A frase que dá título a este texto é atribuída ao filósofo e historiador britânico Robin Collingwood (1889–1943), um dos mais importantes pensadores da filosofia da história do século XX. Para Collingwood, compreender a ação humana exigia mergulhar nos registros do passado e sua sentença carrega um peso assombroso: se quisermos saber até onde a humanidade é capaz de chegar, basta olharmos para o rastro que ela já deixou na história, um rastro manchado por sangue, cinzas e lágrimas em proporções que desafiam a imaginação.

Desde os primórdios da civilização, o ser humano demonstrou uma capacidade única: a de organizar a destruição em escala coletiva. Guerras, massacres e genocídios não são anomalias isoladas no registro histórico, são recorrências perturbadoras que se repetem com diferentes protagonistas, em diferentes épocas, mas com a mesma lógica perversa: a de que certos grupos podem ser eliminados em nome de ideologias, religiões ou simplesmente do ódio.

O Holocausto nazista é um dos episódios mais sombrios dessa lista. Entre 1933 e 1945, aproximadamente seis milhões de judeus foram sistematicamente assassinados mediante um projeto burocrático e industrial de extermínio. Campos como Auschwitz e Treblinka funcionaram como fábricas da morte, onde seres humanos eram despidos de sua humanidade antes de serem mortos em câmaras de gás.

Em agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Em segundos, entre 70.000 e 80.000 pessoas morreram na primeira explosão, e dezenas de milhares sucumbiram nos meses seguintes à radiação. O mais perturbador não é apenas a escala da destruição, mas o fato de que a decisão foi tomada de forma fria e calculada por líderes democraticamente eleitos, revelando que a barbárie não é monopólio dos tiranos.

Antes das grandes guerras modernas, a história colonial já demonstrava o quanto o ser humano é capaz de naturalizar o horror. O tráfico transatlântico de escravos, que durou quatro séculos, arrancou entre 12 e 15 milhões de africanos de suas terras e os transformou em mercadoria. Esse sistema não foi construído por monstros, mas por comerciantes, advogados e políticos, pessoas comuns que escolheram o lucro em detrimento da humanidade.

Nas Américas, o extermínio dos povos indígenas é outro capítulo de crueldade imensurável. Estima-se que, antes da colonização europeia, o continente abrigava entre 50 e 100 milhões de pessoas. Em menos de dois séculos, doenças, guerras e massacres deliberados reduziram essa população a uma fração mínima. No Brasil, a violência contra os povos originários jamais cessou completamente, ela apenas mudou de forma.

O século XX, que prometia ser a era do progresso, foi também o mais letal da história. Além do Holocausto e das bombas atômicas, registrou o genocídio armênio (mais de 1 milhão de mortos), o genocídio cambojano (entre 1,5 e 2 milhões) e o massacre de Ruanda, onde 800.000 tutsis foram assassinados em apenas cem dias enquanto o mundo assistia em silêncio. A repetição não é coincidência, é padrão.

É preciso resistir à tentação de atribuir todas essas atrocidades a líderes excepcionalmente malignos. A filósofa Hannah Arendt, ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, cunhou a expressão “banalidade do mal” para descrever como pessoas ordinárias cometem crimes extraordinários quando inseridas em sistemas que normalizam a desumanização do outro. Os carrascos da história foram, em sua maioria, vizinhos e funcionários comuns, não monstros de outro mundo.

A frase de Collingwood não é um convite ao pessimismo, mas um chamado à lucidez. Ela nos diz que o potencial para a barbárie não pertence a uma época superada nem a uma nação específica, ele habita a natureza humana e se manifesta quando as condições institucionais e morais deixam de contê-lo. A história não é apenas um catálogo de horrores: é também um mapa de advertências que não podemos ignorar.

Sociedades que normalizam o esquecimento, que proíbem o ensino dos genocídios, que relativizam regimes de exceção, que tratam os crimes do passado como “capítulos virados”, estão removendo os freios que impedem a repetição do pior. Cada vez que a retórica do ódio é tolerada e os sinais de alerta são ignorados, o abismo se aproxima um pouco mais.

A humanidade já demonstrou que é capaz de construir câmaras de gás, lançar bombas que apagam cidades e acorrentar seres humanos no porão de navios. Essa é a pista que a história nos oferece. A questão que nos cabe responder, com urgência e responsabilidade, é o que faremos com esse conhecimento. Olhar para o passado com clareza não é um exercício de desespero: é a única forma honesta de lutar por um futuro diferente. 

Enquanto isso, neste exato momento atrocidades estão sendo cometidas, inclusive por povos que já foram vítimas, e nós estamos assistindo a isso de forma passiva, calada e indiferente. O bolso parece doer sempre mais do que o coração.

Farid Mendonça Júnior – Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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