Recente estudo da Universidade de Oxford, repercutido pela Folha de São Paulo, que aponta a reprodução de preconceitos regionais por ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, merece atenção séria, mas também reflexão equilibrada.
Segundo o levantamento, respostas geradas por sistemas de IA atribuíram características negativas a regiões mais pobres, como estados do Nordeste e do Norte do Brasil, enquanto associaram atributos positivos a regiões mais ricas e ocidentais. O problema é grave. Não porque a tecnologia “pense” assim, mas porque ela pode acabar refletindo — e amplificando — preconceitos históricos já presentes na sociedade.
É preciso deixar algo muito bem explicado desde o início: não existe qualquer base científica, ética ou social para classificar povos, regiões ou culturas como mais ou menos inteligentes, produtivas ou dignas. Esse tipo de hierarquização é herança de visões coloniais, racistas e profundamente ultrapassadas.
Ferramentas de inteligência artificial funcionam a partir do reconhecimento de padrões em grandes volumes de dados. E a internet, infelizmente, não é um espaço neutro. Ela reflete desigualdades globais: a maior parte do conteúdo disponível foi produzida em países ricos, por grupos privilegiados, e muitas vezes carrega visões estigmatizadas sobre regiões periféricas, pobres ou historicamente exploradas.
Quando um modelo de IA “aprende” essas associações, ele não está validando verdades — está apenas reproduzindo frequências de linguagem, sem vivência, sem contexto e sem juízo moral. Como bem apontam os pesquisadores, a máquina não conversa com moradores, não analisa dados oficiais de forma crítica e não compreende a complexidade social de um território.
O risco surge quando respostas desse tipo passam a ser tratadas como verdades objetivas, rankings confiáveis ou análises técnicas. Aí, sim, estamos diante de um problema que pode afetar o debate público, decisões políticas, estratégias empresariais e relações de trabalho.
Por isso, o debate não deve ser “demonizar” a tecnologia, mas qualificar seu uso. Inteligência artificial é ferramenta — poderosa, útil e cada vez mais presente —, mas não substitui pensamento crítico, responsabilidade ética nem conhecimento da realidade brasileira.
O Brasil é diverso, complexo e absurdamente desigual. O Nordeste e o Norte não são sinônimos de atraso. São territórios de produção cultural, intelectual, científica e humana de valor inestimável. Reduzi-los a estereótipos é não apenas injusto, mas intelectualmente desonesto.
Cabe ao poder público, às universidades, às empresas de tecnologia e à sociedade civil discutir regulação, transparência e limites para o uso dessas ferramentas, especialmente em áreas sensíveis. E cabe aos usuários manter sempre uma postura crítica: nenhuma resposta automatizada pode substituir o discernimento humano.
A inteligência artificial pode ajudar a construir um país melhor, mas somente se for usada com consciência. Caso contrário, corremos o risco de apenas automatizar velhos preconceitos com novas tecnologias.

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