“Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, quando muito, louvá-la. Se quisermos louvá-la, precisamos ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos tê-la, ela está lá, ao nosso alcance, e podemos possuí-la sem qualquer esforço” (Santo Agostinho, Sermão 357).

Estamos no início de um novo calendário. Nele organizamos a nossa vida e a nossa coexistência. Na realidade nada muda no que denominamos passagem do ano. O ponteiro ultrapassou o tempo que tínhamos determinado, mas nada mudou. Somos os mesmos, a realidade continuou a mesma. Iniciar 2026 significou apenas uma mudança cronológica. O tempo da existência continua, pois não são os segundos, minutos, horas, dias, semanas e anos que contam, o que conta é o dia a dia no qual nos é dada a graça de ser sempre mais pessoa; para os seguidores e seguidoras de Jesus, irmãs e irmãos, filhos e filhas de Deus.

É no acontecer da cotidianidade que também vamos tecendo uma sociedade justa, fraterna, acolhedora, oportunizadora de vida para todos. Nessa tentativa que vamos superando a violência, a morte matada, o individualismo, os grupos fechados economicamente e politicamente. Nessa dinâmica que a paz vai se expandindo, tomando rosto e as crianças e jovens podem crescer e maturar na sua humanidade.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz, Papa Leão, ensina que a bondade é desarmante. A paz pede que estejam desarmadas as pessoas, as comunidades, os estados, os países. Desarmar de armas, desarmar os espíritos para que o bem, a bondade possa indicar os passos da convivência na beleza da justiça e da fraternidade.

Para que a paz se torne realidade, os políticos precisam desarmar-se dos interesses pessoais e de grupos econômicos. A paz não reina quando projetos políticos destroem a democracia, impedem o debate, destroem o meio-ambiente, usurpam terras indígenas, não possibilitam vida digna aos mais necessitados.

A “fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez, por isso, tentamos tão frequentemente negar os limites e fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade”(Papa Francisco, Carta ao Diretor do jornal Corriere della Sera). A direção escolhida é a paz. Paz que oferece oportunidade aos que não damos importância na sociedade.

Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, louvá-la, por isso indicá-la como caminho. Se quisermos louvá-la, devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases… ela está ao nosso alcance. A paz passa pela política, pois ela é possibilidade de uma convivência na cordialidade e na urbanidade. Torná-la possível na realidade política. A política não pode suportar a agressão, a violência seja em palavras, gestos ou decisões. A paz é desinteressada!

“A paz esteja convosco!” foi a saudação do Ressuscitado em meio às tensões e desilusões dos discípulos. Se desejamos vida nova, busquemos e ofereçamos a paz que está para além e para a quem dos interesses econômicos pessoais e de grupos. A paz está ao alcance! Desejá-la, semeá-la e distribuí-la!

 Cardeal Leonardo Steiner – Arcebispo de Manaus

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