Manaus (AM) – A obra de pavimentação da estrada que liga os municípios de Anori, Codajás e Anamã, no interior do Amazonas, ainda não saiu do papel. Prevista para ser entregue em 6 de janeiro de 2026, a estrada segue tomada pela lama e pelo abandono, enquanto o valor da obra, de mais de R$ 149 milhões, já foi pago por meio da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra).

O contrato n° 008/2023, firmado em julho de 2023 com a Construtora Pomar S/A e homologado pelo secretário da Seinfra, Carlos Henrique Lima, previa uma vigência de 660 dias — pouco mais de 1 ano e 9 meses. Na placa de obras, a data de início é 21 de julho de 2023. Porém, moradores da região afirmam que, até o momento, a única ação visível da administração foi a instalação da placa informativa. “Cadê o asfalto? Cadê o dinheiro? Cadê a fiscalização?”, questiona um dos moradores.

Prorrogações

Documentos oficiais mostram que o contrato já recebeu três prorrogações. O primeiro termo aditivo, em junho de 2024, acrescentou 60 dias à vigência. Em julho, a segunda prorrogação incluiu mais 180 dias. E, em dezembro, a terceira extensão determinou mais 300 dias para conclusão. Hoje, estima-se que a obra só será finalizada quase um ano depois do prazo inicial.

Segundo dados oficiais, mais de 56 mil pessoas são diretamente afetadas pela falta de infraestrutura. Anori possui cerca de 17 mil habitantes, Codajás quase 29 mil, e Anamã mais de 10 mil. Os três municípios dependem da produção rural, principalmente do açaí, mas o transporte da produção segue prejudicado pela estrada intransitável.

O ativista ambiental Matheus Garcia esteve na região e gravou vídeos denunciando a situação. Ele afirma que a estrada, apresentada como finalizada em 6 de janeiro de 2026, “é apenas conceito no papel”.

“Aqui deveria ter asfalto, qualidade de trabalho, acesso à saúde, facilidade à educação. Mas, ao contrário, temos 24 quilômetros de lama e descaso. Esse trajeto levaria 30 minutos com asfalto. Hoje, é tempo de vida roubado de quem trabalha cedo, de pais e mães de família. O prejuízo não é por falta de esforço, é por falta de estrada. O poder público está sabotando quem produz”, declarou Matheus.

Ele também relatou casos de emergência que ficaram mais difíceis devido à má condição da estrada. Um morador contou que um senhor mordido por cobras precisou de transporte improvisado até Anori, e que o percurso seguro, antes do abandono da estrada, levava menos de 30 minutos.

O deputado estadual Comandante Dan (Podemos) visitou, no dia 28 de julho, a comunidade Mato Grosso, em Anamã, dentro da caravana #FocoNaMissão. Ele destacou que o trecho de 22 km da AM-454, que liga Anamã a Anori e passa por Codajás, está intrafegável. Segundo o parlamentar, a má condição da estrada aumenta em até três vezes o custo do transporte por barco, prejudicando produtores familiares.

Moradores afirmam que a obra parece concluída apenas para quem observa a placa, que já apresenta sinais de ferrugem. Para eles, a falta de infraestrutura básica compromete a produção agrícola, o acesso à saúde e à educação, e reforça a sensação de abandono das zonas rurais do Amazonas.

“Colocar a obra finalizada em uma placa não é erro técnico. É enganar o povo, maquiar a realidade. Quem diz que entregou precisa ter coragem de olhar no olho de quem vive nesta lama e repetir que a estrada está pronta”, conclui Matheus Garcia.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) para questionar se há um novo prazo para a entrega da obra e aguarda resposta.

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