A líder e ativista indígena Vanda Witoto, conhecida por sua luta incansável pelos direitos dos povos indígenas, é a entrevistada do “Com a Palavra“. Em conversa exclusiva ao Em Tempo, ela reafirma seu compromisso político e expressa sua confiança de que o Amazonas ainda terá uma mulher indígena eleita.
Vanda Witoto, técnica em enfermagem, se tornou um símbolo da luta contra a Covid-19 ao atuar desde o início da pandemia em sua comunidade, a Parque das Tribos, em Manaus, sendo também a primeira indígena a ser vacinada contra a doença.
Em 2022, Vanda fez sua estreia como candidata a deputada federal, conquistando mais de 25 mil votos. Nas eleições de 2024, já filiada ao partido Rede Sustentabilidade Amazonas (Rede), ela tentou uma vaga na Câmara Municipal de Manaus (CMM) e obteve mais de 8 mil votos, tornando-se a segunda mulher mais votada da disputa, mas não conquistando vaga na CMM.
No “Com a palavra”, a ativista, que dedica sua vida à luta pelos direitos dos povos indígenas, afirmou que, embora ainda não tenha conquistado uma vaga nas eleições, continuará sua trajetória política. “Amazonas ainda terá uma mulher indígena eleita.”


Em Tempo — Vanda, em sua trajetória política, você tem se destacado pela luta em defesa dos direitos indígenas. Como você vê a evolução dessa luta e quais mudanças considera mais urgentes para os povos indígenas?
Vanda Witoto — Em 2016, eu inicio um processo de compreensão da necessidade da luta política para garantia dos direitos dos povos indígenas, inicialmente porque a realidade em que estou inserida, mas logo pude perceber a realidade de outras populações vulnerabilizadas pelas instituições e pelos representantes políticos eleitos que não consideram a vida e os direitos fundamentais de outros sujeitos.
Nós povos indígenas, fomos deixados de fora dos processos democráticos por muitos anos. Isso começou a mudar em 2018, com a eleição da primeira mulher indígena deputada federal na história desse país, que foi Joenia Wapichana. Um marco histórico que possibilitou nos enxergarmos nesse espaço tão necessário e fundamental para os processos de garantias de direitos a esta população historicamente marginalizada e violentada.
Hoje, temos um Ministério dos Povos Indígenas, um marco na história desse país para pensar políticas públicas que contemplem a diversidade e a complexidade dos direitos dos povos indígenas.
ET — Além da educação, a senhora também se manifesta sobre questões climáticas e ambientais. Como você enxerga a relação entre os povos indígenas e as políticas ambientais na Amazônia?
Vanda Witoto — A educação tem sido uma das minhas principais atuações porque acredito que seja o principal mecanismo para percebermos nossas realidades, enxergarmos a negligência e as injustiças do Estado e das instituições, e assim permite que possamos lutar por nossos direitos. Esta tem sido a luta dos nossos povos e eu me somo a eles.
A política ambiental da Amazônia está a serviço de quem tem poder político e econômico para a exploração dos recursos naturais e dos nossos territórios. Nós, povos indígenas, historicamente enfrentamos invasões dos nossos territórios, a exploração de garimpo ilegal, extração de madeira e, a exemplo do potássio do Brasil, hoje impactando os territórios do povo Mura com articulação de políticos no nosso estado. Enquanto não tivermos forças políticas para esse enfrentamento, sempre estaremos ameaçados.
ET — Sabemos que você tem ganhado projeção internacional em temas como meio ambiente e direitos indígenas. Como pretende usar essa visibilidade para transformar o Estado em um exemplo de preservação e respeito aos direitos dos povos originários?
Vanda Witoto — A minha participação nas conferências climáticas e eventos internacionais tem colocado o Amazonas no mapa das discussões climáticas, uma vez que o nosso estado não tem protagonizado, através dos seus representantes governamentais, essa discussão.
Nas últimas conferências do clima que têm ocorrido ao redor do mundo, somos nós, povos indígenas do estado, que temos levado a realidade da emergência climática vivenciada pelas populações ribeirinhas e indígenas no Amazonas.
Mas essa visibilidade toda não contribui de forma prática, uma vez que, mesmo denunciando e discutindo essa realidade climática vivida pelos nossos povos na Amazônia, nós não ocupamos espaços de tomada de decisão, não ocupamos espaços de poder político para criar mecanismos de enfrentamento a essas realidades climáticas que estamos vivenciando.
Nós precisamos compreender que, para criarmos ações e políticas públicas de enfrentamento à crise climática, precisamos de gestores públicos e representantes políticos comprometidos com este enfrentamento.
