Os discípulos viram o Senhor e Tomé desejou ver ele mesmo a Jesus. É admirável, pois ele mesmo deseja ver. Mais que ver, tocar o lugar dos cravos, o lugar da lança. Ele desejava ver e tocar o lugar da dor e da morte (cf. Jo 20,19-31). Não no ouvir dizer, no contar e recontar dos outros, mas ele mesmo.

Santo Agostinho diz como Tomé despertou para o ver a Jesus: “Via e tocava o homem, mas confessava Deus que não via nem tocava. Por meio do que via e tocava, venceu toda a dúvida, acreditou no que não via. Jesus lhe disse. Acreditaste, porque me viste. Não lhe disse por que me tocaste, mas porque me viste; por que a vista é como um sentido que reassume todos os outros. De fato, dizendo da vista somos levados a entender também os outros sentidos como quando dizemos: Escuta e vê que suave melodia, aspira e vê que bom odor, degusta e vê que bom sabor, toca e vê como está quente. Sempre se diz vê, mesmo se ver é próprio dos olhos. É assim que o Senhor mesmo disse a Tomé: põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Lhe disse: toca e vê, mesmo se Tomé não tivesse olhos no dedo. Dizendo: Acreditaste porque viste, o Senhor se refere seja ao ver que ao tocar. Se poderia também dizer que o discípulo não ousou tocá-lo, se bem que o Senhor o convidasse a fazer. O evangelista de fato não diz que Tomé o tenha tocado. Seja que o tenha somente olhado, seja que o tenha tocado, acreditou porque o viu; e por isso, o Senhor exalta e louva, de preferência, a fé dos povos, dizendo: Beatos aqueles que mesmo não vendo haverão de crer.” (Homilia 121, Comentário ao Evangelho de São João)

Tomé viu, como que entrou nas chagas e no lado aberto, e no ver contemplou o amor sem medidas, o amor desmedido. O amor que o amara até o fim. A ver, as chagas, é tocado, atingido no seu ser. Antes de tocar, foi tocado, antes de ver, foi visto. E na admiração, na simpatia, na afeição, na cordialidade, na reverência, exclama: “Meu Senhor e meu Deus”!

“Meu Senhor e meu Deus!”! Não que Tomé se apossasse de Jesus, mas desejou expressar a sua disposição e disponibilidade de ser todo dele, a sua nova pertença. Senhor se assim me amaste, sou todo teu, faze de mim o que quiseres, o que de mim fizeres eu te agradeço (cf. Charles de Foucauld). Como se confessasse, nada mais meu, mas tudo teu, todo teu: “Meu Senhor e meu Deus”!

Deus não se ofende de ser “meu”, “nosso”, pois o amor exige familiaridade, a misericórdia requer confiança. Entrando hoje, através das chagas, no mistério de Deus, entendemos que a misericórdia não é mais uma de suas qualidades entre outras, mas o palpitar do seu coração. E então, como Tomé, não vivemos mais como discípulos vacilantes; nos tornamos verdadeiros enamorados do Senhor! Não devemos ter medo desta palavra: enamorados do Senhor!” (cf. Papa Francisco, Homilia II Domingo de Páscoa, 2018).

Somos da linhagem de Tomé, pois vemos sem tocar, pois tocados. Jesus a dizer: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. E admirados exclamamos: “Meu Senhor e meu Deus!”.

Cardeal Leonardo Ulrich Steiner – Arcebispo Metropolitano de Manaus

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