Neste domingo, muitos pais receberão abraços, mensagens, presentes e homenagens. E merecem. O Dia dos Pais é uma oportunidade de celebrar homens que participam da construção da vida de seus filhos. Mas a data também convida a olhar para o significado de ser pai.

Durante muito tempo, a figura paterna foi associada principalmente ao sustento, à proteção e à autoridade. Esses papéis continuam importantes, mas hoje sabemos que a presença do pai alcança muito mais. Ela também está no cuidado, na escuta, na brincadeira, nos limites, na escola, nas consultas, nos medos e nas pequenas conquistas do cotidiano.

A ciência tem ajudado a demonstrar o impacto dessa participação. Uma meta-análise recente, reunindo 65 estudos e mais de 154 mil crianças, encontrou associação entre maior envolvimento paterno e melhores competências socioemocionais na primeira infância. Afeto, responsividade e envolvimento positivo aparecem entre os aspectos relevantes dessa relação (ZHENG et al., 2026).  Ser um pai presente não significa estar disponível o tempo inteiro nem acertar sempre. Significa construir vínculo: conhecer o mundo do filho, perceber quando algo muda, acompanhar seu crescimento e oferecer segurança para que ele saiba que não está sozinho.

Essa presença ganha novos significados quando o desenvolvimento da criança segue caminhos diferentes do esperado. Para pais de crianças autistas ou com outras condições do neurodesenvolvimento, ser pai pode envolver aprender novas formas de comunicação, compreender comportamentos, participar de avaliações, conversar com a escola e descobrir outras maneiras de brincar, ensinar e promover autonomia.

Não se trata de transformar o pai em terapeuta, mas de reconhecer que ele também faz parte do cuidado. Sua presença pode estar no acompanhamento das avaliações, nas conversas com a escola, na compreensão das necessidades do filho e, sobretudo, na construção cotidiana de segurança, vínculo e autonomia. Valorizar a paternidade é também reconhecer esse lugar de participação, afeto e responsabilidade na vida da criança.

Isso não diminui o papel materno nem estabelece um modelo único de família. Crianças podem crescer cercadas por diferentes redes de afeto, proteção e cuidado. Mas, quando um pai está presente nessa história, sua participação pode representar uma fonte importante de segurança, referência e pertencimento.

Ser pai não é apenas prover. É acompanhar. É ensinar e aprender. É colocar limites e oferecer colo. É proteger sem impedir que o filho cresça. É estar nas grandes decisões, mas também nos acontecimentos pequenos que, muitas vezes, são justamente os que ficam.

Por isso, celebrar o Dia dos Pais faz sentido. Celebramos os homens que assumem esse lugar com responsabilidade, afeto e presença e que, nas atitudes do cotidiano, mostram aos filhos: “você pode contar comigo”. Os presentes serão abertos e as fotografias ficarão guardadas, mas o que um pai constrói na relação com um filho pode atravessar muitos anos.

Talvez esse seja um dos maiores presentes da paternidade: deixar na vida de alguém a certeza de que houve um pai disposto a estar ali.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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