ET — A criação de espaços de liderança para os indígenas é um dos seus objetivos. Como a senhora vê o papel das futuras gerações de indígenas na política local e quais iniciativas você gostaria de implementar em futuras propostas para fomentar essa liderança jovem no município?
Vanda Witoto — Tenho buscado realizar ações de formação e educação política junto ao meu partido, a Rede Sustentabilidade, e em parceria com o Instituto Witoto, para alcançarmos jovens e mulheres, encorajando a participação e ocupação da política em Manaus e nos interiores, com a expectativa de termos novas lideranças comprometidas com a ética, o direito coletivo, as políticas públicas e que se quebre a ideia de que a política é o mecanismo de enriquecimento próprio.
ET — Durante a pandemia, a senhora desempenhou um papel fundamental na disseminação de informações sobre a vacinação e na defesa dos direitos dos povos indígenas urbanos. Como você enxerga o impacto dessa experiência na sua atuação política atual e quais medidas seriam necessárias para garantir a inclusão dos indígenas urbanos nas políticas de saúde pública?
Vanda Witoto — A pandemia foi um cenário trágico que hoje completa 5 anos. Foi uma das experiências muito importantes na perspectiva de ampliar uma luta negligenciada por este estado do Amazonas e por este país em relação à garantia de direitos básicos e fundamentais às populações indígenas em contextos urbanos. A minha atuação na pandemia foi fundamental para que as instituições pudessem nos enxergar nesses espaços urbanos, onde está mais de 63% da população indígena brasileira, que até 2021 não tinha nenhuma assistência, nem de saúde, educação, água e energia em nossas comunidades.
E foi graças a essa negligência do estado que foi possível uma grande luta na pandemia. Eu escrevi uma carta para várias instituições reivindicando a construção da UBB, que hoje é uma realidade na comunidade Parque das Tribos.
Foi na pandemia que, junto com as lideranças desse território, conseguimos trazer uma escola municipal para as crianças indígenas da região do Tarumã-Açú. Conseguimos trazer água tratada para este território e energia regular. Mas este não é um exemplo replicado em outros territórios. Precisamos avançar e muito, sobretudo no quesito educação, que ainda é negligenciado neste município.
ET — A senhora se dedicou ao fortalecimento da identidade indígena e ao combate à negação da identidade nas áreas urbanas. O que a senhora avalia que pode ser feito para garantir o respeito e o fortalecimento dessa identidade nas escolas e espaços urbanos?
Vanda Witoto — Este país e a educação têm uma dívida histórica com nossos povos indígenas, uma vez que até hoje, em muitas escolas, o que se diz sobre nós, povos indígenas, é a reprodução de conceitos coloniais, racistas, preconceituosos e cheios de estereótipos que não dão conta da realidade e diversidade indígena.
E o mais grave é que temos uma lei, a 11.645, que obriga as escolas de educação básica a adotarem em seus currículos a educação indígena, mas que é negligenciada pelas escolas, contribuindo para uma sociedade que continua nos odiando e querendo ver nossos corpos marginalizados ou mortos, mesmo.
Queremos escolas não indígenas adotando uma língua indígena em seu currículo. Queremos escolas indígenas com estruturas adequadas. Queremos concursos para professores indígenas para nos dar segurança. Queremos alimento dos nossos territórios para todas as escolas onde há crianças indígenas. Queremos que as escolas públicas respeitem e adotem a lei 11.645 e que não lembrem dos povos indígenas apenas no dia 19 de abril. Visite uma comunidade ou aldeia indígena em Manaus. Somos mais de 66 comunidades em toda Manaus.
ET — Nas eleições de 2024, a senhora teve um ótimo desempenho, com mais de 8 mil votos. Quais são suas expectativas para as eleições de 2026? Pretende se candidatar novamente a algum cargo político ou buscar novos desafios? Você já está fazendo articulações políticas?
Vanda Witoto — Em três anos de caminhada política efetivamente dentro de um partido, essa caminhada tem sido muito hesitante, num processo de construção. Em 2022, foi a minha primeira caminhada como candidata a deputada federal. Tivemos 25.645 votos.
Para quem não vem de uma família tradicional de políticos, para quem não usou palanque político de ninguém, para mim foi uma grande conquista. Assim também, em 2024, fui a segunda mulher mais votada do pleito, um marco histórico em nossa jornada, mas que, infelizmente, essas estruturas continuam com mecanismos que não permitem pessoas como eu ocuparem esses espaços.
Seguimos nossas construções coletivas, acreditando que, como as formigas pequenas que constroem grandes formigueiros, seguimos nessa jornada. Este Amazonas ainda terá uma mulher indígena eleita.
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Obrigado, Vanda Witoto .
Obrigado, Vanda Witoto por não desisti de lutar pelo direito de todos nós.