A ofensiva militar dos Estados Unidos contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro no último sábado (3) marcou um novo capítulo na geopolítica mundial. A ação resultou na captura de Maduro e de sua esposa, intensificou tensões internacionais e pode aumentar o fluxo de migrantes na fronteira entre a Venezuela e Pacaraima (RR), afetando também Manaus.

De acordo com o IBGE (2022), o Amazonas é o segundo estado brasileiro com maior número de venezuelanos, abrigando cerca de 30 mil residentes. Desde 2017, o fluxo migratório aumentou devido à escassez de alimentos e à repressão política, que obrigou aproximadamente um terço da população a deixar o país.

Um levantamento do Obmigra, com base em dados da Polícia Federal, apontou que, de janeiro a outubro de 2025, cerca de 166.569 venezuelanos passaram pelo controle migratório brasileiro. Com os últimos acontecimentos, uma nova onda de migração pode atingir o Brasil, gerando preocupação entre autoridades e entre os venezuelanos que deixaram familiares no país.

Perspectiva positiva, mas cautelosa

Foto: Paulo Pinto\Agência Brasil

Residente em Manaus há quatro anos, a venezuelana Yulieth Garcia contou ao Em Tempo que a notícia da prisão de Maduro foi recebida de forma positiva por seus familiares, pois eles acreditam que agora uma nova esperança chegou ao seu país.

No início, trouxe medo, porque ninguém quer mais violência. Mas, com o passar dos dias, a esperança falou mais alto. Esperança de que o sofrimento do povo venezuelano finalmente seja ouvido, de que as injustiças parem e que as crianças possam crescer sem fome e sem medo de falar“, afirmou.

A situação é vista com mais cautela por Elvis Colmeiro, que deixou a Venezuela em 2018 e atualmente reside em Manaus. Para ele, a ação dos Estados Unidos foi apenas um primeiro passo que trouxe esperança à população, mas ele ressalta que a reconstrução do país não ocorrerá da noite para o dia.

Alguns amigos e familiares vivem na Venezuela, eles estão felizes, porém também apreensivos. Nós que estamos aqui fora conseguimos comemorar, conseguimos expressar o nosso sentimento, ali na rua, em diferentes lugares, nas redes sociais, mas tem pessoas lá que não podem fazer isso. […] Existe ainda o controle do regime do Maduro controlando o país ainda. Então é uma situação bem delicada que eles estão enfrentando lá, mas eles estão bastante felizes“, disse.

Para Elvis, a discussão sobre a intervenção na soberania de outro país é delicada, mas não supera a gravidade da crise econômica na Venezuela, onde a população já enfrentava repressão e parecia não reconhecer sua soberania.

Para mim, essa situação dos Estados Unidos ter intervindo no nosso país foi uma grande alegria. Nós sabemos e entendemos que, na teoria, um país intervir na soberania, porque o pessoal fala muito da soberania de outro país. Na teoria, realmente, isso é um grande erro. Mas nós entendemos que existem várias situações além do que aquilo, porque o que vale mais? A soberania ou a dignidade? Porque a nossa soberania, a nossa dignidade já foi tirada há muito tempo de nós. Então, nós não tínhamos mais uma dignidade, nem um país para chamar de nosso“, acentuou.

O Em Tempo também conversou com uma venezuelana residente em Manaus, que preferiu não se identificar. Ela relatou que, no momento, o sentimento predominante é de frustração, devido às muitas incertezas durante a transição de poder.

O sentimento predominante foi de expectativa seguida de frustração. Primeiro, houve esperança. Depois, confusão, causada por declarações contraditórias e por todo o processo envolvendo figuras do governo. Isso não fortaleceu a fé em uma solução próxima. Pelo contrário: aumentou a sensação de incerteza e desgaste emocional, tanto para quem está fora quanto para quem permanece no país“, destacou.

Ela afirma que o medo domina as relações entre os parentes, e que a comunicação é limitada devido à repressão vigente no país.

