o impacto psicológico de ser acometido por doença grave com potencialidade de morte ou a preocupação de infecção de familiares pode gerar grande instabilidade emocional, necessitando de intervenção psicológica profissional na pessoa acometida por essas sensações", afirma o profissional.

    Trintin traz um destaque para os efeitos na mente de cenas catastróficas que foram assistidas por brasileiros e, em especial, os amazonenses. Pessoas morreram na porta dos hospitais durante a pandemia, enquanto outras padeceram sem oxigênio quando internadas em hospitais.

    "Diante dessa alta no número de vendas de antidepressivos, se faz necessário propor ações no campo da saúde mental para evitar uma nova pandemia, desta vez de distúrbios psicológicos e psiquiátricos decorrentes de tanto sofrimento emocional", afirma o especialista.

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