Manaus tem vivido um surto silencioso de jovens e adolescentes comprando e utilizando medicamentos para impotência sexual (destaca-se a Tadalafila aqui) indiscriminada e desnecessariamente. 

Mas você sabe o que acontece quando um adolescente saudável começa a usar tadalafila sem necessidade médica? Sabe, de fato, quais são as consequências desse hábito que tem circulado com naturalidade entre meninos cada vez mais jovens da nossa cidade? A pergunta pode parecer desconfortável, mas o silêncio em torno dela é ainda mais perigoso.

A tadalafila é frequentemente tratada como um atalho inofensivo para desempenho sexual, quase um “seguro” para evitar frustrações. Mas é preciso lembrar, sem rodeios: ela é um medicamento. Foi desenvolvida para tratar disfunção erétil em homens adultos, com indicação clínica clara, avaliação médica e contexto fisiológico específico. 

Quando um adolescente, cujo organismo transborda testosterona, vitalidade vascular e resposta erétil espontânea, recorre a esse fármaco, algo importante está sendo ignorado. O corpo dele não precisa de ajuda química para funcionar. Então por que está sendo ensinado a depender dela?

Na adolescência, o sistema hormonal está no auge. Testosterona em alta, libido pulsante, respostas fisiológicas rápidas e naturais. É justamente nessa fase que a função erétil tende a ser mais eficiente, não menos. 

Introduzir um medicamento vasodilatador nesse cenário não potencializa a sexualidade, mas distorce a percepção de normalidade. O jovem passa a acreditar que o desempenho depende de um comprimido, não do próprio corpo. Vale a reflexão: que mensagem isso envia para um menino em formação?

Os riscos físicos existem e não são raros. Queda de pressão, cefaleia intensa, taquicardia, rubor facial, alterações visuais e sobrecarga cardiovascular estão descritos em bula e bem documentados. Em organismos jovens, esses efeitos podem ser mais imprevisíveis. Mas talvez o impacto mais profundo não esteja no sistema circulatório, e sim na mente. O que acontece quando o adolescente associa confiança sexual a uma substância externa? O que ocorre quando ele acredita que, sem ela, não será suficiente?

Há ainda um componente cultural que não pode ser ignorado. Vivemos uma sexualidade cada vez mais precoce, performática e ansiosa. Meninos são pressionados a “dar conta”, a provar masculinidade, a corresponder a expectativas irreais construídas por redes sociais, pornografia e conversas de corredor. 

Nesse cenário, a tadalafila surge como uma resposta rápida para inseguranças silenciosas. Mas desde quando insegurança se resolve com prescrição clandestina?

As consequências a longo prazo merecem atenção. O uso repetido e desnecessário pode favorecer dependência psicológica, ansiedade de desempenho e dificuldade de resposta erétil sem o medicamento. 

É um paradoxo desconfortável: jovens que não tinham disfunção podem, com o tempo, desenvolvê-la justamente pelo uso precoce do remédio que nunca precisariam ter usado. Já tinha pensado nisso?

É aqui que o diálogo familiar se torna essencial. Pais sabem se seus filhos têm acesso a esse tipo de medicamento? Sabem de onde vem, quem incentiva, quem normaliza? Conversar sobre sexualidade não estimula comportamentos de risco. 

Pelo contrário, protege. Intimidade não é invasão, é presença. É criar um espaço onde o adolescente possa falar, perguntar, errar e aprender sem medo de julgamento ou punição.

Talvez o maior risco não seja a tadalafila em si, mas a ausência de conversa. Informação, vínculo e orientação continuam sendo as ferramentas mais eficazes de cuidado. A medicina tem seu lugar, e a tadalafila também. Mas definitivamente não no corpo de meninos ainda em formação física e psicológica.

Natasha Mayer

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