Já são seis anos sem abraçar meus pais, e isso dói muito. O que torna tudo ainda mais difícil é que hoje não posso nem me expressar livremente ao falar com eles. Mesmo em conversas familiares, prefiro não comentar certos assuntos para não correr o risco de, involuntariamente, colocá-los em perigo. Meu cuidado é comigo, mas principalmente com eles. Qualquer palavra pode ser mal interpretada, ainda mais sabendo que declarações podem ser monitoradas“, relatou.

Fluxo migratório e assistência em Manaus

Foto: Divulgação

Após a ação dos Estados Unidos na Venezuela, a fronteira com o Brasil chegou a ser fechada, mas foi reaberta e segue monitorada pelas autoridades. O governador de Roraima, Antonio Denarium, afirmou que a fronteira com a Venezuela não registrou aumento no fluxo migratório. Normalmente, entre 300 e 500 venezuelanos cruzam por dia; no auge da crise anterior, o número chegava a 2.000.

Nesse cenário, caso o fluxo migratório em Manaus aumente, será necessária a criação de uma força-tarefa para ampliar os serviços já disponíveis na capital amazonense.

Segundo levantamento da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc), com base no Cadastro Único de novembro de 2025, dos 45,1 mil refugiados e migrantes cadastrados na cidade, cerca de 42,7 mil são venezuelanos.

O Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias (Saiaf) Coroado, na Zona Leste de Manaus, oferece apoio a migrantes em situação de vulnerabilidade social, com alimentação, atendimento psicossocial, acolhimento humanizado e apoio pedagógico para os abrigados. O local conta com 38 dormitórios e encaminha os acolhidos para órgãos competentes e mercado de trabalho.

A diretora do abrigo, Célia Ferreira, destaca que o objetivo é estimular a independência dos migrantes:

Além de garantirmos os direitos deles, também trabalhamos para que todos saiam daqui preparados para a vida lá fora, com documentação e um trabalho. Além disso, temos uma rotina de atividades que visam o fortalecimento de laços das famílias e aulas de português para todas as idades”, disse.

A Operação Acolhida, criada pelo governo brasileiro em 2018, organiza a recepção e interiorização de migrantes venezuelanos na fronteira Norte, evitando que se repitam cenas de venezuelanos vivendo nas ruas de Manaus.

Futuro incerto

Foto: Reprodução

Com o atual cenário, países vizinhos à Venezuela observam com apreensão os desdobramentos da atuação dos Estados Unidos no país. Nesta quinta-feira (8), o presidente americano Donald Trump afirmou que a supervisão dos EUA sobre a Venezuela pode se estender por anos, sem um prazo definido.

No Brasil, uma portaria do Ministério da Justiça e Segurança Pública autoriza o emprego de agentes da tropa federativa em Boa Vista e Pacaraima (RR) pelos próximos 90 dias, podendo o prazo ser prorrogado. Durante esse período, os agentes apoiarão órgãos estaduais de segurança pública na preservação da ordem e na proteção da população.

Além disso, o governo federal firmou em dezembro um acordo para pagar R$ 115 milhões a Roraima como compensação pelos gastos com a migração de venezuelanos, em ação que tramita no STF desde 2018. O repasse será dividido entre segurança pública, saúde, educação e sistema prisional, e ainda depende de homologação pelo tribunal. Ainda não há informações sobre repasses semelhantes ao Amazonas.

O Em Tempo contatou a Sejusc para comentar eventuais preparativos diante de uma possível intensificação do fluxo migratório, mas não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

Em meio à tensão, o povo venezuelano espera ansiosamente pela recuperação da soberania do país e pelo reencontro das famílias, separadas por um longo período de dificuldades.

Tenho uma esperança de inclusive voltar para o país ainda em vida e vê-lo liberto, então acredito sim que possa melhorar nos próximos meses, mas além do que acreditar, eu estou torcendo para isso de verdade ser assim“, finalizou o venezuelano Elvis Colmeiro.

Leia mais: Força Nacional aumentará efetivo na fronteira do Brasil com Venezuela