Você pode não usar esse nome, mas talvez reconheça a sensação. Uma inquietação que aparece quando o calor aperta, quando a fumaça das queimadas volta, quando o rio sobe demais ou baixa além do esperado.
Em muita gente, isso vira irritação, cansaço mental, preocupação persistente, dificuldade de relaxar e sono pior. Esse conjunto de reações vem sendo descrito como ecoansiedade, termo usado para nomear o sofrimento psicológico associado às mudanças ambientais e climáticas (FIOCRUZ, 2024).
A Fiocruz destaca que ecoansiedade não é diagnóstico, mas pode ganhar intensidade quando eventos e perdas ambientais ameaçam segurança, rotina e futuro (FIOCRUZ, 2024). Na literatura brasileira, o tema já aparece em periódicos.
Um artigo na Psicologia USP discute a ecoansiedade como fenômeno psicossocial, ligado ao sentimento de perda e impotência, e defende que o enfrentamento passa por reconhecimento do sofrimento e fortalecimento de estratégias individuais e coletivas (COSTA, 2025).
Em Manaus e na Amazônia, isso costuma ser “no corpo”. O calor intenso e repetido afeta sono, disposição e humor. Uma análise divulgada pelo Jornal da USP, baseada em simulações para habitações populares, chama atenção para a frequência de calor interno extremo em Manaus, com grande parte do tempo em casa em faixas críticas em cenários futuros (JORNAL DA USP, 2025). Quando o ambiente não oferece descanso, a mente tende a ficar mais reativa e menos tolerante a frustrações.
Some-se a isso a alternância entre seca e cheia, mudanças nas chuvas e efeitos das queimadas sobre ar, saúde e economia doméstica. A previsibilidade diminui, a incerteza cresce, e a ansiedade encontra terreno: e se faltar água, e se a energia falhar, e se a fumaça piorar, e se o preço dos alimentos subir, e se crianças e idosos adoecerem.
A preocupação deixa de ser um pensamento e vira um estado. Um trabalho da UFAM reuniu evidências sobre impactos das mudanças climáticas na saúde mental na Amazônia, destacando estressores ambientais, vulnerabilidades sociais e efeitos cumulativos no bem-estar (SILVA, 2025). Em termos simples, é o futuro “batendo na porta” do presente.
Ecoansiedade não precisa virar paralisia. O objetivo não é “não sentir”, e sim regular o impacto emocional e transformar preocupação em ações possíveis, preservando qualidade de vida.
Orientações psicoeducativas para manejo da ecoansiedade com preservação do bem-estar
- Rotulagem emocional e identificação de gatilhos: nomeie a emoção e o disparador específico.
- Higiene informacional: janelas curtas de notícias e menos exposição contínua a conteúdos alarmistas.
- Autorregulação fisiológica em dias extremos: hidratação, pausas em ambiente ventilado e sono possível.
- Enfrentamento por ação possível: uma medida concreta e realista por semana reduz impotência.
- Suporte social: vínculos e iniciativas locais funcionam como fatores protetivos.
Na Amazônia, falar de ecoansiedade é falar de vida real. Reconhecer o sofrimento é um passo para se organizar, cuidar e atravessar tempos difíceis com mais presença e menos desgaste.

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