A mochila ainda está guardada, mas a volta às aulas já começou dentro de casa. Nos últimos dias de férias, muitos pais percebem que os filhos estão dormindo tarde, acordando sem horário, usando mais telas, resistindo aos combinados e reclamando quando o assunto “escola” aparece. O que parece preguiça, birra ou má vontade pode ser, muitas vezes, dificuldade de transição.

Depois de semanas com horários mais flexíveis, o retorno à escola exige que o corpo e a mente da criança reencontrem ritmo. Acordar cedo, vestir uniforme, separar material, lidar com colegas, professores, tarefas e regras não é apenas uma mudança de agenda. É uma reorganização emocional.

A American Psychological Association orienta que a preparação para a volta às aulas comece antes do primeiro dia, com retomada gradual da rotina familiar, conversa sobre inseguranças e, quando possível, aproximação prévia com o ambiente escolar. Essa previsibilidade ajuda a reduzir a ansiedade diante do desconhecido. Para a criança, saber o que vai acontecer é uma forma de segurança.

A literatura sobre ansiedade infantil também mostra que a escola pode ser tanto um espaço de proteção quanto de tensão. Pesquisadores como Ginsburg e colaboradores destacam que sintomas ansiosos em crianças frequentemente aparecem no contexto escolar, em forma de medo de errar, insegurança social, resistência para ir à escola, queixas físicas, dificuldade de separação ou preocupação excessiva com desempenho. Por isso, a volta às aulas precisa ser olhada também como um processo emocional, não apenas logístico.

Um dos primeiros pontos a reorganizar é o sono. Nas férias, é comum dormir mais tarde, acordar fora de hora e usar telas até perto da madrugada. Mas o sono é um organizador importante da atenção, do humor, da aprendizagem e da autorregulação. A American Academy of Sleep Medicine recomenda que os horários sejam ajustados gradualmente, antecipando a hora de dormir e de acordar aos poucos, para que o retorno não aconteça de forma brusca.

Na prática, isso significa começar alguns dias antes: reduzir telas à noite, preparar a mochila com a criança, separar uniforme, retomar horários de refeição, conversar sobre a escola sem ameaças e evitar frases como “acabou a moleza”. Para muitas crianças, esse tipo de fala aumenta resistência e ansiedade. Em vez disso, os pais podem dizer: “as férias foram boas, agora vamos ajudar seu corpo a voltar ao ritmo da escola”.

Também é importante validar sentimentos. A criança pode estar animada e insegura ao mesmo tempo. Pode querer rever os amigos e, ainda assim, sentir medo da rotina. Quando os adultos acolhem essa ambivalência, ajudam a criança a nomear emoções e atravessar a transição com mais confiança.

É preciso atenção, porém, quando a resistência é intensa e persistente. Choro diário, dores de barriga frequentes, dor de cabeça, crises ao sair de casa, isolamento, queda importante de humor ou recusa escolar não devem ser tratados apenas como manha. Podem indicar sofrimento emocional e merecem escuta cuidadosa.

A volta às aulas não começa no portão da escola. Começa alguns dias antes, quando a família ajuda a criança a reencontrar ritmo, previsibilidade e segurança. Com menos pressa, menos ameaça e mais organização, o retorno pode deixar de ser uma ruptura e se tornar uma passagem possível: das férias para a rotina, do descanso para a aprendizagem, da resistência para a confiança.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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