A ansiedade que vemos em adolescentes hoje não é apenas uma fase da vida ou nervosismo passageiro. A Organização Pan-Americana da Saúde aponta que metade dos transtornos mentais se inicia antes dos 14 anos, tornando a adolescência um período crítico para a prevenção e o cuidado emocional. Trata-se de um alerta importante sobre o bem-estar de uma geração inteira.

A adolescência é marcada por intensas transformações neurológicas, sociais e emocionais. É quando se constroem identidade, vínculos e estratégias de regulação emocional. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por desempenho escolar, aceitação social e definição precoce de projetos de vida. Muitos jovens sentem que não há espaço para errar, descansar ou simplesmente não saber, o que favorece o surgimento de ansiedade e insegurança.

No Brasil, estudos confirmam esse cenário. Pesquisa publicada por Silva et al. (2025) na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde identificou que 34,3% dos adolescentes apresentaram sintomas moderados ou graves de ansiedade e 24,3% sintomas de depressão, evidenciando níveis elevados de sofrimento psíquico nessa faixa etária. Esses dados reforçam que não se trata de casos isolados, mas de um fenômeno coletivo que impacta o rendimento escolar, as relações sociais e a autoestima dos jovens.

Outro fator relevante é o uso das redes sociais. Estudos internacionais, como o de Yang et al. (2025), publicado no Journal of Medical Internet Research, mostram que a comparação social constante e a busca por validação online estão associadas ao aumento de sintomas ansiosos e depressivos. O problema não é apenas o tempo de tela, mas a forma como os jovens se comparam a padrões irreais de sucesso, beleza e felicidade.

Por trás das estatísticas, há histórias concretas de adolescentes que acordam com sensação de aperto no peito, evitam o convívio social e vivem sob medo constante de errar ou não corresponder às expectativas. Muitos não conseguem nomear o que sentem e passam a enfrentar o sofrimento sozinhos, afastando-se da família, dos amigos e da escola. É nesse ponto que o sinal de alerta precisa ser acionado.

Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar e irritabilidade persistente devem ser observados com atenção por responsáveis, educadores e pela sociedade. O cuidado começa quando esses sinais deixam de ser ignorados.

A neurociência e a neuropsicologia ajudam a compreender esse processo. A ansiedade prolongada mantém o cérebro em estado de alerta constante, ativando circuitos relacionados ao medo e à ameaça. Estratégias como rotina de sono, redução do estresse, vínculos sociais seguros e educação emocional ajudam o sistema nervoso a recuperar o equilíbrio.

Intervenções psicológicas baseadas em evidências fortalecem a regulação emocional, a flexibilidade cognitiva e as habilidades de enfrentamento. Buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza, mas de cuidado consigo mesmo. Quanto mais cedo o suporte chega, maiores são as chances de prevenir agravamentos.

A chamada geração ansiosa não adoece por falta de força de vontade. Ela é impactada por pressões sociais, excesso de estímulos e exigências precoces. Reconhecer esse sofrimento é o primeiro passo para construir uma juventude mais protegida emocionalmente, capaz de enfrentar desafios sem carregar culpa, medo ou solidão.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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